Viktor Frankl, no livro “Em busca de sentido”, descreve o logoterapeuta como um oculista que pretende ajudar o indivíduo a enxergar a vida como ela é, de modo que possa encontrar o sentido de sua vida. Para Frankl, a pessoa se torna mais humana e realizada ao direcionar o sentido da vida a algo ou a alguém, fenômeno que ele denomina “autotranscendência”. Nesse sentido, o papel do logoterapeuta é auxiliar o indivíduo a identificar causas, projetos e vínculos que conferem significado à existência, especialmente diante dos desafios inevitáveis da vida. Este trabalho configura-se como um ensaio teórico-conceitual, fundamentado nos pressupostos da Logoterapia e Análise Existencial, que articula seus conceitos ao contexto organizacional do trabalho com crianças com TEA.
A Logoterapia e Análise Existencial compreendem o ser humano como um ser livre e responsável. Para Frankl, a liberdade não significa ausência de condicionamentos, mas a possibilidade de escolher a atitude diante das circunstâncias que lhe são dadas. Ao mesmo tempo, essa liberdade implica responsabilidade, pois cada decisão constitui uma resposta concreta às perguntas que a vida apresenta. Liberdade e responsabilidade caminham juntas na proposta frankliana, convocando o indivíduo a posicionar-se continuamente frente à sua existência. Nesse sentido, o sentido não é algo imposto, mas descoberto e assumido por meio de decisões concretas. Essa perspectiva é especialmente relevante no contexto organizacional, pois cada profissional é chamado a assumir, de forma pessoal e intransferível, a responsabilidade de realizar os valores no exercício de sua função.
A Logoterapia Organizacional pode ser compreendida como a aplicação dos fundamentos da Logoterapia no ambiente institucional, buscando promover uma cultura orientada pelo sentido, na qual o trabalho não se reduz à execução de tarefas, mas se torna espaço de realização existencial. No contexto de clínicas que atuam com profissionais que atendem crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa abordagem oferece um propósito e uma forma positiva de enxergar os desafios cotidianos do trabalho.
O atendimento a crianças com TEA é bastante desafiador, especialmente nos níveis 2 e 3 de suporte. Muitas delas vivenciam prejuízos significativos na comunicação verbal e na interação social, o que dificulta a expressão de desejos, incômodos e limites. Como consequência, podem apresentar comportamentos interferentes, como gritar, jogar objetos e chorar, além de, em alguns casos, surgirem comportamentos autolesivos e heterolesivos. Quando recorrente, esse cenário pode gerar sobrecarga emocional nos terapeutas e comprometer sua saúde psíquica.
Essa sobrecarga emocional, se não for adequadamente reconhecida e tratada, pode levar ao esgotamento profissional, prejudicando tanto o trabalhador quanto a qualidade do atendimento oferecido à criança.
Assim, dentro do ambiente clínico, podem ser adotados pelo terapeuta os três valores descritos por Frankl que possibilitam ao ser humano encontrar propósito na vida. São eles:
Os valores criativos exploram a criatividade do indivíduo, através do ato de criar algo para o mundo, para si ou para o outro. Esse valor está intimamente ligado ao trabalho, por meio do qual o profissional oferece algo ao mundo. No contexto clínico, isso se expressa na criação de brincadeiras específicas para cada criança, na produção de materiais terapêuticos personalizados, no ensino de habilidades funcionais, na criação de novas estratégias de atuação na clínica. Ao reconhecer que sua atuação produz algo único, o terapeuta se percebe como agente ativo na construção de possibilidades concretas de desenvolvimento.
Os valores vivenciais (ou experenciais) são encontrados ao experimentar a vida, através de relações significativas e experiências no trabalho. Compartilhar momentos lúdicos com as crianças, participar de eventos institucionais em datas comemorativas, acompanhar pequenas conquistas terapêuticas e fortalecer o vínculo com o paciente e sua família são experiências que conferem profundidade afetiva ao trabalho. Além disso, o terapeuta também aprende com a singularidade de cada criança, ampliando sua compreensão sobre a diversidade e formas distintas de comunicação e interação.
Por fim, os valores atitudinais se referem às posturas adotadas pelo indivíduo frente ao sofrimento inevitável. Auxiliar a criança em momentos de crise, manter-se comprometido mesmo diante de casos complexos, buscar aprimoramento técnico quando percebe lacunas em seu conhecimento e recorrer ao trabalho interdisciplinar ou supervisões para auxiliar com dicas e/ou estratégias distintas são expressões concretas da liberdade e responsabilidade descrita por Frankl. Dito isso, o profissional possui a liberdade de escolher a atitude que assumirá diante das possibilidades de sentido que o trabalho lhe apresenta, sendo responsável por realizar os valores no exercício de sua função, ainda que o contexto institucional imponha limitações e desafios.
Assim, a Logoterapia Organizacional convida o profissional a reconhecer que o sentido do trabalho não está apenas nas condições externas, mas na forma como ele responde às demandas que lhe são apresentadas. Cada terapeuta é responsável por exercer, no cotidiano clínico, os valores criativos, vivenciais e atitudinais, transformando o ambiente organizacional em espaço de crescimento humano e realização existencial, preservando a sua saúde psíquica e melhorando a qualidade de vida no trabalho.
O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.
Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.
Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.
Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.
Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.
Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.
Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)
Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE).
O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.
Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.
Áreas temáticas:
Psicologia
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:
Pesquisa empírica: trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais: trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:
Português
Espanhol
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6
Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2
Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6
O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada.
Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima
Comissão Científica
Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)