Responsabilidade existencial à luz da antropologia frankliana

  • Autor
  • Vinícius da Silva Paiva
  • Resumo
  • A antropologia filosófica de Viktor Frankl nasce do confronto crítico com as formas modernas de reducionismo antropológico, que tendem a explicar o ser humano exclusivamente a partir de seus condicionamentos biológicos, psíquicos ou sociais. Contra essa redução, Frankl propõe uma compreensão integral da pessoa como uma unidade pluridimensional, estruturada nas dimensões somática, psíquica e espiritual. Essas dimensões não constituem partes justapostas, mas modos de manifestação de um mesmo sujeito uno. É na dimensão espiritual — ou noética — que o ser humano se revela propriamente humano: nela residem a liberdade, a consciência moral, a abertura ao sentido e a capacidade de ser responsável.

    Este trabalho tem como objetivo analisar a responsabilidade existencial à luz da antropologia frankliana, evidenciando sua centralidade como expressão concreta da liberdade humana e como fundamento da dignidade da pessoa.

    Trata-se de um estudo teórico-filosófico, de abordagem qualitativa, fundamentado em pesquisa bibliográfica nas obras de Viktor Frankl e em intérpretes de sua antropologia. A análise desenvolve-se por meio de leitura hermenêutico-interpretativa dos conceitos estruturantes da Logoterapia, especialmente liberdade, autotranscendência, consciência moral e suprassentido.

    Essa concepção ontológica impede que o indivíduo seja compreendido como mero efeito de forças internas ou externas. Ainda que sujeito a diversas condições, o ser humano não é determinado de forma absoluta. Entre o estímulo e a resposta permanece um espaço de decisão onde se manifesta a liberdade. Tal liberdade não se define como ausência de limites, mas como capacidade de tomar posição diante deles. A tensão entre condicionamento e liberdade não é patológica; constitui um dinamismo essencial da existência humana, denominado por Frankl de noodinâmica. A saúde existencial não decorre da eliminação das tensões, mas da orientação dessas tensões em direção a um sentido.

    Essa orientação se expressa no conceito de autotranscendência. Para Frankl, o ser humano não se realiza voltando-se sobre si mesmo, mas direcionando-se para aquilo que está além de si: uma tarefa, uma causa, um valor ou outra pessoa. A autotranscendência não é ideal externo, mas estrutura da existência. Quando a vida é reduzida à busca de prazer ou autorrealização, perde-se de vista o que constitui a pessoa. Felicidade e realização surgem como efeitos indiretos da entrega a algo que transcende o próprio indivíduo.

    O horizonte último dessa orientação aparece no conceito de suprassentido. Trata-se de um sentido último que escapa à plena compreensão racional, sem contrariá-la. Ele sustenta uma confiança fundamental na vida, mesmo quando os eventos parecem desprovidos de lógica ou justiça. Essa confiança não elimina o sofrimento, mas permite integrá-lo numa perspectiva mais ampla, evitando o desespero e o niilismo.

    A passagem da estrutura ontológica para a vida concreta ocorre por meio da consciência moral. Frankl a compreende como “órgão do sentido”: uma instância intuitiva capaz de perceber, em cada situação singular, aquilo que a vida exige de modo único. Diferentemente de uma moral fundada apenas em normas abstratas, a consciência opera de forma pessoal e situada. A liberdade, sem a consciência, degenera em arbitrariedade; a consciência, sem liberdade, torna-se imposição.

    Essa dinâmica se enraíza no chamado inconsciente espiritual, dimensão onde residem a consciência moral pré-reflexiva, a criatividade e a abertura ao transcendente. Não se trata de instinto, mas de uma profundidade existencial que prepara decisões que emergem posteriormente à consciência. Isso permite compreender a religiosidade como possibilidade existencial, frequentemente vivida de modo implícito.

    Nesse contexto se revela o núcleo da antropologia frankliana: a responsabilidade existencial. A vida não é algo a ser explicado, mas algo que interroga. Não é o homem quem pergunta pelo sentido da vida; é a vida que pergunta pelo homem em cada situação concreta. Viver consiste em responder a essa interpelação. Essa resposta é sempre pessoal, intransferível e situada.

    A responsabilidade não aparece, portanto, como um peso moral externo, mas como a forma concreta da liberdade humana. Ser livre é ser responsável. Quando o indivíduo foge dessa responsabilidade — pelo conformismo, pela submissão ou por ideologias totalizantes — abre-se espaço para o vazio existencial. A Logoterapia surge como uma pedagogia da responsabilidade, convocando o ser humano a reassumir sua capacidade de resposta, mesmo diante do sofrimento.

    Assim, a responsabilidade revela-se como eixo unificador da antropologia frankliana: brota da estrutura pluridimensional do humano, é orientada pela autotranscendência, discernida pela consciência moral e sustentada pela abertura ao suprassentido.

    Como consideração final, evidencia-se que a responsabilidade existencial não constitui aspecto acessório, mas o núcleo da existência humana na perspectiva frankliana. A liberdade realiza-se como resposta às interpelações da vida, e é nessa capacidade de resposta que se fundamenta a dignidade humana. Nesse horizonte, o sentido da vida não é abstrato, mas uma exigência concreta que convoca cada pessoa a responder de modo singular e responsável em cada situação.

  • Palavras-chave
  • Antropologia frankliana; Autotranscendência; Liberdade; Responsabilidade; Dignidade humana.
  • Área Temática
  • Filosofia
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O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.

Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.

Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.

Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.

Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.

Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.

Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)

Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE). 

O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.

Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.

Áreas temáticas:

Psicologia 
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:

Pesquisa empírica:  trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais:  trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:

Português
Espanhol 
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6

Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2

Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6

O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada. 

Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima

Comissão Científica

Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)