A manutenção da saúde oral de primatas não-humanos (PNH) necessita de cuidados rotineiros, visto que cada espécie possui sua dieta específica, e dietas inadequadas ou semelhantes às dos humanos provocam lesões odontológicas, desde cálculos dentários a fraturas com exposição pulpar traumática, resultando no surgimento de fístulas infra-orbitárias. Animais portadores dessa afecção podem apresentar perda de apetite e prejuízos ao seu bem-estar em cativeiro, facilitando a ocorrência de outras complicações sistêmicas. Dito isso, este trabalho visa relatar caso de exodontia em mico-leão-da-cara-dourada (Leontopithecus chrysomela), como medida de tratamento para fístula infraorbitária. O animal foi atendido na clínica da Seção de Medicina Veterinária (SEMEV), do Centro Nacional de Primatas (CENP), no Estado do Pará - Brasil, onde um macho adulto de L. chrysomela, com 0,635 kg, foi admitido em virtude de edema facial em região infra-orbital direita, com secreção purulenta, sugestiva de fístula dentária. No exame físico, o animal apresentava mucosas normocoradas, escore corporal bom e normohidratado, sendo encaminhado para radiografia de crânio e avaliação odontológica para determinar a possível causa da fístula. Após avaliação, constatou-se morte dentária pela coloração enegrecida da polpa e comunicação com o edema facial, decorrente de fratura do canino superior direito com perda do esmalte e exposição pulpar. O tratamento proposto consistiu inicialmente na drenagem da fístula infraorbital e exodontia do canino acometido. O indivíduo foi submetido a sedação com associação de cetamina (7mg/Kg), midazolam (0,2mg/Kg) e dexmedetomidina (0,015mg/kg), por via intramuscular na mesma seringa. Cinco minutos após a aplicação, o animal apresentava sedação e relaxamento muscular ideais, com frequência respiratória, cardíaca e temperatura retal nos parâmetros fisiológicos da espécie. Para a drenagem, utilizou-se agulha 24G (20x0,55 mm) e foi realizada punção na região central da área fistulada. Com auxílio de gaze, aplicou-se leve pressão digital, levando ao extravasamento de conteúdo purulento. Para reduzir a sensibilidade local e controlar a dor, foram realizados botões anestésicos com lidocaína (5mg/Kg) sem vasoconstritor na base do canino. Utilizando lâmina de bisturi 15 e cinzel cirúrgico, realizou-se sindesmotomia com entrada no sulco gengival, ao redor de todo o dente lesionado. Após a ruptura das fibras do ligamento periodontal com fórceps, o dente foi tracionado com movimentos de pronação e supinação até a extração. No pós-cirúrgico imediato, o animal recebeu 0,03 mg/Kg IM de atipamezole para reverter os efeitos da dexmedetomidina e acelerar o retorno anestésico. Para o pós-operatório, foi prescrito pentabiótico (50.000ui/Kg, IM, dose única) e Meloxicam (0,2mg/Kg, IM, por dois dias). Prescreveu-se também pasta de banana, mamão e bolinho de ração umedecida específica para primatas (Megazoo, primatas), ofertados por dois dias. Passados dois dias da exodontia, não foram observados sangramentos, e o animal recebeu alta médica, podendo retornar à sua unidade reprodutiva. Conclui-se que o manejo profilático odontológico de primatas não humanos é fundamental para a saúde oral dos animais, no entanto, em casos de morte dentária, a exodontia, aliada a protocolo anestésico e pós-operatório adequados, demonstra ser tratamento eficaz, promovendo rápida recuperação.
Comissão Organizadora
Felipe José da Costa Andrade
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho
Gabriel Almeida de Oliveira Bezerra
Maria Clara Moura Silva
Comissão Científica
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho