O bem-estar e a qualidade de vida de primatas não humanos (PNH) mantidos sob cuidados humanos para a pesquisa biomédica é não só uma obrigação legal, como um dever ético e moral das pessoas que atuam com esses espécimes. Por se tratarem de animais gregários, o manejo comportamental para evitar estresse que cause comportamentos anormais, como o auto lesivo e estereotipias, é essencial. Aliado ao manejo clínico, a implementação de enriquecimentos ambientais (EA) atua na melhora da qualidade de vida, manutenção da saúde e bem-estar animal. O objetivo do presente estudo é relatar a oferta de EAs para PNH cativos em um centro de primatologia na Amazônia brasileira. Este trabalho foi realizado na Seção de Medicina Veterinária (SEMEV) do Centro Nacional de Primatas (CENP), por meio da implementação inicial de um plano de ofertas de EA, considerando os 4 primeiros meses do ano de 2025. Este plano seguiu os moldes do modelo S.P.I.D.E.R., com metas estabelecidas e o planejamento dos EAs com um dia de antecedência, sendo ofertados às 11h do dia seguinte, 2 vezes por semana. Todas as observações durante a permanência dos EAs nos recintos individuais foram documentadas em planilha física anexada à ficha clínica do paciente e, posteriormente, transcrita para um formulário digital, disponibilizado pela Seção de Ecologia e Meio Ambiente (SEEMA) da instituição. Quando usado EA do tipo alimentar, era priorizado o uso de frutas e ração calculada para a dieta diária de cada animal, respeitando o domínio nutricional. Entre janeiro e abril de 2025, foram oferecidos um total de 62 enriquecimentos, sendo 85,4% (n=53) do tipo alimentar, sensorial ou cognitivo e 14,5% (n=9) como ambientação ou físico, sendo as espécies com um maior número de ofertas: Saimiri collinsi 45,1% (n=28), diferentes espécies de calitriquídeos, com 24,1% (n=15) e cebídeos com 20,9% (n=13). Em relação ao tempo de oferta e interação, a média de permanência do EA no recinto foi de 3,2 horas, e a interação positiva foi mais recorrente, com percentual de 90,3% (n=56) enquanto neutra foi de 9,6% (n=6). No que tange ao comportamento dos animais na presença dos enriquecimentos, observou-se uma menor ocorrência de movimentos estereotipados como rotação da cabeça e andar de um lado para outro, sendo vocalizações observadas em 8,1% (n=5) das ofertas. Entre os EAs utilizados, o alimento escondido em papel pardo (“pedra falsa”) foi mais frequente, com 14,5% (n=9), seguido de tubo de frutas, caixa surpresa e móbile com 9,6% (n=6) cada e varal de frutas com 6,4% (n=4). A oferta de EA é essencial para reduzir comportamentos estereotipados e estimular a curiosidade, proporcionando aos animais cativos e em tratamento oportunidades de expressar comportamentos comuns para a espécie, melhorando seu bem-estar e qualidade de vida. O monitoramento comportamental é essencial para observar indicativos que apontem para uma redução nos níveis de estresse, o que pode acelerar o processo de recuperação em animais de importância para a pesquisa biomédica, tendo em vista que a exposição a longos períodos de estresse pode reduzir a imunidade e predispor o animal ao adoecimento.
Comissão Organizadora
Felipe José da Costa Andrade
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho
Gabriel Almeida de Oliveira Bezerra
Maria Clara Moura Silva
Comissão Científica
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho