A escola é um espaço central na construção de sentidos, saberes e identidades, marcado pela diversidade cultural dos sujeitos que a compõem. No contexto da Educação Física, componente curricular obrigatório da Educação Básica, abordam-se práticas corporais em suas dimensões históricas e sociais. No entanto, essa área ainda carrega resquícios de práticas homogêneas, de cunho higienista, militarista e esportivista, que desconsideravam saberes de grupos populares. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe uma abordagem das práticas corporais como manifestações culturais diversas, dinâmicas e contraditórias. Contudo, diretrizes oficiais não garantem, por si só, práticas pedagógicas que valorizem a pluralidade, sendo essencial compreender como os(as) professores(as) vivenciam e interpretam a diversidade cultural em suas realidades. Este trabalho é um recorte de uma pesquisa desenvolvida no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UFS), com apoio da COPES/UFS. O estudo busca refletir sobre o ensino da Educação Física frente às diferenças culturais no cotidiano escolar, com base em pressupostos interculturais que colocam a alteridade no centro do diálogo entre culturas. Justifica-se pela urgência de superar práticas excludentes e reafirmar a valorização da diversidade como pilar de uma educação democrática e emancipadora.
No senso comum, o termo cultura é frequentemente associado a manifestações artísticas ou a um conjunto de hábitos de determinados povos, como vestimentas, culinária ou danças típicas. Contudo, tal visão tende a ser limitada, ao reduzir a cultura a elementos estáticos e superficiais. Em contraponto a essa compreensão, a cultura — tanto no campo da educação quanto no das ciências sociais — é entendida como um elemento estruturante das vivências concretas dos sujeitos. Como aponta Gomes (2003, p. 75),
A cultura, seja na educação ou nas ciências sociais, é mais do que um conceito acadêmico. Ela diz respeito às vivências concretas dos sujeitos, à variabilidade de formas de conceber o mundo, às particularidades e semelhanças construídas pelos seres humanos ao longo do processo histórico e social.
A partir disso, fica evidente que o termo cultura não pode ser compreendido como algo estático, mas sim dinâmico, tendo em vista sua correlação direta com o processo histórico da humanidade. As culturas são constantemente reconstruídas em resposta às necessidades, tensões e transformações que surgem ao longo do tempo. Como aponta Gomes (2003, p. 75) “por meio da cultura, estipulam-se regras, convencionam valores e significações que possibilitam a comunicação dos indivíduos e dos grupos. Por meio da cultura eles podem se adaptar ao meio, mas também o adaptam a si mesmos e, mais do que isso, podem transformá-lo”.
Compreender a cultura como um fenômeno dinâmico e historicamente situado, como discutido anteriormente, é fundamental para refletir sobre os desafios e avanços da educação contemporânea. A partir disto, nos últimos anos, estudos e trabalhos desenvolvidos sob o eixo temático da diversidade têm se tornado cada vez mais recorrentes nos campos educacionais brasileiros. Esse crescimento pode estar atrelado às lutas históricas e contemporâneas dos movimentos sociais, que têm tensionado a escola enquanto espaço de reconhecimento e representação. Tais mobilizações têm provocado a ampliação dos debates em torno das diferenças culturais, étnico-raciais, de gênero e outros temas emergentes, exigindo da escola uma postura crítica frente às múltiplas formas de ser e estar presente no mundo.
Nesse cenário de ampliação dos debates sobre diversidade e reconhecimento das múltiplas expressões culturais no ambiente escolar, é importante considerar o impacto das políticas públicas na consolidação desse processo. Assim,
Com o avanço de políticas públicas e programas governamentais que garantem a educação como um direito fundamental de todos, a diversidade cultural, antes à margem do sistema educacional, ganha maior visibilidade tornando-se parte integrante do contexto escolar, protagonizando um enorme cruzamento de diferenças. Azevedo; André (2020, p. 34).
Nesse sentido, a valorização da diversidade cultural no contexto escolar, impulsionada por políticas públicas, evidencia a importância de compreender como os sujeitos interpretam o mundo e atribuem sentidos às suas realidades. Essa interpretação está ancorada na lógica simbólica da cultura, muitas vezes reproduzida de forma inconsciente no cotidiano social.
A pesquisa enquadra-se em uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório-descritivo. O instrumento de coleta utilizado foi o questionário misto (com perguntas abertas e fechadas), elaborado e aplicado pelo Google Forms, enviado através do WhatsApp diretamente aos sujeitos participantes da pesquisa, possibilitando captar nuances mais profundas do objeto investigado. Os participantes foram professores (as) de Educação Física da rede pública estadual, efetivos(as) e contratados (as), atuantes em escolas localizadas no município de Nossa Senhora do Socorro/SE. A escolha do município justifica-se tanto pela proximidade com a residência do pesquisador quanto por sua elevada densidade populacional, o que confere relevância ao recorte Ainda assim, foi utilizado como critério de seleção as escolas que possuem o selo “Escola Antirracista Professora Maria Beatriz Nascimento” — iniciativa da SEDUC/SE que reconhece e valoriza práticas pedagógicas e projetos comprometidos com a luta antirracista. Assim, 12 instituições educativas compuseram o universo da pesquisa.
Ademais, o formulário foi estruturado a partir dos seguintes blocos temáticos: (1) Perguntas voltadas ao perfil do(a) entrevistado(a). (2) Perguntas voltadas à formação inicial e continuada dos(as) participantes. (3) Perguntas voltadas às percepções da diversidade cultural nas aulas de Educação Física escolar.
A análise do bloco temático voltado ao perfil profissional dos(as) docentes revelou uma predominância feminina na docência de Educação Física, diversidade de formações acadêmicas e tempo médio de atuação superior a 10 anos, indicando uma reconfiguração identitária da área. No que se refere à formação docente e as práticas institucionais, observou-se que a diversidade cultural ainda é pouco contemplada na formação inicial e continuada, embora exista forte demanda por capacitações que dialoguem com a realidade escolar, bem como necessidades de maior integração do tema nos Projetos Políticos Pedagógicos das instituições de ensino. Já em relação às percepções nas aulas de Educação Física, os(as) professores(as) identificam diferenças expressas em costumes, desigualdades sociais, gênero, religião e inclusão, embora parte ainda minimize sua influência, entre os principais desafios emergem questões étnico-raciais, inclusão de estudantes portadores de deficiência e entre outras. Dessa forma, é notória a importância da formação continuada, do apoio institucional e do uso de estratégias pedagógicas inclusivas que ofereçam suporte aos(as) professores(as) em suas práticas pedagógicas.
A presente pesquisa possibilitou um olhar crítico sobre a forma como a diversidade cultural se manifesta e é tratada nas aulas de Educação Física das escolas públicas do município de Nossa Senhora do Socorro, especialmente nas instituições que carregam o selo Escola Antirracista Professora Maria Beatriz Nascimento. Ao longo do estudo, ficou evidente que, embora os(as) professores(as)
Os relatos coletados reforçam que a temática da diversidade, muitas vezes, aparece de forma indireta, mediada por questões como gênero, desigualdade social e diferenças de vivências culturais, mas sem ser tratada como eixo estruturante do trabalho pedagógico. Esse cenário indica um desafio significativo, como a necessidade de fortalecer políticas formativas que promovam não apenas a sensibilização, mas também o desenvolvimento de práticas que se alinham às demandas particulares de cada contexto escolar.
Outrossim, esta pesquisa evidencia que a temática da diversidade cultural não deve ser compreendida apenas como um desafio, mas como um potente elemento pedagógico, capaz de ampliar a formação de ser e estar no mundo dos estudantes. Para tanto, exige-se dos(as) docentes uma postura crítica, reflexiva e comprometida com a construção de uma Educação Física que valorize a cultura corporal como espaço de inclusão, respeito e diversidade.
Assim, esta investigação, ainda que situada no âmbito de uma pesquisa de iniciação científica, contribui para ampliar a compreensão sobre a urgência de incorporar a diversidade como parte constituinte da prática pedagógica e aponta a necessidade de estudos futuros que aprofundem como a formação docente e as políticas educacionais podem sustentar práticas democráticas e sensíveis às realidades plurais que compõem a instituição escolar.
REFERÊNCIAS
Azevedo, Samara Moço; André, Bianka Pires. Pedagogia e diversidade cultural: diretrizes para uma nova formação. Laplage em Revista (Sorocaba), v. 6, n. 1, p.34-46, jan./abr. 2020. Disponível em: https://doi.org/10.24115/S2446-6220202061718p.34-46. Acesso em: 2 ago. 2025.
Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em:http://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 2 ago. 2025.
Gomes, Nilma Lino. Cultura negra e educação. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 23, p. 7590, maio/ago. 2003.
Guerra, Elaine Linhares de Assis. Manual de pesquisa qualitativa. Belo Horizonte: Grupo Ânima Educação, 2014.
Minayo, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.