ENSINO DE LÍNGUA INGLESA COM LITERATURA E MÍDIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

  • Autor
  • Maeles Carla Geisler
  • Co-autores
  • Sandro Lauri da Silva Galarça
  • Resumo
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    RESUMO EXPANDIDO

     

    Grupo de Trabalho (GT 8): Novas Tecnologias na Educação

     

    Modalidade do trabalho: comunicação oral

     

    Formato de apresentação: presencial

     

    ENSINO DE LÍNGUA INGLESA COM LITERATURA E MÍDIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

     

    Maeles Carla Geisler[1]

    Sandro Lauri da Silva Galarça[2]

     

     

    PALAVRAS-CHAVE: Educação. Educomunicação. Ensino de língua inglesa

     

     

    1 INTRODUÇÃO

     

    Com a inserção da língua inglesa no currículo obrigatório da educação básica o documento oficial da BNCC (Base Comum Curricular) de 2017 formulou as diretrizes

    e as concepções de aprendizagem desse componente curricular que mediante as transformações das funções desta língua no cenário mundial de língua franca estabelece o foco na “função social e política do inglês”. Esse caráter respeita as diferentes variantes linguísticas considerando todas elas legítimas, se desvincula da concepção eurocêntrica da língua e apresenta o componente curricular de língua inglesa sendo também responsável na formação cidadã crítica dos discentes ligando intrinsecamente as dimensões “políticas e pedagógicas” (Brasil, 2017, p. 241).

    É nesse território de premissa formativa da educação que as aulas de estágio foram planejadas percebendo a relevância da literatura como objeto de estudo e a mídia digital como o audiobook e o vídeo para mediar a compreensão linguística e as práticas de listening e dinamizar as práticas de reading com textos literários. Alguns dos conteúdos da plataforma do YouTube são disponibilizados por consumidores de mídia que igualmente são produtores, que de acordo com Jenkins (2008, p. 203) “iria ocorrer como consequência inevitável da revolução digital: a tecnologia colocaria nas mãos de pessoas comuns [...] ferramentas de baixo custo e fáceis de usar”. Os links utilizados podem ser baixados gratuitamente o que facilita o manuseio por parte do educador.

    Este artigo tem como objetivo relatar a experiência do ensino de língua inglesa com textos literários mediados pela mídia, o audiobook e o vídeo disponíveis na plataforma do YouTube e que foram disponibilizados por consumidores que igualmente são produtores de mídia (Jenkins, 2009).

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

     

    Nesta pesquisa é feito um diálogo entre as práticas de intervenção e os pressupostos de teóricos de Maria Luiza Belloni (2009), Henry Jenkins (2022), Antonio Candido (2012) e Paulo Freire (2009) entre outros investigadores no campo da educação, mídia e do ensino da língua inglesa como segunda língua.

     

    3 METODOLOGIA

     

    A metodologia deste estudo se baseia num relato de experiência que entrelaça a prática com a teoria de estudiosos da educação, da mídia e do ensino com literatura.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

     

    No primeiro momento são apresentadas as escolas com as respectivas sequências didáticas aplicadas. A seguir, entrelaçamos as abordagens teóricas e as aprendizagens dos estudantes no intuito de relacionar a relevância da mídia na aprendizagem da língua inglesa com literatura e de que forma a inserção de conteúdos disponíveis nas plataformas digitais potencializam e dinamizam as aulas. Na última parte são pontoadas as considerações finais da experiência.

     

    4.1 AS INTERVENÇÕES NAS ESCOLAS

     

    Os cursos de graduação com licenciaturas integram em seus currículos o período de estágio supervisionado o qual compreendem aulas de observação e de intervenção. Esta experiência ocorreu no decorrer do ano de 2022 como parte do curso de graduação de Letras – Inglês.

    No ensino fundamental anos finais, ocorreu a primeira aplicação de aulas compreendendo o oitavo e nono ano na Escola de Educação Básica Dr. Max Tavares, uma escola estadual da cidade de Blumenau. Para ambas as turmas foram elaboradas sequências didáticas de 6 aulas com o conto infantil Winnie the Witch de Valerie Thomas (autor) Korky Paul (ilustrador) diferenciando-se nas atividades propostas com a história. No oitavo ano a sequência didática compreendeu o vídeo da história, o texto da história impresso, interpretação do texto e atividades com preposições de lugar com os personagens da história Winnie e Wilbur.

    Enfrentar as adversidades na sala de aula é importante para ser maleável. Há muitas diferenças de uma turma para outra e o mesmo planejamento exige, por vezes, adaptações. Percebe-se que é na experiência que se desenvolve mais conhecimento, e é nesse processo que surgem questões para possíveis pesquisas e estudos posteriores. Ensinar inglês através da literatura é um caminho possível considerando a riqueza que as histórias nos trazem que vão além da linguística como a imaginação, a emoção e um universo que por vezes está mais ligado aos sentidos do que a razão.

    No sétimo semestre, o terceiro estágio foi realizado em Pomerode na escola EEB Presidente Prudente de Morais e as turmas selecionadas foram do segundo e do terceiro ano do ensino médio. Novamente o texto literário entra em cena em sala de aula com o conto Cat in the Rain de Ernest Hemingway. Foram 12 aulas de inglês ministradas com textos literários como suporte principal e vídeos sobre os contos como ferramenta auxiliar. Elaborou-se uma sequência didática de 6 aulas para as duas turmas com uma breve introdução aos gêneros literários, uma biografia de Ernest Hemingway, uma definição do gênero conto, o texto da história e as atividades de interpretação e de finalização da sequência.

    Percebeu-se a necessidade de aumentar o número de aulas para a aplicação dessa sequência didática, pois os estudantes protagonizaram a cena ao compreenderem a tensão entre os personagens. Entretanto, não havia tempo para alongar as questões apontadas. Segue a sugestão para ampliar o número de aulas.

     

    4.2 MÍDIA NO ENSINO DE LÍNGUA INGLESA COM LITERATURA

     

    O texto literário oportuniza a reflexão sobre a identidade do leitor pois “não é um fim em si mesmo, mas uma zona de contato que ajuda a desconstruir as visões” sendo que o contato com outra realidade “leva à autorreflexão sobre a própria comunidade” (Festino, 2014, p. 326). A formação do senso crítico tem diversos pontos favoráveis que são associados ao letramento literário. Observar outras culturas por meio de seus textos “possibilita às pessoas refletirem sobre suas atitudes, até mesmo da necessidade de entender o próximo, fazer questionamentos e conhecer o meio que os circunda” (Matos; Vasconcelos, 2018, p. 3).

    Aos professores de língua inglesa incumbe-se a tarefa de serem leitores de textos literários para levar às salas de aula planejamentos com esses textos e a partir dessas práticas colaborar com a formação de cidadãos críticos, mais sensíveis ao mundo que os cerca e ao que vive no interior de suas vidas com suas frustrações e desejos.

    O ensino de inglês por meio da literatura não apenas ensina a língua, mas também desenvolve diversas competências e habilidades descritas na BNCC. Além disso, desenvolve a sensibilidade dos alunos em relação à história. Ler e discutir literatura “possibilita o diálogo e a troca de experiências entre os envolvidos” (Araújo; Dias; Lopes, 2017, p. 8). De acordo com Vargas Llosa (2010, p. 62), “o elo fraternal que a literatura estabelece entre os seres humanos transcende todas as barreiras temporais” e esse elo faz referência e se remete ao termo que Candido chama de “fabulação” por cada indivíduo estar constituído por essa propriedade psíquica e todos têm “momentos de entrega ao universo fabulado” que se manifesta tanto no analfabeto quanto no erudito” compreendendo “desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura de um romance” (Candido, 2012, p. 7).

    Talvez para alguns professores haja resistência ao se falar em textos literários em sala de aula de língua inglesa por associar à tradução de textos. Durante um período da história no ensino de línguas estrangeiras como segunda língua a literatura era objeto de estudo no método de tradução, sendo um dos primeiros métodos existentes no ensino de línguas, o que muitas vezes desestimulava os estudantes, entretanto ela está ressurgindo nesse cenário de ensino com outra asserção.

    Na atualidade, as tecnologias digitais têm gerado mudanças significativas nos âmbitos social, cultural, político e econômico da sociedade (Vieira, 2021), reconfigurando as relações do homem com sua existência nas esferas intelectuais, profissionais e físicas. Essas esferas se percebem, se conectam e interagem no ciberespaço “configurando uma nova paisagem informacional e comunicacional” (Belloni, 2009, p. 6)

    A educação igualmente acompanha esse processo, “mas as novas tecnologias não promoveram esse avanço democratizando o acesso, universalizando as riquezas produzidas” (Machado, 2010, p. 33), embora políticas públicas educacionais implantadas tentam suprir as desigualdades no que se refere ao acesso modificando os ambientes da educação tradicional, “potencializando para a educação os não convencionais, além de criar novos ambientes de aprendizagem, como os do espaço cibernético (redes sociais, plataformas formativas, blogues, fóruns, entre outros)” (Vieira, 2021, p. 26).

    Os professores têm a responsabilidade de promover essa educação da mídia desenvolvendo nos estudantes a reflexão daquilo que consomem como entretenimento, informação e conhecimento. É “a questão do compromisso do profissional com a sociedade” (Freire, 2018, p. 17).

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

    Os vídeos e o audiobook potencializaram as aulas criando um ambiente dinâmico, atrativo e interessante, gerando dessa forma um cenário propício para aprendizagens. Para além das aprendizagens linguísticas foram desenvolvidos aspectos culturais e sociais que vão de encontro com a proposta da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) de formação integral do estudante como cidadão crítico e participativo.

    Trabalhar literatura com os estudantes é possibilitar de alguma forma o “trazer o aluno até a intimidade do movimento de seu pensamento” (Freire, 1996, p. 44), pois ela “humaniza” (Candido, 2012) trazendo conexões entre diversas culturas. E utilizar a mídia como apoio dos textos literários é alcançar o universo que esse estudante está inserido principalmente nas plataformas digitais a exemplo do YouTube que disponibilizam os conteúdos gratuitamente. É como “estabelecer uma ponte entre o cotidiano desses jovens conectados e as tecnologias que fazem parte do seu dia a dia” (Bittencourt; Viana Jr., 2021).

    As atitudes dos estudantes ao assistirem os vídeos foram notadamente modificados, da expressão de monotonia para entusiasmo e interatividade. Ao fazer uso de tecnologias digitais para abordar algo secular que é a literatura de alguma forma se insere nas práticas modernas o antigo de modo autêntico ressignificando essa prática. Essa amálgama faz sentido para essa geração conectada, que muitas vezes em sala de aula não conseguem se desconectar do ambiente online.

     

    REFERÊNCIAS

     

    ARAÚJO, Alyne Ferreira de; DIAS, Daise Lilian Fonseca; LOPES, Francisco Edson de Freitas. O uso de literatura no contexto de sala de aula de língua inglesa. SINALGE: IV Simpósio Nacional de Linguagens e Gêneros Textuais. Abr. 2017. Disponível em: https://www.editorarealize.com.br/artigo/visualizar/27557. Acesso em: 01 Jan. 2023.

     

    BELLONI, Maria Luiza. O que é mídia-educação. 3ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2009.

     

    BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 23 Mar. 2024.

     

    BITENCOURT, Alexandre Passos; VIANA JR, Orlando. Mídia-educação no currículo do ensino fundamental e interfaces com as tecnologias e os multiletramentos. Odisseia, Natal, RN, v. 6, n. 2., p. 17-34, jul. dez. 2021. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/odisseia/article/view/21988. Acesso em 27 abr. 2024.

     

    CANDIDO, Antonio. O direito à Literatura. Aldo de Lima (org). Recife: ed. Universitária da UFPE, 2012. Disponível em: https://editora.ufpe.br/books/catalog/download/372/382/1125?inline=1. Acesso em: 01 Jan. 2023.

     

    CIEE: Council on International Educational Exchange. Cat in the rain. YouTube, 8 Jun. 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mduNAgwmhYU&t=405s. Acesso em: 14 abr. 2024.

     

    ESTALLES, Romina. Winnie the Witch. YouTube, 2 abr. 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PXVpFmsF_Ks. Acesso em: 14 abr. 2024.

     

    FESTINO, Cielo Griselda. A estética da diferença e o ensino das literaturas de língua inglesa. Gragoatá, Niterói, n. 37, p. 312-330, 2. Sem. 2014. Disponível em: https://periodicos.uff.br/gragoata/article/view/33000. Acesso em: 01 Jan. 2023.

     

    FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Trad. Lilian Lopes Martin. 39 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2018.

     

    FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

     

    HEYITSJOSH. Full audiobook: Cat in the rain – Ernest Hemingway. YouTube, 6 Jan. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=q_hL31BQEY4&t=11s. Acesso em: 14 abr. 2024.

     

    JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. Trad. Susana Alexandria. 2 ed. São Paulo: Aleph, 2022.

     

    MACHADO, Arlindo. Arte e Mídia. 3.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.

     

    MAKBULE. Cat in the rain – Ernest Hemingway. YouTube, 27 abr. 2021. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=MDYVWYdaHgQ&t=60s. Acesso em: 14 abr. 2024.

     

    MATOS, Ivânia Maria Costa; VASCONCELOS, Ana Emília Pereira. A literatura na sala de aula no ensino fundamental. Tropos: comunicação, sociedade e cultura. v. 7, n. 1, 2018. Disponível em: https://periodicos.ufac.br/index.php/tropos/article/view/1810. Acesso em: 01 Jan. 2023.

     

    VARGAS LLOSA, M. A importância da literatura. Substantivo Plural. Outubro, 2010.

    VIEIRA, Márcia de Freitas. Pedagogia de Paulo Freire e Tecnologias Digitais na Educação: uma construção possível. Tecnologias, Sociedade e Conhecimento, Campinas, SP, v. 8, n. 2, p. 25–47, 2021. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/tsc/article/view/15932.  Acesso em: 24 mar. 2024.

     

     


    [1]Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade de Blumenau (PPGE/FURB). Blumenau-SC, Brasil. E-mail: mcgeisler@furb.br.

    [2]Doutor em Teoria Literária (UFSC). Professor no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/FURB). Blumenau-SC, Brasil. E-mail: sgalarca@furb.br.

     

  • Palavras-chave
  • Educação. Educomunicação. Ensino de língua inglesa
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 8 - Novas Tecnologias na Educação
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