O cuidado parental é essencial para a sobrevivência da prole, em especial dos filhotes altriciais. O mamífero marsupial Didelphis marsupialis, gambá-comum, apresenta curto período de gestação (12-14 dias) e longo período de lactação, de aproximadamente 100 dias. Ao nascer, o filhote é subdesenvolvido, apresentando imaturidade imunológica, o que torna este mais susceptível ao desenvolvimento de infecções. Todavia, através do leite materno, nutrientes e substâncias que conferem proteção para agentes infecciosos são transferidos para o filhote. O gambá-comum é considerado um animal sinantrópico, o que propicia em ambientes urbanos a presença de fêmeas com filhotes, sendo estas mais vulneráveis às ações antrópicas ou ataques por cães, pois se deslocam mais lentamente. A úlcera de córnea consiste em lesão do epitélio corneano com perda parcial ou total do estroma da córnea. É uma condição oftalmológica grave, ocasionada principalmente por traumas e/ou infecções, e que pode levar à perda da visão, se não for tratada. Neste contexto, relatamos a conduta terapêutica realizada durante tratamento de úlcera de córnea unilateral em filhote órfão de gambá-comum. Um filhote de D. marsupialis, fêmea, pesando 22g, foi resgatado no município de Barcarena-PA, após óbito da mãe por ataque de cão, e encaminhado por órgão ambiental ao Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Selvagens da Universidade Federal Rural da Amazônia, Belém-PA. Por tratar-se de um filhote, a terapêutica inicial consistiu em: glicose 50% (0,5mL/Kg, VO); fluidoterapia com Ringer Lactato (50mL/Kg, SC); aquecimento; e alimentação com posterior estimulação para defecação e micção. Além disso, preconizou-se suplementação diária com cálcio (41,18g/Kg de produto, 1mL/Kg, VO, SID). O manejo do animal ocorreu conforme protocolos de segurança e bem-estar animal. Contudo, após um mês e três dias de internação, observou-se secreção no olho esquerdo, sendo instituído uso de solução oftálmica de carmelose sódica 5mg/mL (1 gota em olho esquerdo, BID, 4d). Sem melhora, houve evolução para opacidade em córnea. Durante avaliação oftalmológica constatou-se úlcera de córnea através do teste de fluoresceína. Deste modo, estabeleceu-se uso de colírio antibiótico de sulfato de tobramicina 0,3% (1 gota em olho esquerdo, QID, 4d), porém, devido recomendação oftálmica e no intuito de cicatrização, houve substituição por colírio antibiótico cicatrizante a base de ciprofloxacina 0,3% e sulfato de condroitina 20% (1 gota em olho esquerdo, QID, 17d). Posteriormente, perpassados 17 dias de uso e conforme nova avaliação oftalmológica realizou-se alteração por solução oftálmica do antibiótico cloridrato de moxifloxacino 5mg/mL e de forma preventiva o mesmo foi administrado em ambos os olhos (1 gota em cada olho, QID, 10d). Visando auxiliar no processo de cicatrização também foram administrados: soro equino (1 gota em olho esquerdo, QID, 23d) e gel oftálmico lubrificante reepitelizante de dexpantenol 50mg/g (1 gota em olho esquerdo, QID, 42d). Quando ocorrida administração concomitante dos colírios, os mesmos eram realizados com intervalo de 10 minutos entre si. A duração completa do tratamento correspondeu a 51 dias. Ao término do tratamento, após reavaliação oftalmológica, diante da evolução do quadro do animal, constatou-se que as alterações terapêuticas foram necessárias e eficazes para a recuperação clínica do filhote.
Comissão Organizadora
Felipe José da Costa Andrade
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho
Gabriel Almeida de Oliveira Bezerra
Maria Clara Moura Silva
Comissão Científica
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho