Passalites nemorivagus é um cervídeo neotropical de pequeno porte, de coloração cinza, amplamente distribuído na região amazônica. Popularmente conhecido como veado-mateiro-da-Amazônia ou veado-roxo, está classificado como menos preocupante na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN (2016). A distribuição é pouco conhecida, sendo encontrado tanto em áreas de vegetação esparsa e seca quanto em florestas altas de terra firme. É reconhecido por seu comportamento discreto e por ser extremamente suscetível ao estresse, o que a torna vulnerável a distúrbios fisiológicos associados à contenção ou trauma, como a rabdomiólise por estresse. A rabdomiólise é uma condição patológica potencialmente fatal, caracterizada por dano no tecido muscular esquelético. As lesões de fibras musculares resultam na liberação da mioglobina e outras substâncias, na corrente sanguínea. Em altas concentrações, esses componentes podem levar a um episódio de insuficiência renal aguda (nefrose mioglobinúrica) e mioglobinúria. Estresse, esforço físico durante a captura, longos períodos de contenção e traumas por esmagamento estão entre os principais fatores que podem contribuir para o desenvolvimento de lesões rabdomiolíticas em animais selvagens. Este trabalho teve como objetivo descrever as lesões macroscópicas e histopatológicas em um veado-roxo (Passalites nemorivagus) com histórico de atropelamento atendido no Setor de Animais Silvestres do Hospital Veterinário do Instituto de Medicina Veterinária (IMV), da Universidade Federal do Pará (UFPA) / Campus de Castanhal. O animal foi encaminhado ao Hospital Veterinário cinco dias após o acidente, evoluiu a óbito após oito dias de internação e, posteriormente, foi submetido à necropsia no Laboratório de Patologia Animal do IMV/UFPA/Castanhal. Durante a necropsia, foram coletados fragmentos de diversos órgãos, incluindo amostras de músculos esqueléticos e rins para histopatologia. Estas foram fixadas em formol a 10%, processadas segundo protocolo de rotina e coradas com hematoxilina e eosina (HE). Nas alterações macroscópicas, foram observados edema generalizado, pulmões congestos com áreas de atelectasia e hemorragia, além de estriações radiais na cortical renal sugerindo lesão tubular aguda. Microscopicamente, no músculo estriado esquelético havia miopatia necrótica, segmentar, multifocal, polifásica, subaguda e moderada. Sendo caracterizadas por áreas onde segmentos da miofibra apresentam tumefação e perda das estriações transversais e acentuada eosinofilia citoplasmática (necrose hialina). Havia também fragmentação dos segmentos hialinos (necrose flocular), com ocasional infiltração de macrófagos e células satélites. Adicionalmente foram observados segmentos delgados com diversos núcleos enfileirados centralmente (regeneração muscular). Nos rins, identificou-se, no epitélio tubular da região cortical, tumefação e vacuolização citoplasmática e picnose nuclear (necrose tubular aguda). Os achados macroscópicos e histopatológicos observados são compatíveis com lesões de miopatia de captura e insuficiência renal aguda, destacando a importância do manejo adequado durante o transporte e contenção de animais silvestres, especialmente em espécies sensíveis como o Passalites nemorivagus, a fim de prevenir complicações graves como a rabdomiólise. Diagnósticos diferenciais para miopatia em animais selvagens incluem: lesões induzidas por plantas tóxicas, como Cassia obtusifolia e Cassia occidentalis, hipertermia, hipocalcemia e miosite.
Comissão Organizadora
Felipe José da Costa Andrade
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho
Gabriel Almeida de Oliveira Bezerra
Maria Clara Moura Silva
Comissão Científica
Tobias Emilio Tavares Lima
Dharma Maria Mendes Coelho