1 INTRODUÇÃO
Esta pesquisa de mestrado em andamento, de abordagem qualitativa, está vinculada ao grupo Linguagens e Letramentos na Educação (PPGE/FURB) e tem como objetivo analisar como docentes do Ensino Médio público de Santa Catarina incorporam práticas de letramento em sala de aula.
O aporte teórico compreende os letramentos como práticas sociais e situadas, conforme Street (2014) e Rojo (2008), e considera o letramento científico como uma ponte entre ciência e sociedade, de acordo com Motta-Roth (2011) e Magalhães (2018). A discussão também contempla os letramentos do professor, valorizando sua formação continuada, com base em Kleiman (2007). O estudo evidencia que a escola constitui um espaço fundamental para o desenvolvimento do letramento científico e da formação crítica, porém, observa-se que as práticas pedagógicas ainda são incipientes e precisam ser fortalecidas.
Rojo (2008) defende o uso de múltiplas linguagens no contexto do letramento escolar, com destaque para os textos de divulgação científica, por se tratarem de práticas sociais contextualizadas, embora ainda pouco exploradas no cotidiano das aulas. A autora ressalta que práticas pedagógicas sensíveis, contextualizadas e teoricamente fundamentadas podem aproximar a ciência da realidade dos estudantes, promovendo pertencimento e pensamento crítico. De forma complementar, Soares (2002) destaca que, ao compreenderem a linguagem como forma de poder, argumentação e diálogo, os alunos ampliam sua consciência linguística e capacidade reflexiva, consolidando o papel da escola como espaço de formação cidadã e crítica.
concepção de letramento não recai sobre estas práticas, sobre o impacto ou as conseqüências da escrita sobre a sociedade, mas “para além de tudo isso, o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e escrita, de quem participa de eventos em que a escrita é parte integrante da interação entre pessoas e do processo de interpretação dessa interação. (Soares, 2002, p. 145)
Ser letrado implica utilizar a linguagem como ferramenta para compreender e interagir criticamente com o mundo. Os letramentos, nesse sentido, conectam o indivíduo à realidade, tornando-se essenciais para que a ciência seja ensinada de forma acessível, significativa e próxima do cotidiano dos alunos.
De acordo com Motta-Roth (2011), o trabalho com letramentos científicos na escola é fundamental para promover o engajamento da população nos debates sobre ciência e tecnologia na sociedade contemporânea. Nessa mesma direção, Magalhães (2018) defende currículos voltados para uma educação crítica e socialmente responsável, que considerem a ciência como prática humana, histórica e ética. Kleiman (2007) complementa essa discussão ao propor que o professor atue como “agente de letramento”, capaz de ouvir, experimentar e conectar o conhecimento aos interesses e vivências dos estudantes. Assim, mais do que transmitir conteúdos, cabe à escola formar sujeitos críticos, participativos e conscientes de seu papel social.
Na chamada sociedade do conhecimento, os jovens têm acesso contínuo a informações, mas enfrentam desafios para analisá-las e interpretá-las criticamente. Diante disso, torna-se urgente revisar as práticas docentes, a fim de que promovam aprendizagens significativas e emancipadoras. Silva et al. (2013) reforçam que novas abordagens teóricas ampliam as discussões sobre linguagem, discurso e subjetividade, contribuindo para uma educação mais reflexiva, contextualizada e comprometida com a formação integral dos estudantes.
Em tempos de desinformação, é necessário que o letramento científico seja transversal às tarefas da formação docente, e não pontuais em atividades de iniciação científica, às quais poucos alunos têm acesso. Além disso, a divulgação é absolutamente necessária na nossa sociedade brasileira (Magalhães, 2023, p. 98)
Nagumo, Teles e Silva (2022) destacam que o letramento científico e a divulgação da ciência constituem ferramentas essenciais no combate à desinformação. Nesse contexto, promover o protagonismo estudantil, aproximar a ciência do cotidiano e incentivar práticas de letramentos múltiplos são estratégias fundamentais para a formação de cidadãos críticos, reflexivos e socialmente conscientes.
3 METODOLOGIA
Este estudo adota uma abordagem qualitativa, com o objetivo de compreender as práticas docentes em seu contexto social e pedagógico. A coleta de dados envolveu a utilização de diário de campo, questionários e a análise de documentos escolares, como planos de aula. A pesquisa foi desenvolvida com quatro professores do Ensino Médio, das disciplinas de Física, Língua Portuguesa, Filosofia e Matemática, pertencentes a uma escola pública do estado de Santa Catarina. Contudo, o foco analítico deste recorte concentra-se nas aulas de Física, buscando interpretar as práticas docentes à luz da complexidade do ambiente escolar e das interações que nele se estabelecem.
[...] basicamente de sua intuição, de sua criatividade e de sua experiência pessoal quando tiver que olhar para o material coletado para tentar aprender os conteúdos, os significados, as mensagens implícitas e explícitas, os valores, os sentimentos e as representações nele contidos. Isso vai acontecer durante o período mais sistemático da análise (já que esta ocorre em todo o desenrolar do estudo). (André, 2001, p. 61).
A interpretação dos dados requer uma leitura sensível e reflexiva por parte do pesquisador, cujo olhar se constrói, se amplia e se transforma ao longo do próprio processo investigativo. Tal movimento implica compreender o fenômeno estudado em sua complexidade, reconhecendo a subjetividade como elemento constitutivo da pesquisa qualitativa.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
As práticas observadas nas aulas de Física evidenciam a concepção de letramentos como prática social situada, conforme Fischer (2007), para quem “o letramento é compreendido como um conjunto de práticas sociais, em que assumem papel central os significados culturais, as relações de poder e as relações de identidades sociais”. Nessa perspectiva, o professor busca aproximar conteúdos abstratos da realidade dos estudantes, recorrendo a exemplos do cotidiano que favorecem a compreensão e o engajamento.
Esse movimento é corroborado por Silva e Nascimento (2024, p. 5), ao afirmarem que “o letramento científico auxilia na formação de uma base sólida de conhecimento, despertando a curiosidade e o interesse dos estudantes pelas ciências”. Ao situar os letramentos em um contexto vivido e familiar, o docente aproxima o conhecimento da experiência dos alunos, promovendo um ambiente de troca, acolhimento e reconhecimento mútuo.
“Quando ligamos o ventilador quente ou quando a fumaça sobe da churrasqueira, estamos vendo a convecção, que é o movimento do ar ou do líquido quente circulando.” “Vocês já perceberam que andar de camiseta preta no sol parece que esquenta muito mais do que uma branca? Isso acontece porque roupas escuras absorvem mais radiação solar, enquanto roupas claras refletem a radiação, diminuindo o aquecimento do corpo. Por isso, os médicos recomendam roupas claras e leves no verão.”“Né, galera?”, “Tranquilo?” Entenderam, pessoas? Alguma dúvida? Certo, pessoal? (Diário de campo do pesquisador, 2025) .
O professor utiliza estratégias interativas e contextualiza os conteúdos de Física ao cotidiano dos estudantes, despertando interesse, engajamento e fortalecendo o sentimento de pertencimento. Ao trabalhar gêneros científicos de forma sensível e contextualizada, promove a construção coletiva do conhecimento, ampliando a compreensão dos alunos sobre ensinar, aprender e fazer ciência.
A divulgação científica, na perspectiva contemporânea, é compreendida como uma prática comunicativa que aproxima a ciência da sociedade, tornando-a mais acessível e significativa. Tal prática contribui para democratizar o conhecimento e fortalecer o apoio social à ciência, ao adaptar sua linguagem aos meios de comunicação, por meio da articulação entre ciência, mídia e educação, conforme apontam Motta-Roth e Scherer (2016). Assim, “a divulgação científica deve ser compreendida como prática comunicativa que aproxima o conhecimento acadêmico da sociedade, tornando-o acessível e compreensível” (Motta-Roth e Scherer,, 2016, p. 18).
Você já inseriu práticas de divulgação científica em seu planejamento de ensino? (x ) Sim ( ) Não ( ) Não sei dizer- Qual? Reportagem
Você utiliza recursos digitais como apoio para abordar temas científicos? ( ) Sempre ( ) Frequentemente (x ) Raramente ( ) Nunca
Já trabalhou com seus alunos a análise crítica de conteúdos digitais ou informações de redes sociais? (x) Sim ( ) Não Como? Trouxe para a sala e analisamos juntos. (questionário professor de física, 2025)
O professor adota uma postura sensível e comprometida, utilizando reformulação de explicações e perguntas argumentativas para estimular o pensamento crítico e a compreensão dos alunos. Atua como agente de letramento, promovendo escuta, reflexão e autoavaliação, reconhecendo que ensinar é construir sentidos com os estudantes e que seu papel é fomentar a criticidade e a autonomia intelectual, apesar dos desafios da prática escolar.
Professores enfrentam como principal desafio a carga horária limitada e a burocracia escolar, que dificultam o aprofundamento dos conteúdos. Na disciplina de Física, por exemplo, o tempo disponível é reduzido por avaliações e recuperações obrigatórias, comprometendo atividades mais reflexivas [...] pouco tempo para planejamento coletivo, falta formação continuada sólida que abordem esses temas. (Questionário, professor de física, 2025)
O professor de Física demonstra compromisso em tornar o ensino acessível e significativo, usando exemplos práticos, questões argumentativas e atividades no formato do ENEM para estimular leitura crítica e raciocínio analítico. Além disso, incentiva o protagonismo estudantil e a pesquisa científica por meio do Projeto para a Feira de Ciências e Matemática, adotando metodologias que contextualizam conteúdos e promovem a participação ativa, alinhadas à concepção de letramentos como práticas sociais.
Aula explosiva dialogada expondo o conteúdo por meio de exemplos para facilitar assimilação e associação com o cotidiano pelos alunos. Também serão realizadas indagações sobre os temas estabelecendo um diálogo com o aluno, permitindo que ele avance (Plano de aula, 2025, professor de física)
Ao conectar o cotidiano aos conteúdos científicos, o professor torna o aprendizado significativo e crítico, reforçando que o trabalho com a linguagem é coletivo e integra leitura, escrita, interpretação e resolução de problemas reais. Vincular a ciência à realidade dos alunos é essencial para formar leitores engajados e reflexivos, capazes de intervir criticamente no mundo (Street, 2014).
‘letramento científico', penso que deveria ser a ‘essência’ da formação científica da Educação Básica, pois os Conceitos Científicos é que são ‘empregáveis’ no cotidiano, podendo auxiliar na tomada de decisões, compreensão de notícias científicas veiculadas em mídias não específicas sobre o assunto e compreensão do mundo que nos rodeia. (Questionário, professor de física, 2025)
O professor defende o letramento científico como eixo central da Educação Básica, visando à formação de cidadãos críticos e socialmente conscientes, embora o uso de textos midiáticos ainda ocorra de maneira pontual nas práticas pedagógicas, assim como aparece nessa resposta: “Uma reportagem que uso é sobre detecção de ondas gravitacionais”. (Questionário, professor de física, 2025)
O letramento científico fortalece a base de conhecimento dos estudantes, despertando curiosidade e interesse pela ciência, enquanto os gêneros textuais atuam como mediadores para apropriação do discurso científico e desenvolvimento da linguagem acadêmica, contribuindo para a formação de leitores críticos (Magalhães, 2023).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa destaca o papel do professor da Educação Básica na mediação entre ciência e sociedade, promovendo o letramento científico como prática social. O docente fortalece o pensamento crítico, a leitura argumentativa e a capacidade de enfrentar a desinformação. Apesar de algumas ações ainda serem pontuais, há avanços na construção de uma cultura científica crítica, reforçando a importância da formação continuada para ampliar e consolidar essas práticas na escola.
REFERÊNCIAS
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MAGALHÃES, Tânia Guedes. Formação docente na perspectiva do letramento científico: práticas com artigos, notícias de divulgação e podcasts. Teacher education in the scientific literacy perspective: practices with paper, popularization and podcasts. Juiz de Fora: Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Juiz de Fora, 2023. Disponível em: <https://doi.org/10.5281/zenodo.802166>. Acesso em: 10 out. 2025.
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SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
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