Do Ressentimento à Autotranscendência: Relato de Experiência sobre Perdão e Valores Atitudinais em um Caso de Abuso Sexual

  • Autor
  • Christiane de Oliveira
  • Resumo
  •  

    Do Ressentimento à Autotranscendência: Relato de Experiência sobre Perdão e Valores Atitudinais em um Caso de Abuso Sexual

     

    A versatilidade do campo de atuação do enfermeiro é ampla e transcende a assistência hospitalocêntrica. Atualmente, o enfermeiro pode atuar de forma autônoma e empreendedora em consultórios, home care, consultorias e auditorias, além do ensino e prestação de serviços especializados. Sendo a enfermagem uma profissão baseada na holisticidade, sua assistência estende-se além da dimensão física (modelo biomédico), indo ao encontro da dimensão psíquica (mental) e da dimensão noética (espiritual) do ser humano.

    No que se refere à assistência de enfermagem, Araújo (2021) destaca a Teoria da Relação Interpessoal de Joyce Travelbee, cujo foco central baseia-se na comunicação terapêutica como ajuda ao paciente no enfrentamento e resolução de seus problemas. Na concepção de homem, Frankl (1992) classifica-o em uma tridimensionalidade: corpo, mente e espírito (noético). Ressalta-se que a dimensão espiritual é própria do ser humano, diferenciando-o de outros animais, e que esta influencia as demais dimensões, onde o cuidado noético pode facilitar o processo de cura. Simard (2016) afirma que, quando uma dessas dimensões é negligenciada, ocorre um desequilíbrio caracterizado como “ruptura”, “carência” ou “vazio existencial”.

    Sobre o “vazio existencial”, Frankl (2020) trata-o como possível resultado da tríade do sofrimento (dor, culpa e perda). Definido como uma neurose noogênica, sua origem remete a um problema espiritual, um conflito moral ou ao próprio vácuo existencial. Frankl também afirma que o sofrer é inerente ao homem: o ser humano é um homo patiens – um sofredor. Compreender o sofrimento nesta perspectiva vislumbra um caminho de descoberta de sentido, onde o homem é o único ser capaz de assumir uma atitude positiva e de superação diante das adversidades do trágico da vida.

    Diante destas reflexões, como logoenfermeira, assisto pacientes em que o sujeito se percebe negligenciado em alguma necessidade humana básica. O presente trabalho aborda o processo de cuidado espiritual de uma paciente que apresentava processo familiar disfuncional e sofrimento espiritual, revelando incapacidade de perdoar o pai decorrente de traumas (abuso sexual, aborto e ruptura do vínculo primal), gerando angústia, vazio existencial e ideação suicida. Este relato se justifica por possibilitar a ampliação de discussões sobre a Logoterapia na enfermagem e fornecer subsídios para pesquisas sobre a atuação autônoma do enfermeiro no processo de superação do vazio existencial e conquista da autotranscendência. São objetivos: difundir a atuação do enfermeiro de forma autônoma; analisar o processo de superação do vazio existencial e a conquista da autotranscendência através do perdão, demonstrando como a aplicação de valores atitudinais permitiu à paciente ressignificar uma biografia marcada por violações e perdas.

    Trata-se de um relato de experiência de natureza qualitativa, conduzido ao longo de um ano de cuidado espiritual online. O percurso terapêutico, em sessões de sessenta minutos, criou espaço para a narrativa fenomenológica dos fatos. Ferramentas como o diálogo socrático e técnicas de externalização (escrita terapêutica e meditação) foram utilizadas. Enquanto a primeira despertava a consciência da liberdade, a segunda proporcionava o autodistanciamento necessário para que a paciente não fosse consumida pela dor.

    A evolução do caso demonstrou que a revelação gradual dos traumas foi superada pela construção de um espaço de confiança existencial e uma relação terapêutica centrada na empatia e respeito. O diálogo socrático estimulou o pensamento crítico e o autoconhecimento, possibilitando o restabelecimento da “noodinâmica” — a tensão entre quem ela era (vítima) e quem ela poderia ser (protagonista livre). A paciente compreendeu que não é fruto apenas dos condicionamentos vividos, mas livre para escolher o que decide ser.

    A escrita terapêutica, realizada através da “Carta ao Pai”, facilitou o autodistanciamento e a objetivação do trauma. Neste contexto, construiu-se a oposição do espírito em relação ao corpo e à mente: embora o psiquismo sentisse ódio pelo genitor, a paciente convocou o espírito para tomar a decisão de perdoar. O perdão surgiu como sentido de vida e valor atitudinal. Não foi compreendido como esquecimento ou condescendência, mas como uma decisão soberana da dimensão noética de não mais ser determinada pelo passado. Funcionou como um rito de passagem que autorizou a paciente a assumir a “caneta de sua própria biografia”. Hoje, seu sentido está pautado na reconstrução da relação com sua filha adolescente. Complementarmente, a meditação Ho’oponopono auxiliou na dissolução do ressentimento que bloqueava a busca por novos horizontes.

    O relato revela que o enfermeiro é capaz de priorizar a relação interpessoal na essência do cuidar, independentemente do ambiente. Evidencia-se que o ser humano possui vontade própria para transformar o sofrimento em conquista. O vazio existencial foi superado no momento em que a paciente compreendeu que, se não poderia mudar o passado, era livre para mudar sua atitude perante ele. Conclui-se que o perdão, enquanto valor atitudinal máximo, é o antídoto para o vazio provocado por traumas, permitindo ao sujeito retomar sua narrativa em direção à vontade de sentido.

     

  • Palavras-chave
  • Enfermagem. Cuidado Espiritual. Vazio existencial. Valor atitudinal.
  • Área Temática
  • Enfermagem
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O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.

Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.

Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.

Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.

Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.

Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.

Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)

Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE). 

O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.

Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.

Áreas temáticas:

Psicologia 
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:

Pesquisa empírica:  trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais:  trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:

Português
Espanhol 
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6

Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2

Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6

O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada. 

Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima

Comissão Científica

Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)