Introdução: Este trabalho tem como objetivo analisar as contribuições do estágio em Psicologia na Atenção Básica para a formação profissional, articulando os pressupostos da Logoterapia e Análise Existencial aos princípios do cuidado integral no Sistema Único de Saúde. O estudo parte do reconhecimento de que a Atenção Básica ocupa lugar estratégico na organização do SUS, por constituir a principal porta de entrada dos usuários, coordenar o cuidado em rede e possibilitar práticas territorializadas, longitudinalidade do acompanhamento e atuação multiprofissional. Nesse contexto, a inserção da Psicologia exige mais do que domínio técnico: requer sensibilidade para compreender que o sofrimento psíquico não se produz de forma isolada, mas em estreita relação com as condições materiais de existência, com os vínculos sociais disponíveis, com os modos de organização da vida cotidiana e com as desigualdades que atravessam o território.
Metodologia: Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, fundamentado na pesquisa bibliográfica e na sistematização crítica de vivências desenvolvidas entre março de 2024 e dezembro de 2025 em uma unidade de Atenção Primária à Saúde situada em território de elevada vulnerabilidade social, na zona norte do município do Rio de Janeiro. A experiência de estágio ocorreu em articulação com equipe multiprofissional e envolveu acolhimento, escuta qualificada, atendimentos individuais, ações em sala de espera, grupos terapêuticos e educativos, visitas domiciliares, interconsultas, reuniões de equipe, matriciamento e intervenções intersetoriais. A análise dessas vivências foi orientada pela compreensão de que o sofrimento que chega aos serviços de saúde não pode ser reduzido à dimensão intrapsíquica, tampouco explicado apenas por categorias diagnósticas. No cotidiano do estágio, emergiram demandas marcadas por lutos, violências, sobrecarga do cuidado, esgotamento, solidão, fragilização dos vínculos, sensação de fracasso, desamparo e esvaziamento existencial, especialmente entre mulheres, idosos e jovens. Tais experiências tornaram evidente que, na Atenção Básica, o sofrimento aparece intensamente atravessado por determinantes sociais, como pobreza, racismo estrutural, desigualdade de gênero, precarização do trabalho, insegurança, vulnerabilidade programática e fragilidade das redes de proteção. Assim, o cuidado psicológico no SUS mostrou-se inseparável de uma leitura crítica da realidade social, uma vez que aquilo que se apresenta como sofrimento individual frequentemente expressa também marcas coletivas, históricas e políticas.
Resultados: Nesse cenário, a Logoterapia mostrou-se um referencial fecundo por possibilitar uma leitura multidimensional do sujeito, considerando as dimensões somática, psíquica e noética, sem desconsiderar que a experiência concreta dessas dimensões é permanentemente atravessada pelo mundo social e cultural. Em diálogo com o cuidado integral, essa perspectiva contribui para deslocar o foco de uma clínica centrada exclusivamente na supressão do sintoma para uma prática que também reconhece liberdade possível, responsabilidade, valores, vínculos e capacidade de resposta diante da existência, mesmo em circunstâncias adversas. Não se trata de negar os condicionamentos sociais nem de individualizar problemas produzidos por desigualdades estruturais, mas de afirmar que o humano não se esgota naquilo que padece. Ao aproximar a Logoterapia da Atenção Básica, o estudo sustenta que o cuidado integral pode ser ampliado quando reconhece simultaneamente a singularidade da experiência subjetiva e os atravessamentos sociais do sofrimento, compreendendo que o sentido na vida não emerge fora do mundo, mas nas formas concretas pelas quais cada pessoa se posiciona diante de sua realidade.
Como contribuição analítica , destaca-se a noção de frestas de sentido, formulada para nomear pequenas aberturas pelas quais a vida ainda insiste, mesmo quando atravessada por dor, perda, culpa, cansaço e precariedade social. Essas frestas podem se manifestar em gestos aparentemente simples, como a retomada de um vínculo, a possibilidade de fala, a permanência em um grupo, a experiência de ser escutado, o fortalecimento de redes de apoio ou a redescoberta de algo que ainda convoca o sujeito a permanecer no mundo. Tal formulação não romantiza a adversidade nem despolitiza o sofrimento; ao contrário, permite reconhecer que considerar o sentido na vida, no campo da saúde coletiva, constitui uma aposta ética no fato de que, mesmo em contextos socialmente adversos, ainda podem emergir modos singulares e coletivos de resistência, reposicionamento e cuidado.
Conclusão: Conclui-se que o estágio em Atenção Básica se configura como espaço privilegiado de formação crítica em Psicologia, por favorecer a articulação entre teoria e prática, clínica e território, subjetividade e realidade social. A interlocução entre Logoterapia, Atenção Básica e cuidado integral mostrou-se potente para sustentar práticas mais humanas, territorializadas e socialmente implicadas, reafirmando que a formação em Psicologia, no contexto do SUS, pode ultrapassar a aprendizagem técnica e constituir-se como experiência ética, política e existencial de compromisso com a vida.
O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.
Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.
Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.
Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.
Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.
Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.
Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)
Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE).
O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.
Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.
Áreas temáticas:
Psicologia
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:
Pesquisa empírica: trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais: trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:
Português
Espanhol
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6
Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2
Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6
O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada.
Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima
Comissão Científica
Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)