Nematódeos da família Acuariidae são caracterizados pela presença de cordões cefálicos como estruturas de fixação, capazes de infectar o trato digestivo superior de aves aquáticas e terrestres, causando lesões na mucosa nos locais onde estes vermes se alocam. O CETRAS-UFRA, recebeu através do IBAMA, um filhote de Corujinha-do-mato (Megascops choliba) em setembro de 2024, o qual foi encontrado em via pública e entregue ao órgão ambiental por munícipes. Em seu exame clínico inicial, não foram observadas alterações nos parâmetros vitais. Seguindo o protocolo padrão de estabilização, considerando que não há informações precisas sobre há quanto tempo o animal está sem alimentação, foi realizada fluidoterapia (50ml/kg/SC) e administração de glicose (1ml/kg/VO) como medida preventiva. Dessa forma, o animal ficou aos cuidados do CETRAS até ser capaz de executar seu vôo plenamente. Entretanto, durante a pesagem semanal e avaliação do animal, observou-se helmintos filiformes aderidos à cavidade oral, principalmente na região de orofaringe, que anteriormente não haviam sido observados. Os parasitas foram cuidadosamente removidos com auxílio de uma pinça anatômica e acondicionados para posterior identificação taxonômica. Apesar da presença dos parasitos, não foram observadas repercussões clínicas aparentes no espécime, o que pode estar relacionado à carga parasitária reduzida, à localização superficial ou à intervenção precoce, em que se utilizou como medida terapêutica fenbendazol (25mg/kg/VO), um antiparasitário eficaz no tratamento de nematódeos gastrointestinais, garantindo o controle da infecção. O tratamento foi bem tolerado e, nas avaliações subsequentes, não foram mais observados helmintos na cavidade oral. Na análise inicial, os helmintos (9 fêmeas e 3 machos) foram identificados como pertencentes à família Acuariidae. Embora existam diversos relatos de infecções por vermes em aves de rapina, principalmente envolvendo o trato gastrointestinal, registros de parasitos filiformes localizados na cavidade oral são raros, não havendo, até o momento, relatos consolidados na literatura científica sobre casos semelhantes no território brasileiro. A escassez de literatura sobre helmintoses orais em aves silvestres limita a compreensão sobre os ciclos biológicos desses parasitos, vias de infecção e seus impactos clínicos, contudo, sabe-se que geralmente essas infecções comprometem a alimentação, causa lesões orais, estomatites secundárias e debilitar o animal, sobretudo em indivíduos jovens ou em reabilitação, assim o caso reforça a necessidade de estudos mais aprofundados sobre helmintoses em aves silvestres da região amazônica, com foco especial em parasitos de localização atípica, cuja ocorrência pode estar subestimada devido à baixa frequência de inspeção minuciosa dessa região em atendimentos de rotina, além de destacar a relevância de investigações moleculares para o esclarecimento da diversidade parasitária em fauna amazônica.
Comissão Organizadora
Felipe José da Costa Andrade
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho
Gabriel Almeida de Oliveira Bezerra
Maria Clara Moura Silva
Comissão Científica
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho