A contenção química representa uma prática fundamental na medicina de animais silvestres, permitindo a realização segura de procedimentos clínicos, tanto em ambiente controlado quanto em condições à campo. Em felinos selvagens, os métodos tradicionalmente empregados envolvem a administração injetável por meio de dardos ou extensores de seringa, técnicas relacionadas com o aumento do estresse nesses animais, lesões no local de aplicação e falhas na administração completa da dose. Assim, o presente estudo tem como objetivo avaliar a eficácia e a segurança da contenção química oral com a associação de tiletamina e zolazepam como alternativa viável para o manejo de jaguatiricas. O experimento foi conduzido com três jaguatiricas (Leopardus pardalis) mantidas no Setor de Animais Silvestres do Hospital Veterinário da UFPA. A contenção química foi realizada com a associação de tiletamina e zolazepam (Zoletil®), administrada por via oral em duas apresentações: iscas de patê específico para felinos e camundongos inteiros, nas doses de 10 e 15 mg/kg, diluída em 1 mL de xilazina. Foram avaliados a aceitação das iscas, os tempos para alcançar os decúbitos esternal e lateral, a qualidade da sedação, a permissividade à manipulação, a duração do efeito sedativo e a qualidade da recuperação. Durante todo o processo, monitoraram-se os parâmetros fisiológicos, como frequência cardíaca e respiratória e pressão arterial sistólica via doppler, além da presença de efeitos gastrointestinais adversos, como hipersalivação, náusea e vômito. Os resultados obtidos indicam que a administração oral de Zoletil® apresenta potencial para a contenção química de jaguatiricas, sendo sua eficácia diretamente relacionada à aceitação da isca e à ingestão completa do fármaco. A dose de 10 mg/kg mostrou-se limitada, resultando em consumo parcial e efeito anestésico insuficiente. No entanto, a dose de 15 mg/kg diluída em 1 mL de xilazina, observou-se resposta eficaz em um dos testes, com início de ataxia em 6 minutos, decúbito esternal em 9 minutos e sedação adequada para a manipulação do animal. Um episódio isolado de vômito foi registrado, possivelmente relacionado ao uso de salsicha como isca alternativa, empregada em um indivíduo com baixa aceitação alimentar. A preferência pelas iscas variou entre os animais, sendo camundongos os mais bem aceitos por dois deles. A aplicação de sangue sobre a isca contribuiu para mascarar o odor do fármaco, favorecendo a ingestão. Os parâmetros fisiológicos permaneceram dentro da normalidade, sem efeitos adversos graves. A análise da recuperação anestésica isolada com o Zoletil® foi inviabilizada pelo uso posterior de anestésicos complementares. A principal limitação observada foi a recusa alimentar de iscas adicionadas com o fármaco, atribuída à palatabilidade e ao odor detectado pelos animais, fatores determinantes para o sucesso parcial do protocolo em determinados testes. Conclui-se que a contenção química oral com Zoletil® é uma alternativa viável para o manejo de jaguatiricas, desde que utilizadas iscas adequadas e a dose ajustada. A técnica mostrou-se segura, com parâmetros fisiológicos dentro da normalidade e sedação eficaz quando houve ingestão completa. Apesar da limitação na aceitação alimentar, os resultados reforçam o potencial da via oral como abordagem promissora, exigindo apenas ajustes para maior efetividade.
Comissão Organizadora
Felipe José da Costa Andrade
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho
Gabriel Almeida de Oliveira Bezerra
Maria Clara Moura Silva
Comissão Científica
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho