As infecções bacterianas oculares são frequentes entre povos indígenas da região Norte, que enfrentam vulnerabilidades relacionadas ao acesso limitado a serviços de saúde, condições de higiene precárias e barreiras socioculturais. A exposição contínua a ambientes insalubres e dificuldade de diagnósticos favorecem a propagação dessas infecções, tornando essencial compreender seus impactos e desafios específicos nessas comunidades tradicionais. Avaliar a ocorrência de infecções bacterianas oculares não tracomatosas em crianças pertencentes a duas comunidades indígenas (Formoso e Tocantínea) localizadas no estado do Tocantins. As amostras foram obtidas em colaboração com o Instituto Evandro Chagas durante o Inquérito Nacional de Validação da Eliminação do Tracoma como problema de Saúde Pública. Foram analisados 12 swabs oculares de crianças indígenas que apresentavam sinais clínicos de infecção e apresentaram resultado negativo de qPCR para Chlamydia trachomatis. A partir das amostras coletadas, foi extraído DNA bacteriano, que posteriormente foi sequenciado utilizando a plataforma MinION (Barcodes 1 a 12). Os dados brutos foram analisados utilizando o pipeline de metagenômica do software EPI2ME v5.2.2. As análises de HeatMap e a análise de componentes principais (PCA) foram realizadas utilizando a linguagem de programação Python, com as bibliotecas scikit-learn PCA, Pandas e Matplotlib. Dos 12 barcodes analisados, as famílias bacterianas mais abundantes foram Enterobacteriaceae, Staphylococcaceae, Streptomycetaceae e Vibrionaceae. Entre as espécies identificadas Escherichia coli, Staphylococcus aureus e Photobacterium leiognathi foram as mais frequentes. Observou-se que E. coli, espécie reconhecidamente patogênica mesmo em pequenas quantidades, apresentou altos níveis nos barcodes 1 e 12. S. aureus, que pode compor a microbiota de algumas pessoas, mas se torna patogênica em altas concentrações, foi detectada em níveis elevados no barcode 3, juntamente com P. leiognathi. Esta última não é considerada patogênica e nem integrante da microbiota humana, sendo geralmente associada a contaminação por água, o que sugere exposição ambiental nas crianças avaliadas. Também foram encontradas uma grande quantidade de leituras com correspondência com a espécie Streptomyces sp. NBC_01167, principalmente nos barcodes 3 e 4, entretanto não existem informações publicadas sobre a característica desse isolado, somente que faz parte das coleções biológicas do Nordisk Foundation Center for Biosustainability. A análise de PCA evidenciou uma diferenciação clara na estrutura da comunidade microbiana nos barcodes 1, 3 e 12, enquanto as demais apresentaram padrões semelhantes, agrupando-se de forma mais próxima na análise. A análise revelou que a maioria das crianças apresentou um perfil microbiano compatível com a microbiota ocular normal, o que foi reforçado pela PCA, na qual esses barcodes agruparam-se de forma próxima, indicando quadros possivelmente saudáveis com sinais clínicos residuais de infecções prévias, provavelmente por tracoma. Em contraste, os barcodes 1, 3 e 12 formaram agrupamentos separados no PCA e apresentaram maior abundância de bactérias patogênicas, sugerindo quadros infecciosos ativos. Esses achados destacam a importância do monitoramento microbiológico e da melhoria das condições de higiene e assistência e saúde para prevenir e identificar precocemente infecções oculares em comunidades indígenas.
Comissão Organizadora
Encontro do BAIP
CARLOS HUMBERTO DA SILVA FAVACHO FILHO
Comissão Científica