AUTOAVALIAÇÃO INSTITUCIONAL E CULTURA ORGANIZACIONAL-ESCOLAR: PERCEPÇÕES DA COMUNIDADE ACADÊMICA DO IFC CAMPUS BLUMENAU (2020-2026)
Grupo de Trabalho (GT): Educação Profissional e Tecnológica
Modalidade do trabalho: Comunicação oral
Formato de apresentação: Presencial
PALAVRAS-CHAVE: Autoavaliação institucional; Cultura organizacional-escolar; CPA; Educação profissional e tecnológica.
1 INTRODUÇÃO
Este estudo apresenta considerações iniciais de uma pesquisa em desenvolvimento que investiga as relações entre processos de autoavaliação institucional conduzidos pela Comissão Própria de Avaliação (CPA) e a construção da cultura organizacional-escolar no Instituto Federal Catarinense (IFC) Campus Blumenau, no período de 2020 a 2026. O problema de pesquisa emerge da lacuna identificada entre a condução regular de processos avaliativos pela CPA e a compreensão sobre como estes impactam efetivamente a cultura institucional, limitando seu potencial formativo e participativo.
No contexto da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), os Institutos Federais apresentam características organizacionais híbridas, articulando elementos de autarquias federais e cultura escolar, conforme estabelecido pela Lei nº 11.892/2008. Embora a autoavaliação institucional, prevista no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), constitua importante instrumento de gestão educacional, sua articulação com a construção cultural institucional permanece insuficientemente explorada no âmbito da EPT.
O objetivo geral da pesquisa é compreender as relações entre os processos de autoavaliação institucional conduzidos pela CPA e os elementos constitutivos da cultura organizacional-escolar. A hipótese central que orienta esta investigação sustenta que os processos de autoavaliação institucional conduzidos pelas CPAs dos Institutos Federais articulam-se de forma complexa com a construção das culturas organizacionais-escolares dessas instituições. Estes processos podem tanto contribuir para o fortalecimento dessas culturas quanto encontrar limitações decorrentes de aspectos culturais consolidados.
A investigação vincula-se à Linha de Pesquisa Organização e Memórias de Espaços Pedagógicos na EPT do Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica (PROFEPT), integrando o Macroprojeto 6, e tem como produto educacional um Manual de Orientações para o Fortalecimento da Cultura Organizacional-Escolar Participativa.
A articulação conceitual entre autoavaliação institucional, cultura organizacional e cultura escolar fundamenta-se na compreensão de que a avaliação não constitui procedimento técnico neutro, mas prática social de interesse público com significados éticos e políticos (Dias Sobrinho, 2012). No contexto dos Institutos Federais, essa articulação assume características específicas decorrentes da natureza híbrida dessas instituições.
O SINAES, instituído pela Lei nº 10.861/2004, estabelece a autoavaliação como processo contínuo de construção de uma cultura avaliativa, objetivando o aprimoramento da qualidade educacional. Peixoto (2009) destaca que as CPAs assumem um papel estratégico na condução de processos participativos, embora enfrentem desafios relacionados ao envolvimento efetivo da comunidade acadêmica e à utilização dos resultados nos processos de gestão.
Os Institutos Federais, criados em 2008, constituem um modelo institucional inovador na EPT brasileira, articulando diferentes níveis e modalidades educacionais em estrutura multicampi (Pacheco, 2011). Essa configuração demanda compreensão específica sobre como se constroem suas culturas institucionais, considerando que integram lógicas administrativas e pedagógicas distintas.
O conceito de cultura organizacional, conforme Schein (2009), compreende pressupostos básicos, valores e artefatos compartilhados pelos membros de uma organização. No contexto educacional, Viñao-Frago (2007) e Julia (2001) ampliam essa compreensão através do conceito de cultura escolar, enfatizando as práticas, valores e tradições específicas das instituições educativas.
A cultura organizacional-escolar nos Institutos Federais articula elementos da administração pública (hierarquia, processos burocráticos, regulamentação) com aspectos da cultura escolar (relações pedagógicas, comunidade acadêmica, processos formativos), configurando um ambiente institucional híbrido que demanda abordagens avaliativas específicas.
Sendo assim, o modelo teórico desenvolvido nesta pesquisa orienta a investigação empírica no sentido de compreender como essas relações se manifestam concretamente no contexto do IFC Campus Blumenau, contribuindo tanto para o avanço do conhecimento científico sobre avaliação institucional na educação profissional e tecnológica quanto para o aprimoramento das práticas avaliativas nos Institutos Federais.
A pesquisa adota abordagem qualitativa, exploratória e de natureza translacional, fundamentada no paradigma construtivista-interpretativo (Denzin; Lincoln, 2006) e na perspectiva hermenêutica (Gadamer, 2002). O desenho metodológico configura-se como estudo de caso instrumental (Stake, 2007) do IFC Campus Blumenau.
A coleta de dados utiliza triangulação metodológica através de: análise documental, observação direta e entrevistas semiestruturadas. O corpus documental compreende relatórios de autoavaliação institucional, atas de reuniões da CPA, instrumentos avaliativos, Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), Projeto Pedagógico Institucional (PPI) e documentos normativos, no período 2020-2026.
A seleção dos participantes das entrevistas seguirá amostragem intencional (GIL, 2008), contemplando representantes dos diferentes segmentos: gestores (n=3), docentes (n=4), técnico-administrativos (n=4) e discentes (n=4), totalizando 15 participantes. Os critérios de seleção incluem: tempo mínimo de vinculação institucional (2 anos), participação em processos avaliativos e disponibilidade para participação.
O roteiro de entrevistas organiza-se em quatro blocos temáticos: 1) caracterização do vínculo institucional; 2) percepções sobre cultura organizacional-escolar; 3) experiências com autoavaliação institucional; 4) interfaces entre avaliação e cultura institucional. As entrevistas serão realizadas presencialmente, gravadas e transcritas na íntegra.
A observação direta contemplará reuniões da CPA, eventos de divulgação de resultados avaliativos, reuniões de colegiados e atividades institucionais, registradas sistematicamente em diário de campo, focalizando manifestações da cultura organizacional-escolar e apropriação dos processos avaliativos.
Para análise dos dados, será utilizada a técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2016), seguindo as etapas: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados obtidos e interpretação. As categorias analíticas serão construídas a posteriori, emergindo dos dados coletados. Os aspectos éticos seguem as diretrizes da Resolução CNS nº 466/2012, com submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa e obtenção de consentimentos informados.
Os resultados preliminares desse estudo evidenciam que a CPA do IFC Campus Blumenau mantém uma estrutura consolidada de processos avaliativos, com aplicação de instrumentos de diagnóstico, elaboração de relatórios e devolutivas à comunidade. A análise documental inicial de relatórios da CPA (2020-2024) demonstra a sistematização dos processos avaliativos, com aplicação regular de instrumentos direcionados aos diferentes segmentos institucionais.
Contudo, observa-se lacuna sobre a apropriação dos resultados pelos diferentes segmentos institucionais e a relação dos processos avaliativos com a construção da cultura organizacional-escolar, o que limita o potencial transformador da autoavaliação. A participação da comunidade acadêmica nos processos avaliativos apresenta variações entre os segmentos, sugerindo influência de aspectos culturais específicos da instituição.
As análises bibliográficas e documentais preliminares indicam que os processos de autoavaliação institucional, quando conduzidos de forma participativa e reflexiva, podem desempenhar papel decisivo na consolidação de práticas de gestão democrática e na construção de uma cultura organizacional-escolar integrada. A literatura examinada destaca que o fortalecimento dos canais de diálogo entre a CPA e a comunidade acadêmica, a criação de espaços coletivos e o estímulo à corresponsabilidade institucional configuram-se como estratégias relevantes para potencializar o impacto da autoavaliação no desenvolvimento institucional.
A próxima etapa contemplará a realização das entrevistas e observações diretas, objetivando aprofundar a compreensão sobre as percepções dos diferentes segmentos acerca das relações entre autoavaliação e cultura institucional. Espera-se identificar estratégias exitosas e obstáculos para o fortalecimento da cultura participativa, subsidiando a elaboração do manual de orientações.
Esta pesquisa encontra-se em fase inicial de desenvolvimento; entretanto, através da análise bibliográfica e documental realizada até o momento, pode-se evidenciar a importância da autoavaliação institucional como um instrumento estratégico de gestão educacional e de construção da cultura organizacional-escolar. Nos Institutos Federais, tais processos ganham significado particular, pois articulam dimensões técnicas, pedagógicas e identitárias de instituições que são, ao mesmo tempo, educacionais e administrativas.
O produto educacional proposto - Manual de Orientações para o Fortalecimento da Cultura Organizacional-Escolar Participativa - busca traduzir os achados da pesquisa em diretrizes práticas para CPAs e gestores, contribuindo para o aprimoramento das práticas avaliativas e fomento de uma cultura de diálogo e corresponsabilidade no contexto da EPT.
Compreender as relações entre autoavaliação institucional e a cultura organizacional-escolar é fundamental para fortalecer a prática avaliativa como processo formativo e participativo, contribuindo tanto para o avanço do conhecimento científico sobre avaliação institucional na educação profissional e tecnológica quanto para o aprimoramento das práticas avaliativas nos Institutos Federais.BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
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