Uma leitura axiológica de situações de sala de aula: uma proposta fenomenológico-existencial fundamentada na Logoterapia e na teoria dos valores de Max Scheler

  • Autor
  • DANILLO HOLZMANN LEÃO
  • Resumo
  •  

    Em sua obra A vontade de sentido, Viktor Frankl afirma que a Logoterapia pode ser compreendida, em grande medida, como uma aplicação das categorias de Max Scheler à psicoterapia . Tal afirmação nos indica a importância do pensamento desse autor para o modo como Frankl fundamentava sua prática. Além disso, dada a relevância de Scheler para a axiologia, pode-se vislumbrar um caminho metodológico no qual a compreensão do sentido da vida está intrinsecamente vinculada à capacidade de apreensão e realização de valores.

    No entanto, essa não parece ser uma tarefa simples, sobretudo em relação a termos que se encontram esvaziados por uma polissemia que compromete a referência intencional. Na prática cotidiana, observa-se uma significativa imprecisão no uso do termo “valores”. Frequentemente, estes são confundidos com preferências subjetivas, estados emocionais passageiros, normas sociais internalizadas além de diversas outras formulações que dificultam sua identificação nas situações concretas, esvaziando seu significado enquanto resposta existencial autêntica.

    A partir dessa perspectiva, a dificuldade prática frequentemente observada – especialmente no campo da educação – não se encontra apenas na ausência de valores, mas na dificuldade de reconhecê-los e diferenciá-los nas situações vividas. Professores, por exemplo, podem reagir a comportamentos desafiadores a partir de estados emocionais imediatos (irritação, frustração, necessidade de controle), sem conseguir identificar os valores implicados na situação (como justiça, cuidado, dignidade ou formação do caráter). Assim, a resposta permanece no nível reativo, sem alcançar o nível propriamente existencial.

    Nesse contexto, a teoria dos valores de Max Scheler pode ser usada como um recurso compreensivo para recuperar a objetividade e a estrutura hierárquica dos valores, bem como para esclarecer sua forma própria de apreensão. Para Scheler, os valores são qualidades objetivas que se dão à pessoa por meio de uma intuição afetiva de caráter espiritual. É nesse sentido que o conceito de “sentir-preferindo” (Fühlen und Vorziehen) se apresenta como um ato fundamental da pessoa, no qual ela apreende e ordena valores antes mesmo de qualquer elaboração racional discursiva, isto é, de maneira pré-reflexiva.

    Metodologicamente, o presente trabalho possui natureza teórico-aplicada, sendo estruturado como desenvolvimento de instrumento em fase de prototipagem. O processo envolveu: (1) a explicitação fenomenológica dos critérios de ordenação dos valores, tais como permanência, profundidade de realização, independência e proximidade ao absoluto; (2) a construção de uma lista de valores com descrições operacionais em linguagem acessível, distribuídos nas modalidades sensíveis, vitais, espirituais e sagradas; (3) a elaboração de vinhetas situacionais inspiradas em contextos educacionais concretos, com o objetivo de favorecer uma leitura axiológica das situações vividas; e (4) o desenvolvimento de fichas estruturadas de análise, destinadas a orientar a leitura dessas situações. Por meio do uso dessas fichas, aplicadas à análise estruturada de situações do cotidiano, torna-se possível exercitar a distinção entre reações psicofísicas e a apreensão de valores, bem como favorecer a passagem de uma resposta centrada no desconforto imediato para uma resposta orientada por valores mais elevados.

    Este instrumento foi concebido como um auxílio para a formação do juízo prudencial, possibilitando à pessoa reconhecer, nas situações vividas, não apenas o que sente no plano psicofísico, mas, sobretudo, aquilo que se lhe apresenta como valor a ser realizado. Desse modo, objetiva-se favorecer a distinção entre estados emocionais imediatos e a apreensão de valores, promovendo uma reorientação do agir a partir de critérios mais duradouros, livres e significativos. A proposta também se articula com o conceito de autodistanciamento, na medida em que o sujeito é instado a tomar distância de suas reações imediatas e a posicionar-se de modo mais responsável diante das exigências da realidade.

    Essa proposta busca, portanto, operacionalizar a proposta de Frankl de que o sentido se realiza na concretude da vida por meio dos valores, oferecendo um caminho pedagógico para a formação humana de professores. Ao retomar Scheler como fundamento teórico e ao propor instrumentos aplicáveis, pretende-se contribuir para uma Logoterapia mais encarnada na realidade, capaz de auxiliar a pessoa não apenas a compreender o sentido, mas a responder a ele de maneira concreta, livre e responsável. Nesse sentido, o instrumento encontra-se em fase de implementação, com aplicação prevista, em breve, junto a professores de uma escola de educação básica, possibilitando a observação de sua aplicabilidade e potencial formativo em contexto real.

     

  • Palavras-chave
  • Logoterapia; Valores; Axiologia; Fenomenologia; Formação de professores
  • Área Temática
  • Educação
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O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.

Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.

Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.

Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.

Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.

Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.

Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)

Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE). 

O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.

Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.

Áreas temáticas:

Psicologia 
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:

Pesquisa empírica:  trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais:  trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:

Português
Espanhol 
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6

Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2

Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6

O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada. 

Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima

Comissão Científica

Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)