Os movimentos da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial promoveram importantes transformações no cuidado em saúde mental ao propor a substituição do modelo manicomial pela atenção psicossocial. Contudo, apesar das mudanças teóricas, jurídicas e técnico-assistenciais, ainda persistem desafios na consolidação desse paradigma, uma vez que práticas e concepções da lógica asilar continuam presentes. Tal cenário aponta para a necessidade de transformação não apenas das estruturas de cuidado, mas também compreensão da pessoa em sofrimento psíquico.
Nesse contexto, torna-se fundamental repensar o cuidado em saúde mental a partir de uma visão de homem que reconheça o conceito de existência-sofrimento. O presente estudo reflexivo tem como objetivo discutir as contribuições da Logoterapia e Análise Existencial para a compreensão e o cuidado das pessoas em sofrimento psíquico grave. Por sua fundamentação filosófica e antropológica, a Logoterapia amplia a compreensão do adoecimento psíquico e aponta possibilidades de cuidado coerentes com os princípios da atenção psicossocial.
A Logoterapia, ou psicoterapia centrada no sentido, foi desenvolvida por Viktor Frankl, a partir da crítica às tendências reducionistas e deterministas das correntes psicoterapêuticas do início do século XX. Com intuito de reumanizar a psiquiatria, Frankl propõe uma antropologia que reconhece a dimensão noética como constitutiva da pessoa humana, na qual se manifestam liberdade, responsabilidade e busca de sentido. Sua teoria fundamenta-se em três premissas centrais: liberdade da vontade, vontade de sentido e sentido da vida.
No plano antropológico, Frankl compreende a pessoa como uma unidade tridimensional constituída pelas dimensões biológica, psíquica e noética. A dimensão biológica refere-se aos processos corporais; a psíquica abrange aspectos cognitivos, afetivos e comportamentais; e a noética corresponde ao núcleo propriamente humano, onde se manifestam consciência moral, liberdade, criatividade e transcendência. Embora o ser humano seja condicionado por fatores biológicos, psicológicos e sociais, tais condicionantes não o determinam absolutamente, pois permanece livre para assumir uma atitude diante das circunstâncias que vivencia.
Essa compreensão possui implicações relevantes para o entendimento do sofrimento psíquico grave, conceito que busca ultrapassar classificações exclusivamente nosográficas e situar o sofrimento no âmbito da experiência humana. Na perspectiva frankliana, mesmo nas psicopatologias graves, como a psicose e a esquizofrenia, o adoecimento atinge o organismo psicofísico, mas não compromete a pessoa espiritual. A dimensão noética pode encontrar-se bloqueada ou com menor possibilidade de expressão, porém permanece preservada. Assim, a pessoa não se reduz à sua doença e mantém sua dignidade independentemente das limitações impostas pelo adoecimento.
Frankl afirma que, ainda diante de condições severas de sofrimento, permanece uma liberdade residual, isto é, a possibilidade de posicionamento da pessoa diante de suas circunstâncias. Dessa forma, o comportamento não é compreendido apenas como consequência da patologia, mas também como expressão da atitude da pessoa diante do adoecimento. Essa perspectiva impede a redução do sujeito ao diagnóstico e sustenta o reconhecimento de seu valor humano independentemente de desempenho ou funcionalidade.
A partir desse fundamento antropológico, a Logoterapia oferece importantes contribuições para o cuidado em saúde mental. A preservação da dimensão noética torna possível mobilizar a pessoa espiritual em contraposição aos condicionantes psicofísicos. Mesmo em situações de sofrimento intenso, permanece a possibilidade de realização de sentido. O trabalho terapêutico consiste em auxiliar a pessoa a reconhecer possibilidades concretas de sentido em sua existência. Segundo Frankl, esse sentido pode ser encontrado por meio de valores criativos, vivenciais e atitudinais, relacionados respectivamente às realizações no mundo, às experiências significativas e à postura assumida diante de um sofrimento inevitável.
No cuidado à pessoa em sofrimento psíquico grave, essa perspectiva implica reconhecer a parte saudável que permanece na pessoa e buscar fortalecê-la. Entre as estratégias destacam-se o estímulo ao autodistanciamento em relação aos sintomas e o uso de recursos como a derreflexão, que reduz a hiperatenção dirigida aos sintomas e redireciona a atenção para atividades e experiências significativas. Também se destaca a importância de favorecer a aceitação do adoecimento em seu caráter de fatalidade, não como resignação passiva, mas como condição para mobilizar a força desafiadora do espírito.
A Logoterapia também enfatiza o encontro existencial entre terapeuta e paciente como elemento central do cuidado. Tal relação exige uma postura fenomenológica marcada por respeito, abertura e confiança na capacidade humana de encontrar sentido mesmo em meio ao sofrimento. Nesse contexto, psicofármacos podem ser indicados como cuidado somático, mas a ênfase permanece na dimensão noética e no apoio existencial capaz de preservar a dignidade da pessoa e sustentar possibilidades de significado em sua trajetória de vida.
Conclui-se que a Logoterapia e Análise Existencial oferecem importantes contribuições para o cuidado às pessoas em sofrimento psíquico grave. Ao afirmar a dignidade da pessoa para além do adoecimento e reconhecer a preservação da dimensão noética mesmo diante da psicopatologia, essa abordagem amplia as possibilidades de um cuidado mais humano, respeitoso e orientado para o sentido da vida, em consonância com os princípios da atenção psicossocial em saúde mental.
O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.
Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.
Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.
Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.
Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.
Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.
Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)
Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE).
O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.
Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.
Áreas temáticas:
Psicologia
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:
Pesquisa empírica: trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais: trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:
Português
Espanhol
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6
Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2
Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6
O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada.
Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima
Comissão Científica
Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)