Cuba é objeto de investigação de muitas pesquisas que buscam compreender de que maneira o único país socialista da América Latina subsiste por mais de seis décadas. Neste trabalho, pressupõe-se que as políticas de reestruturação econômica intensificadas a partir de 2008, com a chegada de Raúl Castro fazem parte da estratégia de continuidade. Tais reformas constituem a chamada “atualização do socialismo cubano”, oficializada em 2011, no VI Congresso do Partido Comunista, com a divulgação dos “Lineamientos de la Política Económica y Social”.
Assim, o objetivo deste artigo é explicar como as políticas de inovação, tecnologia e desenvolvimento das empresas se inserem nos marcos dessa atualização, que entre outras coisas, trouxe reformas estruturais orientadas por características de mercado, mas sem perder o fundamento da economia planificada: o Estado como principal detentor dos meios de produção. Por isso, em um primeiro momento este artigo justificará a importância dos estudos voltados para o socialismo.
Em seguida, pretende-se ressaltar como a literatura local interpreta historicamente a inovação e as tecnologias incorporadas nas bases produtivas de empresas estatais e privadas, dentro da economia socialista planificada. Assim, parte da abordagem teórica explicativa se dará pelo ponto de vista de autores cubanos como Tirso Saenz, Yarina Fernandez, Augustin Lage, e o próprio presidente em atuação, Miguel Diaz-Canel. Tais debates abrem possibilidades para pensar a configuração de uma “economia digital à la cubana” intensificada em meados dos anos 2000 com espraiamento do acesso à internet e telefonia móvel. Atualmente essa economia digital constitui-se, entre outras coisas, por empresas de bases tecnológicas locais que desenvolvem hardware e software e também pela ampliação do comércio eletrônico por meios de plataformas denominadas 100% cubanas.
O último tópico deste trabalho será destinado à apresentação do quadro atual a partir de uma amostra da organização das empresas cubanas. As informações foram retiradas de fontes primárias, especificamente a lista de Micro e Pequenas empresas (Mipymes) divulgadas mensalmente pelo Ministério de Economia e Planificação (MEP), bem como consultaram-se legislações, relatórios e meios de comunicação oficias. Além disso, exporemos resumidamente os casos mais significativos de empreendimentos 100% cubanos.
Por fim, sabe-se que boa parte da literatura sobre “economia digital” foi elaborada em uma conjuntura capitalista de expansão do processo neoliberal encabeçado pelos países centrais entre os anos 70 e 90. Tais mudanças foram compartilhadas por alguns pesquisadores do pensamento crítico. Dan Schiller (apud Bolaño, 2007), por exemplo, chamou de “capitalismo digital” essa confluência entre tecnologia e a reorganização da economia norteada pelo modelo neoliberal. Também Bolaño afirma que o desenvolvimento da infraestruturas técnicas liga-se “à evolução do capitalismo no período e à globalização, levando à transformação da economia mundial da qual a internet é elemento central.” (Bolaño, 2007, p.64)
Isto posto, entende-se que o contexto de uma economia socialista planificada também demanda por uma investigação sobre o assunto, haja vista que o caso cubano, por exemplo, não está isolado do contexto mundial. Ao contrário, é a partir das pressões do capitalismo global que suas reformas institucionais e políticas sobre inovação e tecnologia também são pensadas.
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