INTEGRAÇÃO DE LINGUAGENS NO ENSINO DE GEOGRAFIA URBANA CRÍTICA: ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS PARA A PROMOÇÃO DA CONVIVÊNCIA DEMOCRÁTICA NA EPT

  • Autor
  • Mônica Dalagnol
  • Co-autores
  • Keila Aparecida de Almeida , Reginaldo Leandro Placido
  • Resumo
  •  

    A convivência democrática no ambiente escolar constitui-se como um dos principais desafios contemporâneos da educação, especialmente em contextos urbanos marcados por desigualdades socioespaciais. Na Educação Profissional e Tecnológica (EPT), essa questão assume particular relevância para jovens formadores que serão agentes de transformação em seus territórios. O ensino de Geografia, nesse contexto, possui potencial singular para promover a convivência democrática ao desenvolver o pensamento espacial crítico e a capacidade de diálogo sobre questões urbanas.

    Este estudo investiga estratégias metodológicas que integram literatura, cartografia e dados socioespaciais no ensino de Geografia urbana crítica, com foco na promoção da convivência democrática na EPT. A pesquisa ancora-se na realidade de Palhoça/SC, município que experimentou um crescimento populacional de 62% entre 2010 e 2022, gerando tensões urbanas que demandam análise crítica e propostas colaborativas de intervenção.

    O objetivo é mapear e analisar estratégias metodológicas que integram literatura, cartografia e dados socioespaciais no ensino de Geografia Crítica na EPT, identificando contribuições para a promoção da convivência democrática e o desenvolvimento do pensamento espacial crítico.

    A abordagem interdisciplinar proposta visa superar lacunas metodológicas identificadas na literatura, especificamente a ausência de experiências validadas que articulem essas três linguagens no contexto da EPT. Alinhando-se às diretrizes da BNCC e aos princípios da convivência democrática, o objetivo é desenvolver competências que permitam aos estudantes exercer a cidadania ativa, promovendo o diálogo respeitoso e as instruções colaborativas no território.

    A análise da realidade urbana fundamenta-se na Geografia Crítica, que oferece instrumentos conceituais para compreender o espaço como produto e produtor de relações sociais (Santos, 2006). O conceito de "direito à cidade" (Lefebvre, 2001) articula-se com os princípios da convivência democrática, pois ambos pressupõem participação ativa, diálogo e construção coletiva de soluções para problemas urbanos.

    Para Carlos (2020), o espaço urbano revela contradições sociais que se tornam legíveis por meio da análise crítica, permitindo superar visões fragmentadas e promover o entendimento sistêmico das aparências urbanas. Essa leitura crítica, quando mediada pedagogicamente, contribui para a formação de sujeitos capazes de exercer convivência democrática, pois desenvolve capacidade de escuta, argumentação fundamentada e proposição colaborativa.

    A proposta metodológica integra três linguagens complementares: a literatura, que atua como mediação cultural (Vygotski, 2001) para desenvolver empatia e compreensão das dimensões simbólicas do território, favorecendo o diálogo intercultural; a cartografia , que promove o letramento cartográfico como ferramenta de comunicação e negociação espacial (Castellar, 2010); e os dados socioespaciais, que oferecem base empírica para argumentação fundamentada em provas públicas.

    Essa triangulação metodológica configura-se como estratégia pedagógica que promove a convivência democrática ao criar zonas de desenvolvimento proximal (Vygotski, 2001) sob diferentes perspectivas dialogam. Os estudantes transcendem percepções individuais e constroem entendimento coletivo, desenvolvendo competências essenciais para a convivência: capacidade de ouvir diferentes pontos de vista, argumentar com base em evidências e construir consensos através do diálogo respeitoso.

    Este estudo adota o delineamento de Revisão Sistemática de Literatura (RSL), seguindo diretrizes que garantem rigor e transparência metodológica (Galvão; Ricarte, 2020). A escolha justifica-se pela necessidade de mapear sistematicamente experiências que integrem as linguagens de interesse, com foco específico na promoção da convivência democrática através do ensino de Geografia.

    A revisão busca responder a três perguntas norteadoras: (1) Que estratégias metodológicas são reportadas para integrar literatura, cartografia e dados socioespaciais no ensino de Geografia urbana? (2) Quais evidências existem sobre a contribuição dessas abordagens para a convivência democrática no ambiente escolar? (3) Que instrumentos de avaliação são utilizados para mensurar o impacto dessas metodologias na formação cidadã?

    A estratégia de busca foi realizada nas bases SciELO, Portal CAPES, Google Scholar e anais dos eventos ENPEG e ENG, utilizando os descritores: "ensino de geografia", "interdisciplinaridade", "convivência escolar", "EPT", "metodologias integradas". Os critérios de inclusão abrangem: estudos empíricos publicados entre 2014-2024, aplicação no Ensino Médio (preferencialmente EPT), descrição clara de disciplinas integrando pelo menos duas das três linguagens, e evidências sobre impacto na convivência escolar ou formação cidadã.

    Os dados extraídos foram organizados em planilha Excel e submetidos à análise temática, identificando padrões sobre estratégias metodológicas, impactos na convivência democrática e lacunas de pesquisa. O objetivo é oferecer um panorama crítico das práticas existentes e propostas fundamentais de inovação metodológica para a EPT.

    A análise de 23 estudos selecionados revelou lacunas metodológicas significativas, com implicações diretas para a promoção da convivência democrática através do ensino de Geografia na EPT.

    Fragmentação das abordagens: Dos trabalhos analisados, 11 focaram exclusivamente na integração cartografia-dados socioespaciais, enquanto 12 investigaram relações Geografia-Literatura. Não foram identificados estudos que se articulam empiricamente como três linguagens, representando oportunidade única para desenvolvimento de metodologias integradas que potencializam o diálogo interdisciplinar e a convivência democrática.

    Escassez de evidências sobre convivência: Apenas 4 dos 23 estudos reportaram implementação prática em sala de aula, e destes, nenhuma investigou especificamente contribuições para a convivência democrática. A maioria se concentra em aprendizagem conceitual, superando dimensões atitudinais e relacionais fundamentais para a formação cidadã.

    Limitações na EPT: Apenas 1 estudo direcionado especificamente à EPT, evidenciando lacunas críticas considerando que essa modalidade forma profissional que atuará diretamente em territórios urbanos. A ausência de pesquisas nesse contexto impede o aproveitamento do potencial interdisciplinar da EPT para promover a convivência democrática.

    Fragilidades metodológicas: Apenas 3 estudos utilizaram instrumentos robustos de avaliação (questionários pré/pós-intervenção), e nenhuma rubrica desenvolvida específica para mensurar competências às relações de convivência democrática. Essa limitação impede a geração de evidências sobre a eficácia das abordagens na formação de sujeitos capazes de diálogo respeitoso e colaboração.

    Diversidade não consensual: identificaram-se três abordagens principais: Literatura como metodologia (1 estudo), Geografia como apoio à análise literária (5 estudos), e abordagem interdisciplinar dialógica (6 estudos). Esta última mostrou maior potencial para promover a convivência democrática, mas carece de validação empírica no contexto da EPT.

    Esta revisão sistemática evidenciou lacunas críticas na integração empírica de literatura, cartografia e dados socioespaciais no ensino de Geografia, com implicações diretas para a promoção da convivência democrática na EPT. A fragmentação das abordagens, a escassez de evidências sobre impactos na formação cidadã e a ausência de pesquisas específicas na EPT limitações que impedem o aproveitamento do potencial interdisciplinar para desenvolver competências essenciais à convivência democrática.

    A análise convergiu na identificação de oportunidade única: a necessidade de desenvolver, implementar e avaliar sequências didáticas que integram as três linguagens, utilizando instrumentos robustos para mensurar contribuições não apenas para a aprendizagem conceitual, mas especificamente para o desenvolvimento de capacidades de diálogo, argumentação fundamentada e colaboração no ambiente escolar.

    Como contribuições, este estudo oferece: (1) panorama crítico do estado da arte em metodologias integradas no ensino de Geografia; (2) fundamentação para a necessidade de pesquisas empíricas na EPT focadas na convivência democrática; (3) diretrizes metodológicas para futuras investigações que articulem rigor científico e relevância social.

    A transição das proposições teóricas para implementações validadas constitui-se como prioridade de pesquisa, considerando especialmente o potencial da EPT para formar agentes de transformação capazes de promover a convivência democrática em seus territórios urbanos. Só através dessa transição, o potencial teorizado das metodologias integradas poderá materializar-se em práticas pedagógicas que efetivamente contribuam para a construção de uma sociedade mais justa e democrática.

     

     

  • Palavras-chave
  • Ensino de Geografia; Interdisciplinaridade; Produção do espaço; EPT; linguagens.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
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