A adolescência é um processo transicional entre infância e vida adulta que resulta em alterações para a maturidade psicofísica e no qual os contextos social e familiar se apresentam como fatores de risco ou proteção. Estudos apontam que famílias com alto nível de estresse e vulnerabilidade social aumentam a probabilidade do adolescente adoecer psiquicamente.
Nessa via, Frankl, desde 1927, em Viena, já manifestava preocupação em prover aos jovens um espaço de escuta e orientação para o sentido. Embora em processo de amadurecimento biopsíquico, os jovens são essencialmente noéticos, logo, capazes de responder à vida com sentido. Para Frankl, a vida sempre tem sentidos objetivos, inclusive no sofrimento, dada à possibilidade da pessoa de transformá-lo em realização.
Apresenta-se um relato de caso psicoterápico com adolescente, fundamentado na Logoterapia e Análise Existencial, realizado no Serviço Escola de Psicologia (SEP) de uma universidade pública. Metodologicamente, é um estudo de caso clínico, com abordagem qualitativa. Sobre aspectos éticos, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido do SEP assinado pela responsável, garantiu o sigilo psicoterapêutico e autorizou o uso da psicoterapia na pesquisa.
Nicole (nome fictício) é estudante de ensino médio da rede pública, e iniciou os atendimentos aos 15 anos. Buscou a psicoterapia devido à crises ansiosas, sobrecarga de atividades domésticas e relacionamento conflituoso com a mãe: desde os 12 anos, sua mãe a encarrega dos cuidados da casa e do irmão caçula e a designou como ajudante em trabalhos de confeiteira. Com isso, a paciente começou a manifestar angústia, tristeza, desesperança, comportamentos autolesivos e ingestão de tranquilizantes.
Entretanto, foram identificados valores norteadores da paciente. Os estudos, apesar da rotina cheia, eram prioridade, uma possibilidade de mudar de vida. A responsabilidade com o que lhe cabia e a determinação eram marcas suas. Como principal cuidadora do irmão, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista, manifestava carinho e cuidado por ele. Também, mostrava-se preocupada com familiares, demonstrando autotranscendência.
No processo logoterapêutico que ocorreu entre 2025 e 2026, com 27 sessões, foram usadas técnicas e recursos para mobilização dos recursos noéticos, principalmente o diálogo socrático. A terapeuta investia em questionamentos para Nicole refletir sobre os espaços de liberdade presentes para mudar as circunstâncias ou, quando não era possível, exercer valores de atitude, posicionando-se frente aos sofrimentos inevitáveis. Também realizou-se uma discussão sobre as personagens Hermione (de Harry Potter) e a Princesa Tiana, de forma a mobilizar o autodistanciamento para Nicole olhar as dificuldades e potencialidades de sua vida através das personagens.
Com a psicoterapia, Nicole pode encontrar um espaço onde trabalhar suas questões, com um “tu”, a terapeuta, aberta para o encontro. Frankl, postula que o verdadeiro encontro é uma relação autêntica em que duas pessoas transcendem a si mesmas em direção ao sentido. Nessa perspectiva, para auxiliá-la na descoberta dos sentidos já realizados na sua vida, construiu-se um álbum de fotos, descrevendo as pessoas e momentos importantes na sua vida. Com isso, ela pôde perceber: o apoio do pai e dos tios; sua escolha de cuidar bem do irmão mais novo; e os amigos como figuras de apoio. Frankl enfatiza que a vida tem sentido mesmo no sofrimento e, para Nicole, reconhecer os motivos que a mantinham viva a auxiliou a enfrentar esses desafios mais conscientemente.
Ademais, a biblioterapia foi usada para discutir sobre valores de atitude, através do livro “Um menino chamado Viki”, de Tatiana Carvalho. Nicole se identificou com o “personagem”, especialmente quando é descrito sua prisão nos campos de concentração nazista. Segundo ela, assim como Viktor “eu não desisti” e “sempre tive objetivos, eles me ajudaram a passar por momentos ruins”. Discutiu-se como Viktor escolhia responder nesses momentos, ao que ela refletiu “acho que também tenho respondido bem à vida”. O lema da Logoterapia “sim à vida, apesar de tudo” virou seu lema, afinal, sua vida era uma prova dessa afirmação.
Concluindo, Nicole começou a se posicionar com a mãe, expressando suas ideias e sentimentos, não recorrendo mais à autolesão, nem aos tranquilizantes. Praticando o que Frankl diz, que todo sofrimento evitável deve ser evitado, a paciente incubia à mãe a responsabilidade com o irmão, além de ressaltar a importância dos seus estudos. Segundo ela, “percebi que, ao me posicionar mais em relação a minha mãe, me fez ser mais determinada em relação às minhas coisas”. Nicole aprendeu que “apesar dos determinismos, não somos determinados”, ou seja, que sua consciência é livre para se posicionar com responsabilidade frente aos acontecimentos. Nicole é um exemplo da importância destacada por Frankl de não subestimar jovens sobre sua capacidade de suportar o sofrimento, sendo “heróis” que vivem com sentido, apesar dos sofrimentos.
Portanto, entende-se que a Logoterapia enquanto psicoterapia contribui para o adolescente: tomar decisões mais livres e responsáveis mesmo diante dos “destinos”; desenvolver estratégias de enfrentamento saudáveis, alinhadas com seus valores, propiciando a realização de sentidos na vida.
O XIII Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial (CBLAE 2026) ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto de 2026 na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana, na Bahia.
Com o tema central “Sentido na Vida e Dignidade Humana”, o congresso ofereceu quatro dias de uma intensa programação dedicada ao estudo, à atualização e à difusão do legado de Viktor Frankl. Foram realizados minicursos de pré-congresso, conferências, outorga do Prêmio Viktor Frankl, apresentações de trabalhos científicos, e mesas-redondas.
Promovido bianualmente, o CBLAE agrega pessoas interessadas na visão frankliana. É o evento de maior relevância nacional da área, constituindo um espaço privilegiado para o encontro e o diálogo entre representantes da academia, da clínica psicológica, da educação e diferentes campos da saúde. A programação favoreceu a discussão sobre temas contemporâneos relacionados à pesquisa, à inovação e às aplicações da Logoterapia no Brasil e no mundo.
Viktor Frankl legou os fundamentos da Logoterapia e Análise Existencial e, ao mesmo tempo, convocou as gerações futuras para continuar este legado. Ele não considerava seus conceitos como um sistema fechado, mas como um saber aberto e dinâmico, a ser constantemente estudado, aprofundado e atualizado. Em sintonia com essa perspectiva a ABLAE e o CBLAE entende que esta é uma missão desta geração de logoterapeutas.
Os Anais do CBLAE 2026 reúnem 73 trabalhos, apresentados oralmente em salas paralelas na tarde do dia 28/08 e na manhã do dia 29/08. Foram momentos de discussões frutíferas entre professores, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais da psicologia, enfermagem, educação, filosofia e outras áreas do conhecimento.
Prezados estudiosos da Logoterapia e Análise Existencial aqui está a apresentação dos resumos dos trabalhos orais apresentados. São textos que expandem a compreensão entendimento dos pensamentos franklianos. Desejamos que seja uma leitura profícua, desperte novas reflexões e favoreça o diálogo entre leitores e autores, ampliando o entendimento e o desenvolvimento da abordagem que tem como centro o sentido na vida.
Prof. Dr. Flávio Luiz Honorato da Silva
(Coordenador da Comissão Científica do CBLAE 2026)
Os resumos de trabalhos deverão ter como fundamento básico a Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl (LAE).
O texto do resumo deve ser colado no formulário e conter de 300 a 800 palavras. Não é necessário citar referências.
Todos os trabalhos serão apresentados oralmente e de modo presencial e posteriormente publicados nos anais. Haverá premiação dos melhores trabalhos.
Áreas temáticas:
Psicologia
Educação
Enfermagem
Saúde
Ciências da Religião
Filosofia
Outras áreas
Categoria:
Pesquisa empírica: trabalhos que apresentam resultados obtidos a partir de coleta e análise sistemática de dados (quantativos e/ou qualitativos), com método explicitado. Exemplos de metodologias comuns: estudo transversal (survey/questionário/entrevista), estudo longitudinal, estudo quase-experimental, estudo correlacional, validação/adaptação de instrumentos, estudo qualitativo (fenomenologia, análise temática, teoria fundamentada, etnografia), métodos mistos, etc.
Relato de experiência e práticas profissionais: trabalhos que descrevem e analisam criticamente uma prática, intervenção, projeto ou ação profissional (clínica, educação, saúde, assistência, organizações etc.), destacando contexto, tomada de decisão e aprendizados. Exemplos de metodologias comuns: relato técnico fundamentado, pesquisa-ação, avaliação de processo, avaliação de programa/intervenção (com indicadores simples), triangulação de registros (diários de campo, observação, feedback de participantes).
Trabalho teórico-conceitual: trabalhos voltados ao aprofundamento teórico, discussão conceitual e elaboração de argumentos com base em literatura pertinente, podendo articular Logoterapia/Análise Existencial com temas e campos correlatos. Exemplos de metodologias comuns: ensaio teórico, análise conceitual, revisão de literatura (narrativa, integrativa, escopo), abordagens hermenêuticas/interpretativas de textos (quando cabível), comparação de modelos teóricos.
Produtos, tecnologias e inovação: propostas que apresentam um produto/solução aplicável (material, protocolo, instrumento, roteiro, recurso educativo), com descrição do desenvolvimento, fundamentação e uso potencial. Exemplos de metodologias comuns: prototipagem e iteração, validação de conteúdo, estudo piloto, avaliação de usabilidade/aceitabilidade, avaliação preliminar de efetividade (pré–pós, feedback estruturado).
Idioma da Submissão:
Português
Espanhol
Máximo de autores (e co-autores) por trabalho: 6
Máximo de trabalhos permitidos por autor: 2
Máximo de trabalhos permitidos por co-autor: 6
O primeiro autor deve estar inscrito no evento e conferir a confirmação de submissão em seu email. Caso não receba a confirmação, a submissão pode não ter sido realizada.
Coordenação Geral
David Moises Barreto dos Santos (presidente)
Vinicius Cerqueira Bastos dos Santos
Adriana Braitt Lima
Comissão Científica
Flávio Luiz Honorato da Silva (UFPB) - coordenador
Alisson de Meneses Pontes (UNILIFE)
Benedito Guilherme Falcão Farias (ALVEF)
David Moises Barreto dos Santos (UEFS)
Diogo Arnaldo Corrêa (UMC)
Elaine Custódio Rodrigues Gusmão (UFCG)
Flávia Neves Ferreira (UEPB)
Francisca Pereira da Cruz Zubicueta (UFMA)
Francisco Carlos Gomes dos Santos (AGIR3)
Gilvan de Melo Santos (UEPB)
Hermilia Feitosa Junqueira Ayres (UFCG)
Karen Guedes Oliveira (UFPB)
Katia Vanessa Pinto de Meneses (UnB)
Lisieux D'Jesus Luzia de Araújo Rocha (FCC)
Lorena Bandeira Melo de Sá (UNINASSAU)
Lílian Perdigão Caixêta Reis (UFV)
Marcos Vinicius da Costa Meireles (IFG)
Maria Helena Budal da Silva (Escola de Logoterapia)
Paulo Kroeff (UFRGS)
Rouseane da Silva Paula Queiroz (UERN)
Sandrelena da Silva Monteiro (UFJF)
Sarah Xavier Vasconcelos de Fialho Rodrigues (UNILIFE)
Sheila Maria Hesketh Rabuske (ALVEF)
Silvania Rita Ramos (SOBRAL)
Simone Guedes Alves Gomes dos Santos (AGIR3)
Solange Santos de Freitas (Núcleo Mineiro de Logoterapia)
Tatiana Oliveira de Carvalho (TJMA)
Vinícius Cerqueira Bastos dos Santos (UEFS)