No horizonte do amor: relação parental e autotranscendência no filme “Ponto de Mutação”

  • Autor
  • Carla Millena Carvalho do Nascimento
  • Co-autores
  • Melissa Ribeiro Valente , Francisca Pereira da Cruz Zubicueta
  • Resumo
  • “Nenhum Santo se sustenta só”, essa é uma citação do filme “Ponto de Mutação” (1990), que narra o encontro dos personagens: Thomas, o poeta, Jack, o político e Sônia, a cientista. No enredo, são postas questões sobre as diferentes formas de relações, seja da natureza ou das próprias relações humanas. Nesse cenário, o diálogo perpassa por críticas ao modelo cartesiano e ao reducionismo dessa cosmovisão. Em contrapartida, Sônia apresenta a necessidade de ampliar o olhar acerca do funcionamento do mundo, o que ela nomeou de um “pensamento ecológico”, argumentando que não se pode entender o mundo em uma lógica categorial, mas a partir de um conjunto de interações constantes entre os organismos. Nessa perspectiva, evidencia-se as interconexões, de modo que um problema em uma variável acarreta impactos em outros elementos. Por isso, a citação inicial é um fio condutor para a história. De modo semelhante, a Logoterapia e Análise Existencial, de Viktor Frankl, contrapõe-se à noção de homem reduzido ao corpo e ao psiquismo. O autor apresenta, como um antídoto ao reducionismo, a ontologia dimensional, visão de homem que abarca as dimensões noológica, psicológica e biológica, sendo a noológica a das capacidades especificamente humanas, como a autotranscendência, referindo-se à abertura do homem ao mundo, ao sentido. Para Frankl, autotranscendência é a essência da existência, já que o ser humano é relacional e intencional. O objetivo do ensaio teórico foi articular os conceitos da Logoterapia com o filme “Ponto de Mutação”, especialmente no que tange a temática da relação familiar entre as personagens Sônia e sua filha Kit. Em diálogo com a Logoterapia, fez-se análises abordando temas como a autotranscendência, o caráter único e irrepetível da pessoa e o sentido do amor. Discute-se que, apesar do entendimento sobre  todos fazerem parte de um todo, Sônia era, parafraseando a frase inicial, a “santa que tentava se sustentar só”. Porém, as relações humanas, em especial a família, é composta por um conjunto de pessoas que são unidas pelos laços de sangue ou pela intimidade, estabelecendo uma relação de interdependência que destaca o caráter único de cada membro. Nesse âmbito, considerando essas relações humanas, Frankl apresenta o homem como “ser-no-mundo”, de modo que, devido ao logos, é potencialmente capaz de sair de si mesmo para se relacionar, de autotranscender. Mesmo em seu discurso defendendo a autotranscendência, Sônia adota uma postura incoerente em relação às atitudes que tem com sua filha, como pode ser observado em uma cena em que prefere continuar no mundo fechado de seus livros a ficar com Kit, denotando uma negligência parental que culmina em um distanciamento emocional com relação à filha. É possível remeter-se à concepção frankliana do homem como único e irrepetível, considerando que sua função num sistema familiar pode ser exercida por outros, mas que não poderá substituir aquilo que lhe é particular em sua unicidade. Entende-se que a função materna de Sônia poderia ser preenchida por outro, mas nenhuma outra pessoa no mundo poderia efetivamente substituí-la para Kit, assim como o contrário. Isto posto, torna-se expressiva a gravidade de sua ausência, sobretudo afetiva, para com Kit, que pode suscitar ou intensificar um sofrimento psíquico duradouro em decorrência dessa lacuna não preenchida. Essa relação conturbada fica mais evidente quando Thomas confronta Sônia sobre qual o lugar de Kit em sua vida. Analisa-se que a cientista olha para as estrelas, como se alcançasse o mundo inteiro, menos aquele pedaço pelo qual realmente é responsável, onde é insubstituível. Nota-se que o sistema familiar de Sônia, até onde o espectador conhece, é composto apenas por sua filha Kit, que luta sem sucesso aparente pela atenção da mãe. Desse modo, a pergunta de Thomas, ao fazê-la tomar consciência disso, pareceu motivar em Sônia, nas cenas finais, o início desse movimento “para fora”, característico do amor, de forma que ela finalmente demonstra querer dedicar tempo e aproximar-se da filha. Para a Logoterapia, o amor é o campo onde se realizam valores de vivência, além de ser um ato existencial em que dois seres humanos buscam descobrir o que há de único no outro. Não é possível saber como se continuou essa relação entre elas, mas pode-se inferir que a saída de si de Sônia se deu, em primeiro lugar, pelo amor, esse fenômeno essencialmente humano, assim como, demonstra em atitude a autotranscendência tanto defendida pela personagem. Apesar do filme “Ponto de Mutação” não abordar de forma direta a temática familiar especificamente, foi possível estabelecer relações acerca do subsistema familiar mãe-filha dialogando com os conceitos da Logoterapia. Conclui-se que para caminhar rumo a um sistema familiar saudável deve-se ter em mente aquilo que disse o poeta em seu monólogo final: qual o lugar das pessoas reais, com suas qualidades, desejos e fraquezas nesse sistema? De fato, “Nenhum santo se sustenta só”.

  • Palavras-chave
  • Família, Logoterapia, Sistemas familiares, Autotranscendência, Parentalidade, Ponto de Mutação
  • Área Temática
  • Psicologia
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O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.

Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.

Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.

Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.

Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.

Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.

Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)

Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE). 

O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.

Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.

Áreas temáticas:

Psicologia 
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:

Pesquisa empírica:  trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais:  trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:

Português
Espanhol 
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6

Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2

Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6

O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada. 

Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima

Comissão Científica

Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)