A compactação por exoesqueleto é uma condição que pode acometer aves alimentadas com presas de corpo inteiro ou fragmentos de invertebrados ricos em quitina. Esse material possui pouca digestibilidade e pode se acumular no trato gastrointestinal, especialmente na moela e no proventrículo, levando à estase e, em alguns casos, à obstrução parcial. Os sinais clínicos geralmente se instalam de forma insidiosa e incluem anorexia, regurgitação, perda de peso progressiva e, em estágios mais avançados, prostração. Além da alteração da motilidade, o acúmulo de conteúdo compactado pode interferir na absorção de nutrientes e agravar o estado clínico geral. Um filhote de anu-branco (Guira guira) neonato, pesando 25g, foi admitido no Hospital Veterinário da Universidade Federal do Pará após ser resgatado do solo, com suspeita de queda do ninho. A alimentação do paciente consistiu em 2 unidades de larvas de tenébrio (Tenebrio molitor) e 1 unidade de barata adulta (Blaptica dubia). Como o mesmo apresentava reflexo de procura, os insetos eram fracionados em pedaços menores e ofertados diretamente ao bico, no período das 08h às 18h, com intervalo de duas horas entre as refeições. Posteriormente, observou-se distensão celomática e dispneia, com palpação evidenciando conteúdo mais consistente. Após avaliação clínica, foi diagnosticada a impactação gastrointestinal em função da quantidade de quitina presente no exoesqueleto dos insetos ingeridos. O protocolo terapêutico instituído incluiu lactulose (4 mL/kg VO e 4 mL/kg VR, TID), utilizada como laxativo para facilitar a evacuação; domperidona (0,2 mg/kg, VO, BID), como agente procinético para estimular a motilidade gastrointestinal; dipirona (25 mg/kg, VO, BID), como analgésico; enemas com NaCl 0,9% aquecido em banho-maria (TID), para remoção mecânica do conteúdo intestinal; e fluidoterapia com NaCl 0,9% (50 mL/kg/dia VO), fracionada a cada hora entre o período de 08h a 18h, com o objetivo de manter a hidratação e auxiliar na função intestinal. A circunferência celomática foi monitorada a cada hora com fita métrica, permitindo o acompanhamento da evolução do quadro. Após três dias do início do tratamento, observou-se melhora clínica progressiva, com regressão do quadro, retomada da evacuação normal e comportamento ativo. Conclui-se que o manejo clínico adequado, aliado à identificação precoce da impactação gastrointestinal, foi fundamental para a recuperação do paciente. Ressalta-se a importância do monitoramento da dieta de filhotes em reabilitação, especialmente no uso de insetos com elevado teor de quitina, que podem predispor a quadros obstrutivos em aves.
Comissão Organizadora
Felipe José da Costa Andrade
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho
Gabriel Almeida de Oliveira Bezerra
Maria Clara Moura Silva
Comissão Científica
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho