AS TRAJETÓRIAS DE JOVENS ATLETAS DO ALTO VALE DO ITAJAÍ-SC QUE ATUAM EM CLUBES PROFISSIONAIS DE FUTEBOL: O olhar dos adolescentes sobre seus processos de educação e de formação esportiva.

  • Autor
  • José Carlos Cardoso Ferreira
  • Co-autores
  • Adolfo Ramos Lamar
  • Resumo
  • RESUMO EXPANDIDO

     

    Grupo de Trabalho (GT): 4 - Educação física e esporte

     

    Modalidade do trabalho: Comunicação oral

     

    Formato de apresentação: Presencial

     

    AS TRAJETÓRIAS DE JOVENS ATLETAS DO ALTO VALE DO ITAJAÍ-SC QUE ATUAM EM CLUBES PROFISSIONAIS DE FUTEBOL: O olhar dos adolescentes sobre seus processos de educação e de formação esportiva.

     

    José Carlos Cardoso Ferreira[1]

    Dr. Adolfo Ramos Lamar[2]

     

    PALAVRAS-CHAVE: Escolarização; Formação esportiva; Futebol; Clube formador;

     

    1 INTRODUÇÃO

    O futebol no Brasil é mais do que um esporte, é uma grande paixão, um elemento cultural e identitário que mobiliza o sonho de muitos jovens pela profissionalização e pela fama. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2015/IBGE), futebol é o esporte mais praticado no Brasil, confirmando sua identidade cultural e social na vida dos brasileiros. Esses dados reforçam a importância de compreender como se estrutura a formação destes jovens atletas de futebol nos aspectos esportivos, sociais e educacionais, que muitas vezes veem no esporte não apenas uma prática de lazer, mas também uma possibilidade de ascensão social e realização profissional.

    Para adolescentes do Alto Vale do Itajaí-SC, integrar clubes profissionais de futebol representa não apenas a oportunidade de desenvolvimento esportivo, mas também a possibilidade de modificar suas realidades sociais, com ascensão econômica, melhorando assim as condições socioeconômicas de suas famílias. Mas nessa trajetória esportiva nem sempre é possível conciliar de forma equilibrada a formação esportiva com a formação educacional, revelando um abismo de dificuldades entre escola e futebol.

    No Alto Vale do Itajaí-SC, assim como em outras regiões do país, adolescentes inseridos em clubes de futebol profissional enfrentam o desafio de conciliar os compromissos escolares com uma agenda intensa de treinos, viagens e competições. Atualmente estima-se que existem cerca de 26 atletas juvenis da região inseridos em clubes profissionais de futebol e futsal. Essa dupla jornada é uma realidade que gera ausência em sala de aula e procedimentos pedagógicos que podem não ser suficientes para promover uma educação escolar de qualidade.

    Nesse cenário, a Lei do Clube Formador (Lei nº 12.395/2011, inserida junto à Lei Pelé), é um marco regulatório essencial, ao estabelecer diretrizes para que os clubes garantam não apenas a preparação esportiva, mas também a escolarização, o acompanhamento pedagógico e condições de bem-estar aos atletas em formação. Esses avanços legais buscam equilibrar a preparação esportiva com o direito à educação, assegurando uma formação mais integral e de melhor qualidade aos jovens atletas.

    Ao dar voz a esses jovens, tendo como referência suas experiências e vivencias, estabelecendo paralelos com o marco legal que orienta os clubes formadores, pretende-se compreender de que maneira o sonho da profissionalização se relaciona com os processos educativos e sociais que atravessam a formação desses sujeitos.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

     

    O futebol é a modalidade esportiva com maior número de praticantes no Brasil. De acordo com o levantamento do IBGE (2015, p. 32)

     

    Em 2015, 15,3 milhões de pessoas praticaram futebol como principal modalidade esportiva, número que representou 39,3% dos 38,8 milhões de praticantes de algum esporte no país. Em todas as grandes regiões, o futebol foi o esporte mais citado, com destaque para o Norte (55,9%), seguido do Nordeste (48,8%), Sul (35,1%), Sudeste (33,3%) e Centro-Oeste (32,9%).

     

    Esses dados evidenciam que o futebol constitui uma verdadeira paixão nacional, despertando, desde a infância, o prazer pelo jogo e o fascínio pela busca da profissionalização, da ascensão econômica e do reconhecimento social como ídolo ou herói esportivo. A movimentação crescente do mercado futebolístico estimula a perspectiva de jovens que enxergam no esporte uma possibilidade de futuro promissor (ROCHA et al., p. 02, 2011).

    Conforme observa Couto (2021), muitos meninos e meninas, no Brasil e no mundo, alimentam o sonho de se tornarem jogadores de futebol profissional. Entretanto, o caminho para alcançar esse objetivo é permeado por renúncias e sacrifícios, já que boa parte desses jovens se dedica quase exclusivamente à formação esportiva, muitas vezes em detrimento da formação escolar.

    Soares et al. (2009) apontam que os jovens que aspiram ingressar no futebol geralmente pertencem a grupos com baixo capital cultural e acabam compondo a base de uma verdadeira “linha de produção de jogadores” no país. As limitações de mobilidade social, aliadas à fragilidade da escola pública e à precarização do mercado de trabalho, fazem com que o futebol profissional se torne um projeto familiar para aqueles que apresentam habilidades esportivas.

    Nesse sentido, Couto (2012) compreende o futebol como um fenômeno social capaz de despertar expectativas de realização profissional, financeira e de ascensão social. Contudo, pela força que exerce sobre a juventude, o autor ressalta a importância de analisá-lo em sua relação com a educação.

    Para Couto (2021), a trajetória de um atleta em formação nas categorias de base é marcada por renúncias e desafios que frequentemente envolvem também seus familiares e responsáveis. Nesse contexto, o apoio da família é fundamental para a permanência do jovem no clube e para sua continuidade no processo de formação esportiva (ROCHA et al., p.256, 2011).

    Oliveira (1985) argumenta que a orientação esportiva dominante na sociedade reflete interesses políticos e ideológicos, priorizando a busca por talentos e futuros campeões em detrimento de uma formação educativa ampla. O autor destaca que o movimento natural das crianças é transformado em técnica e quantificação, voltado essencialmente ao desempenho e à conquista de resultados.

    Do ponto de vista legal, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF, 2021) destaca que a Lei nº 12.395/2011, que regulamenta a concessão do Certificado de Clube Formador, exige das instituições esportivas programas de treinamento compatíveis com a faixa etária, atividades escolares e períodos adequados de competição. Essa legislação prevê também assistência educacional, com controle da frequência e do desempenho escolar dos atletas, assegurando horários compatíveis com as atividades esportivas. (BRASIL, 2011).

    Entretanto, conforme apontam Leitão e Ferreira (2016), a legislação brasileira ainda trata de forma limitada a conciliação entre esporte e escola, restringindo-se à garantia de direitos fundamentais, como o acesso à educação básica e à formação esportiva, sem, contudo, estabelecer regulamentações específicas para jovens que vivenciam simultaneamente essas duas trajetórias.

    Na prática, embora os clubes mantenham os atletas matriculados em instituições públicas ou privadas, o acompanhamento escolar apresenta grande variação conforme o contexto. Muitos jovens chegam aos centros de treinamento com histórico de evasão ou defasagem escolar. Além das dificuldades estruturais da educação brasileira como baixos investimentos, fragilidades pedagógicas e currículos pouco significativos, esses atletas enfrentam desafios próprios, como o cansaço físico gerado pela rotina intensa de treinos, a falta de tempo para os estudos devido às viagens, a desmotivação escolar e a priorização do futebol em detrimento da formação acadêmica (SOARES et al., p.06, 2009).

    Por fim, é importante compreender o esporte para além do desenvolvimento das capacidades físicas. Segundo Reppold Filho, Monteiro e Garcia (2021), ele deve ser entendido como um espaço de manifestação da liberdade, da criatividade e da responsabilidade ética dos sujeitos. O corpo, em sua plasticidade, torna-se meio de expressão estética, ética e política, revelando dimensões amplas da experiência humana.

     

    3 METODOLOGIA

     

    Trata-se de uma pesquisa qualitativa na modalidade de estudo de caso, de caráter descritivo, cujo objetivo é compreender como jovens atletas de futebol conciliam o processo de escolarização com a formação esportiva. Assim, busca-se analisar o entendimento que esses sujeitos têm em relação à própria formação educacional.

    A pesquisa abrange nove participantes, com idades entre 14 e 17 anos, oriundos do Alto Vale do Itajaí (SC). Todos são ex-alunos da escolinha de futebol do autor deste estudo e foram selecionados conforme o critério de inserção nas categorias de base de clubes da região Sul do Brasil, sendo eles: Sport Club Internacional (RS), Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (RS), Clube Athlético Paranaense (PR), Jaraguá Futsal (SC), Joinville Esporte Clube (SC), Barra Futebol Clube (SC) e Santa Catarina Clube (SC). Não se trata, portanto, de uma amostragem estatística, mas da totalidade dos jovens que atendem aos critérios definidos para participação no estudo.

    As entrevistas semiestruturadas constituem o principal instrumento de geração de dados junto aos participantes, sendo organizadas em blocos temáticos que abordam: trajetória escolar; trajetória esportiva; desafios na conciliação entre esporte e escola; e aspectos da vida social e familiar. As entrevistas serão realizadas presencialmente, durante o período de recesso de fim de ano, nos meses de dezembro de 2025 e janeiro de 2026, quando os atletas retornam às suas famílias no Alto Vale do Itajaí. Caso o cronograma dos clubes impeça o deslocamento de algum dos participantes no período do recesso, as entrevistas ocorrerão de forma virtual, por meio do aplicativo Microsoft Teams.

    A pesquisa estrutura-se em três etapas principais: (1) base bibliográfica, que fundamenta teoricamente o estudo; (2) análise da legislação esportiva, com destaque para a Lei nº 12.395/2011, que regula os critérios para o Certificado de Clube Formador; e (3) pesquisa de campo, composta pelas entrevistas com os atletas. Os dados obtidos serão submetidos à análise de discurso, buscando identificar sentidos, representações e contradições presentes nas narrativas dos participantes.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

     

  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
  • GT 3 - Mudanças Climáticas: educação ambiental, saúde e produção de alimentos
  • GT 4 - Educação Física e Esporte
  • GT 5 - Divulgação científica/Ensino de Ciência
  • GT 6 - Arte e Educação
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
  • GT 8 - Novas Tecnologias na Educação
  • GT 9 - Questões Étnico-Raciais na Educação
  • GT 10 - Agricultura, Sociedade e Educação
  • GT 11 - Educação Superior
  • GT 12 - Educação Comparada
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
  • GT 14 - Educação Inclusiva
  • GT 15 - Plurilinguismo na Educação
  • GT 16 - Linguagens e letramentos na Educação