Entre o Vazio Existencial e a Autotranscendência: significados do comportamento suicida na parentalidade sob a ótica de Viktor Frankl

  • Autor
  • Beatriz Araujo Miyata
  • Co-autores
  • Márcia Leonardi Baldisserotto , Ana Cristina Barros da Cunha
  • Resumo
  • O ciclo gravídico-puerperal é habitualmente romantizado pela sociedade como um período de plenitude intrínseca e realização pessoal. Contudo, essa fase configura-se, na realidade, como um momento de intensas vulnerabilidades psicossociais, marcado por profundas transformações físicas, psíquicas e existenciais. A imposição de um ideal inalcançável do amor materno infalível frequentemente invisibiliza o sofrimento, que, ao não encontrar espaço de acolhimento, pode evoluir para desfechos graves, destacando-se o comportamento suicida. Sob a ótica da Logoterapia e Análise Existencial (LAE), o suicídio é classicamente compreendido como a expressão extrema do vazio existencial, resultante da frustração da vontade de sentido. Entretanto, faz-se necessário um aprofundamento fenomenológico para entender as particularidades desse fenômeno no contexto sensível da parentalidade. Diante dessa lacuna, o presente trabalho tem como objetivo analisar os significados atribuídos ao comportamento suicida por pessoas que vivenciam o ciclo gravídico-puerperal, investigando as dinâmicas de sofrimento e as vias de afirmação da vida à luz da abordagem de Viktor Frankl. Trata-se de uma pesquisa empírica com delineamento qualitativo. A amostra foi composta por cinco participantes heterogêneos em suas identidades, abarcando três mulheres cisgênero gestantes, uma mulher cisgênero puérpera e um homem transgênero no puerpério ampliado. O critério de inclusão exigia o acompanhamento psiquiátrico em uma maternidade-escola na cidade do Rio de Janeiro e a presença de ideação, planejamento ou tentativa de suicídio ao longo da gestação ou puerpério. A coleta de dados operou-se mediante a aplicação de um protocolo sociodemográfico e clínico, seguido de entrevistas semiestruturadas em profundidade. Todo o material foi processado sistematicamente através da Análise Temática Reflexiva, conduzida de forma dedutiva e interpretativa em diálogo direto com a teoria frankliana, buscando-se ir além do conteúdo semântico para desvelar os aspectos latentes da experiência vivida. O processo analítico resultou na construção de quatro eixos temáticos centrais que evidenciam a complexidade e a tessitura relacional do comportamento suicida perinatal. O primeiro tema, "A vivência da parentalidade", demonstrou que a experiência é atravessada por uma profunda ambivalência afetiva, na qual a conexão com o bebê coexiste com avassaladoras sensações de aprisionamento. Observou-se que essa vivência é ativamente tensionada por dois subtemas: a imposição de um ideal parental, que gera culpa extrema, e a reatualização do desamparo, que traz à tona dores históricas e rupturas nas redes de apoio. É exatamente essa sobrecarga psicossocial e relacional que favorece a emergência do segundo eixo temático: "A morte como horizonte de sentido", evidenciando a complexidade das experiências relatadas, permeadas por cobranças internas e externas, e forte tensão existencial. Os resultados apontaram que o suicídio na perinatalidade vai além do adoecimento psiquiátrico e do mero vazio existencial; a morte passa a figurar como um horizonte de sentido ativo, sendo percebida ilusoriamente como a única solução para cessar um sofrimento psicofísico insuportável. Contudo, a tensão existencial gerada suscita também movimentos de resistência. O terceiro tema mapeou as "Estratégias de permanência na vida". Verificou-se que os participantes, em meio à ideação suicida, acionaram o recurso noético do autodistanciamento - a capacidade especificamente humana de se afastar dos próprios sintomas para não se fundir a eles. Assumindo posturas de enfrentamento fundamentadas nos valores de atitude, buscaram ativamente intervenções em saúde mental e apoio social. A articulação dessas estratégias é o que possibilita um espaço de hesitação diante do ato fatal, o qual convoca o sujeito para o quarto e último tema: "A reorientação para o sentido - a autotranscendência e a sobreposição do cuidado”. A autotranscendência revelou-se na capacidade de se projetar além da própria dor, ancorando-se na sobreposição do cuidado com o filho, no cultivo da fé e no desejo vital de não repassar a herança do desamparo geracional. O amor intencional e a percepção da responsabilidade pelo bebê atuaram como forças da dimensão espiritual que se contrapuseram frontalmente ao desejo de morte, permitindo que o cuidado prevalecesse. Conclui-se que o comportamento suicida perinatal é um drama existencial multifatorial, marcado por severa tensão e indecisão, e não obedece a uma causalidade linear determinista. O estudo enfatiza que a prática clínica, e de saúde pública, deve transcender o rastreio estrito de risco psiquiátrico e o olhar focado apenas na dimensão biológica. É imperativo oferecer uma escuta que desnaturalize o mito do amor materno, acolha os sentidos ocultos no sofrimento e fortaleça as brechas da vida na iminência da morte - através da autotranscendência - auxiliando o indivíduo a sustentar a responsabilidade por sua existência e a reafirmar, de forma autêntica, sua vontade de sentido.

  • Palavras-chave
  • Comportamento suicida perinatal; ciclo gravídico-puerperal; Logoterapia e Análise Existencial; Autotranscendência; Análise Temática Reflexiva
  • Área Temática
  • Psicologia
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O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.

Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.

Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.

Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.

Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.

Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.

Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)

Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE). 

O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.

Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.

Áreas temáticas:

Psicologia 
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:

Pesquisa empírica:  trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais:  trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:

Português
Espanhol 
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6

Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2

Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6

O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada. 

Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima

Comissão Científica

Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)