Na prática clínica da Logoterapia, observa-se com frequência a dificuldade dos pacientes em identificar e diferenciar os valores implicados em suas experiências cotidianas. Estados de desconforto, reações emocionais imediatas e exigências situacionais tendem a ser assumidos como critérios de orientação da ação, o que acaba por obscurecer a apreensão dos valores e comprometer a possibilidade de uma resposta existencial efetivamente orientada para o sentido. Nesse contexto, o conceito de valor, embora central na proposta de Viktor Frankl, apresenta-se, não raramente, de modo difuso e pouco operacional no âmbito da prática clínica.
Diante dessa dificuldade, o presente trabalho propõe uma retomada da teoria dos valores de Max Scheler, com ênfase na estrutura hierárquica dos valores e nos critérios que a constituem, como possibilidade de fundamentação para uma prática logoterapêutica mais precisa. Parte-se da hipótese de que a hierarquia dos valores pode ser compreendida não apenas como uma formulação de caráter filosófico, mas como uma forma de tipificação da experiência axiológica, capaz de oferecer um princípio organizador para a percepção dos valores nas situações concretas da existência.
Na fenomenologia de Scheler, os valores são compreendidos como qualidades objetivas que se dão à pessoa por meio de uma intuição afetiva de caráter espiritual, sendo apreendidos de modo pré-reflexivo através do ato de “sentir-preferindo” (Fühlen und Vorziehen). A ordenação desses valores não se apresenta como uma construção arbitrária, mas como uma estrutura que se manifesta na própria experiência vivida, podendo ser reconhecida a partir de critérios como durabilidade, profundidade de realização, independência e proximidade ao absoluto. Nesse sentido, a hierarquia dos valores configura-se como uma possibilidade de leitura diferenciada dos níveis de resposta humana, desde aquelas centradas no imediato psicofísico até aquelas orientadas por valores de ordem espiritual e sagrada.
Ao aproximar essa compreensão da Logoterapia, torna-se possível explicitar que aquilo que frequentemente se apresenta como “conflito de valores” na experiência do paciente não corresponde, propriamente, a uma oposição real entre eles, mas a um fenômeno decorrente da forma como a situação existencial é apreendida em diferentes níveis. Conforme indicado por Frankl, a ordem hierárquica dos valores não implica conflito, uma vez que valorar já significa preferir um valor em detrimento de outro, situando-o em uma ordem relativa. No entanto, quando essa estrutura é apreendida a partir de uma redução ao plano psicofísico, pode emergir a impressão de colisão entre valores. Tal fenômeno pode ser compreendido à luz da perspectiva tridimensional do ser humano, segundo a qual conteúdos de níveis distintos, quando projetados em um mesmo plano, podem parecer contraditórios, embora não o sejam em sua estrutura própria. Assim, o que se apresenta como conflito não é uma propriedade dos valores em si, mas um efeito da limitação do campo de apreensão.
A partir dessa perspectiva, a psicoeducação acerca da hierarquia dos valores pode ser compreendida como um recurso clínico orientado à ativação do antagonismo psiconoético. Em Frankl, esse antagonismo refere-se à tensão constitutiva entre as dimensões psicofísica e noética do ser humano, na qual a esfera espiritual não se encontra determinada pelos estados emocionais ou condicionamentos situacionais, podendo posicionar-se frente a eles. Longe de representar um conflito patológico, trata-se do próprio espaço da liberdade humana, no qual a pessoa pode, mesmo diante de estados internos adversos, orientar-se por valores mais altos e mais completos.
Metodologicamente, trata-se de um ensaio teórico-conceitual, desenvolvido a partir de uma análise fenomenológica da teoria dos valores de Scheler, em articulação com categorias centrais da Logoterapia diretamente implicadas na problemática axiológica, tais como o sentido enquanto correlato objetivo dos valores, a consciência compreendida como órgão de apreensão do sentido e a dimensão noética enquanto instância a partir da qual se torna possível a resposta aos valores. A proposta consiste em explicitar de que modo os critérios de hierarquização dos valores podem ser traduzidos em linguagem acessível e utilizados como mediadores no processo clínico, especialmente no âmbito de intervenções psicoeducativas em Logoterapia.
Sustenta-se que a incorporação da hierarquia dos valores como recurso clínico permite não apenas uma maior compreensão da experiência vivida, mas sua reconfiguração à luz de valores mais elevados, favorecendo a dimensão noética. Ao reconhecer que determinados conflitos dizem respeito, na realidade, a níveis distintos de valor, o paciente pode reposicionar sua experiência, deixando de se orientar exclusivamente por critérios de alívio imediato e passando a responder àquilo que se lhe apresenta como exigência de sentido.
Por fim, conclui-se que a teoria dos valores de Max Scheler, quando retomada em sua densidade fenomenológica, oferece à Logoterapia não apenas um fundamento teórico, mas uma via concreta de operacionalização clínica. Ao funcionar como uma tipificação da experiência axiológica, a hierarquia dos valores pode ser incorporada como instrumento de psicoeducação clínica, contribuindo para que o paciente reconheça, ordene e responda aos valores presentes em sua existência de modo mais consciente, livre e responsável.
O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.
Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.
Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.
Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.
Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.
Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.
Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)
Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE).
O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.
Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.
Áreas temáticas:
Psicologia
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:
Pesquisa empírica: trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais: trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:
Português
Espanhol
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6
Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2
Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6
O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada.
Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima
Comissão Científica
Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)