O traumatismo cranioencefálico (TCE) se caracteriza por múltiplas lesões no tecido cerebral, podendo causar danos ao encéfalo e às estruturas associadas, com manifestações neurológicas variadas. O TCE em aves representa uma das principais razões de mortalidade nos atendimentos de emergência, tendo como causas, impactos diretos em janelas, veículos, quedas e ataques de predadores. Em abril de 2025, um exemplar de Pteroglossus inscriptus, com peso corporal de 112 g, foi admitido no setor de animais silvestres do Hospital Veterinário da Universidade Federal do Pará (UFPA), após uma recente colisão com uma vidraça. Na admissão, o animal encontrava-se em estado comatoso, apresentando reflexo palpebral e head tilt à esquerda, com parâmetros vitais dentro da faixa de normalidade descrita para Pteroglossus spp., com frequência cardíaca de 310 bpm, frequência respiratória de 24 rpm e temperatura corporal de 39.6°C. A partir do exame físico, associado à Escala de Glasgow adaptada para aves, que resultou como “desfavorável”, foi diagnosticado o quadro de TCE. Assim, foi instituído um protocolo terapêutico com morfina (1 mg/kg, SC, TID) por cinco dias, e meloxicam (1 mg/kg, IM, SID) durante quatro dias, ambos com o objetivo de promover analgesia e o controle da inflamação. Para suporte circulatório e correção do estado de hidratação, foi administrada fluidoterapia com solução de Ringer com lactato (60 ml/kg/dia, SC), ajustada para compensar 5% de desidratação, por 18 dias. Para a prevenção de possíveis hemorragias, foi administrado ácido tranexâmico (20 mg/kg, SC, dose única), e fenobarbital (4 mg/kg, VO, BID) por quatro dias, devido a crises convulsivas focais. A furosemida (1,5 mg/kg, IM, BID) foi introduzida a partir do sexto dia de internação do animal, com o objetivo de auxiliar na melhora do head tilt persistente. Sua utilização se deu pela impossibilidade de administrar manitol, visto que não foi possível obter acesso venoso ou intraósseo. Como suporte nutricional e neurológico, utilizou-se complexo B (3 mg/kg, VO, SID) por 16 dias, Hemolitan® (0,1 ml/kg, VO, SID) por três dias e Glicopan® gold (0,5ml/kg, VO, BID) durante três dias. Em complemento, utilizou-se terapia homeopática com Arnica montana 30 CH (VO, QID, 2 gotas em 3ml de água) por três dias. A rápida instituição do protocolo de suporte neurológico, analgésico e clínico, associada à avaliação neurológica sistematizada, possibilitou a evolução positiva do quadro. A ausência de sinais neurológicos e retorno à postura equilibrada ocorreu no sexto dia de tratamento, evidenciando a recuperação clínica. O presente relato reforça a importância da intervenção precoce e do manejo clínico adequado na reversão de quadros neurológicos graves em aves silvestres, contribuindo para sua reabilitação e potencial reintegração ao ambiente natural.
Comissão Organizadora
Felipe José da Costa Andrade
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho
Gabriel Almeida de Oliveira Bezerra
Maria Clara Moura Silva
Comissão Científica
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho