Grupo de Trabalho (GT): Divulgação Científica/Ensino de Ciências
Modalidade do trabalho: comunicação oral
Formato de apresentação: presencial
ENTRE NARRATIVAS E TERRITÓRIOS: DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA COMPROMETIDA COM O CUIDDO NO PROJETO “CADÊ MINHAS PINTAS?
Aline Coêlho dos Santos[1]
Daniela Tomio[2]
PALAVRAS-CHAVE: Práxis educativa; Divulgação científica; Cultura científica; Ética do cuidado; Educação básica
Compreendemos a divulgação científica (DC) como uma práxis educativa voltada ao desenvolvimento de uma cultura científica comprometida com o cuidado. Nessa perspectiva, o território assume papel formativo e dialógico, no qual ciência, sociedade e cuidado se entrelaçam na construção de sentidos coletivos sobre problemas que atravessam a vida cotidiana.
Ao fundamentarmos essa proposta na ética do cuidado, compreendemos que educar para o cuidado significa formar sujeitos capazes de valorizar a vida em comum, exercitar a corresponsabilidade e reconhecer os vínculos que sustentam os territórios. Como destaca Toro (2017), cuidar de si, do outro e do ambiente implica aprendizagens éticas que envolvem autoestima, autorregulação e autoconhecimento, dimensões que atravessam processos formativos e dialogam com práticas de divulgação científica.
Foi a partir dessa compreensão da DC que desenvolvemos o projeto “Cadê Minhas Pintas?” na rede municipal de ensino de Maracajá, no sul de Santa Catarina. A proposta consistiu na elaboração e divulgação de um livro informativo[3] voltado à discussão de questões socioambientais, com linguagem acessível e foco no diálogo com a comunidade. A narrativa teve como inspiração o Leopardus wiedii, espécie conhecida como gato-maracajá, símbolo cultural e ambiental do município. Na história, o felino acorda sem suas pintas, percorre a cidade em busca de respostas e descobre que o desaparecimento está ligado ao adoecimento do Meio Ambiente.
O projeto resultou na produção de um livro escrito e ilustrado pelos estudantes do 8º ano do ensino fundamental, nas aulas de Ciências e Arte, impresso com apoio do Departamento Municipal de Educação e Cultura e distribuído em todas as escolas do município. Também foram realizadas ações itinerantes com contação de histórias e atividades lúdicas, propondo momentos de diálogo entre escola e comunidade, promovendo a divulgação científica como prática educativa comprometida com o território.
Este estudo, apresentado como um relato de experiência, tem como objetivo refletir sobre essa prática educativa a partir da perspectiva da divulgação científica como práxis voltada à construção de uma cultura científica comprometida com o cuidado. Propomos pensar: como ações territoriais e narrativas locais podem favorecer processos de formação crítica, mobilização social e corresponsabilidade ambiental?
Conforme já enunciado, compreendemos a divulgação científica como práxis educativa voltada ao desenvolvimento de uma cultura científica comprometida com o cuidado. Essa concepção envolve ampliar repertórios, possibilitar posicionamentos críticos e estimular a participação social, articulando ciência, território e comunidade no âmbito de uma ética do cuidado[4].
Ao assumir esse caráter práxico, compreendemos que a divulgação científica não se limita a comunicar informações científicas, mas se constitui como prática cultural e política que mobiliza sujeitos, saberes e contextos. Nessa perspectiva, a cultura científica emerge como construção coletiva, articulada à ação-reflexão e à participação ativa de diferentes atores sociais, permitindo que teoria e prática se entrelacem em processos de transformação social e ambiental (Lima; Giordan, 2021).
Nesse viés, reconhecemos que práticas de divulgação científica exigem uma relação dialógica que vá além da simplificação do conhecimento. É necessário criar espaços de escuta e problematização, nos quais a construção coletiva de sentidos se torna motor de mudanças sociais e ambientais, em consonância com perspectivas que compreendem a comunicação da ciência como processo interativo e participativo, conforme propõe o modelo dialógico (Lewenstein, 2003). O diálogo, entendido não apenas como metodologia pedagógica, mas como princípio epistemológico, constitui o alicerce desses processos transformadores, pois é nele que os saberes se encontram, se tensionam e se recriam (Freire, 2019).
A divulgação científica concebida nesse modelo dialógico não se restringe à transmissão de informações. Ela se realiza como prática cultural e política, contribuindo para formar sujeitos críticos, fortalecer vínculos comunitários e criar compromissos compartilhados em torno da vida coletiva. A circulação da ciência em diferentes contextos, inclusive por meio de ações itinerantes, surge como desdobramento natural de um processo que nasce no diálogo e se expande pela participação ativa de múltiplos atores sociais.
Por fim, situamos o cuidado como fundamento ético dessa prática educativa. Ele orienta ações formativas comprometidas com a corresponsabilidade e com a preservação dos vínculos que sustentam os territórios. Ao compreendermos a divulgação científica como práxis, reafirmamos seu caráter dialógico, participativo e comprometido com a transformação coletiva da vida em comum (Toro, 2017).
Este relato de experiência analisa o projeto "Cadê Minhas Pintas?", realizado entre setembro de 2024 e junho de 2025 em Maracajá/SC. A metodologia adotada descreve a intervenção pedagógica que articulou escola, território e cultura científica por meio da produção de um livro e ações itinerantes, seguindo a sistematização de Fortunato (2018) apresentada no Quadro 1 (Mussi; Flores; Almeida, 2021; Pereira Junior; Leme, 2020).
Quadro 1 – Elementos constituintes deste relato de experiência.
Elementos | Descrição |
Antecedentes | A iniciativa surgiu da percepção de que havia pouco reconhecimento, na comunidade escolar, sobre os problemas ambientais locais e globais, bem como sobre possíveis soluções que contribuíssem para sua mitigação ou anulação. A proposta foi criar uma narrativa que mobilizasse estudantes e comunidade para discutir questões socioambientais. |
Local | Rede pública municipal de ensino de Maracajá, sul de Santa Catarina. |
Motivo | Fortalecer a relação entre escola, ciência e território por meio de práticas educativas e de divulgação científica comprometidas com o cuidado e a corresponsabilidade ambiental. |
Agentes | Professoras de Ciências e Arte e estudantes do 8º ano. |
Envolvidos | Professores/as da rede municipal, estudantes da educação infantil e do ensino fundamental, equipe do Departamento de Educação e Cultura de Maracajá, gestores escolares e comunidade local, incluindo famílias, visitantes e parceiros institucionais, totalizando mais de 2.500 pessoas alcançadas ao longo das ações do projeto. |
Epistemologia para ação | Fundamentação em uma epistemologia crítica da educação, compreendendo a escola como espaço de produção e circulação de saberes, em diálogo com a comunidade, orientada pela práxis e pela transformação da realidade (Freire, 2019; 2023). |
Fonte: elaborada pelos autores.
Os próximos elementos do RE (planejamento, execução e análise à luz da base teórica) são apresentados na sequência, articulados às discussões do nosso referencial teórico.
A análise dos resultados evidencia que a experiência com o projeto “Cadê Minhas Pintas?” consolidou-se como um processo formativo ancorado na dialogicidade, na criatividade coletiva e no protagonismo estudantil. Essas dimensões foram mobilizadas ao longo de três etapas, nas quais teoria e prática se articularam de forma contínua, fortalecendo a DC como práxis educativa orientada pelo cuidado. O registro fotográfico (Figura 1) mostra parte desse percurso formativo, revelando a centralidade dos estudantes como mediadores e divulgadores da ciência.
Figura 1 – Fotografias do projeto “Cadê Minhas Pintas?”

Fonte: elaborada pelos autores a partir de acervo próprio.
Essas dimensões, vislumbradas nas imagens, foram materializadas de forma concreta e organizada em três etapas principais, conforme detalhado no Quadro 2.
Quadro 2 – Quadro Resumo do Projeto "Cadê Minhas Pintas?"
Etapa | Descrição e Ações Desenvolvidas | Materiais e Participantes | Resultados | Diálogo com o Referencial Teórico |
1. Construção Coletiva da Narrativa | Debate e escolha de problemas ambientais (mudanças climáticas, desmatamento, poluição); Mapeamento de espaços da cidade e escrita colaborativa do enredo. | Turma do 8º ano (roteiro); Turmas do 6º ao 9º ano (ilustrações); Curadoria das professoras. | Criação de uma narrativa crítica e contextualizada, refletindo a realidade local.; Engajamento dos estudantes no processo criativo. | Freire (2019; 2023): A problematização parte da leitura crítica do território, mobilizando a práxis. A teoria (conceitos ambientais) é construída a partir da experiência vivida, em diálogo com a realidade. |
2. Produção do Livro e Materiais | Diagramação, curadoria de ilustrações e impressão do livro; Confecção de materiais artesanais e lúdicos para divulgação. | Livro impresso (1.000 exemplares); Livro artesanal, painéis, tapete, figurino, canção paródia; Apoio do Departamento de Educação. | Produção de um recurso físico (livro) e de materiais sensoriais que facilitam a mediação e a comunicação. | Marandino (2008): A produção dos materiais evidencia a força da criatividade como instrumento de mediação cultural, tornando a ciência mais acessível ao público diverso. |
3. Ações Itinerantes na Comunidade | Participação em eventos (FEMM, escolas, Parque Ecológico); Contação de histórias, rodas de conversa, uso de jogos pedagógicos (memória, trilha); Ambientação do espaço. | Estudantes atuando como mediadores; Jogos de memória e trilha com temáticas ambientais; Público alcançado: mais de 2.500 pessoas. | Divulgação científica territorializada e orientada pelo cuidado; Ampliação do sentimento de corresponsabilidade ambiental na comunidade; Estudantes articulam conhecimentos científicos e saberes locais. | Freire (2019; 2023) e Toro (2017): A itinerância promove a cultura científica como ato de cuidado e corresponsabilidade. Os estudantes, como mediadores, vivenciam a práxis ao articular saberes, contribuindo para a transformação social. |
Fonte: elaborada pelos autores.
A experiência nos aponta que ações de divulgação científica ancoradas no diálogo e no cuidado não apenas comunicam ciência, mas criam vínculos formativos e comunitários.
Este relato de experiência teve como objetivo refletir sobre uma prática educativa de divulgação científica voltada à construção de uma cultura científica comprometida com o cuidado. A experiência com o projeto “Cadê Minhas Pintas?” mostrou que ações territoriais e narrativas locais podem promover processos formativos, fortalecendo vínculos entre escola, ciência e comunidade. A criação coletiva da história, a produção dos materiais pedagógicos e a itinerância evidenciaram que a divulgação científica, quando situada no território e mediada pelo diálogo, se torna instrumento potente para problematizar a realidade e mobilizar sujeitos.
Ao responder à pergunta de pesquisa, compreendemos que práticas de divulgação científica articuladas ao território favorecem a formação crítica, a mobilização social e a corresponsabilidade ambiental. Essa experiência reafirma a escola como espaço de produção de saberes e ação transformadora, em consonância com a práxis freireana. Ao aproximar ciência e comunidade por meio da linguagem acessível, da escuta e do diálogo, a divulgação científica consolida-se como prática educativa que forma sujeitos críticos e comprometidos com o cuidado e a vida coletiva.
REFERÊNCIAS
BORGES, Raissa da Silva. O livro informativo na educação infantil: possibilidades para a alfabetização científica. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia) – Universidade do Extremo Sul Catarinense, Criciúma, 2021.
FREIRE, Paulo. Política e educação. São Paulo: Cortez, 2019.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 75. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.
LEWENSTEIN, B. V. Models of public communication of science & technology. Public Understanding of Science, v. 12, n. 1, p. 1-20, 2003.
LIMA, Guilherme da Silva; GIORDAN, Marcelo. Da reformulação discursiva a uma práxis da cultura científica: reflexões sobre a divulgação científica. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 28, n. 2, p. 375-392, 2021.
MARANDINO, Marta. Educação em museus e divulgação científica. ComCiência, Campinas, n. 100, 2008.
TORO, José Bernardo. O cuidado: o paradigma ético da nova civilização. Aula inaugural dos cursos de Licenciatura da Faculdade Sesi de Educação. Curitiba: Faculdade Sesi de Educação, 2017.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à FAPESC (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina) pelo apoio financeiro e incentivo à pesquisa, fundamentais para a realização deste estudo.
[1] Mestre em Tecnologias da Informação e Comunicacão, FURB, Blumenau, Santa Catarina, Brasil, alinecoelho@furb.br
[2] Doutora em Educação, FURB, Blumenau, Santa Catarina, Brasil, dtomio@furb.br
[3] Os livros informativos, também chamados de livros científicos ou de não ficção, apresentam informações científicas e culturais por meio de textos expositivos e recursos visuais, com linguagem acessível e criativa. Seu objetivo é despertar a curiosidade e promover a leitura autônoma, diferenciando-se de livros didáticos e de ficção pelo caráter formativo e divulgador do conhecimento (BORGES, 2021).