1 INTRODUÇÃO
A Inteligência Artificial (IA) tem emergido como uma das tecnologias mais transformadoras do século XXI, com potencial para revolucionar diversos setores, incluindo a educação. A integração da IA no ambiente educacional promete otimizar processos, personalizar o aprendizado e oferecer novas ferramentas para docentes e discentes. No entanto, a adoção dessa tecnologia não é isenta de desafios, especialmente no que tange à preparação dos educadores e à infraestrutura disponível nas instituições de ensino.
Esta pesquisa pretende analisar os resultados de uma pesquisa-ação que investigou a percepção, o conhecimento e as expectativas de professores do ensino básico em relação ao uso da IA em suas práticas pedagógicas. A pesquisa foi conduzida com docentes de uma escola pública da rede municipal, que atende estudantes do ensino fundamental, em Blumenau. Busca-se compreender o cenário atual e identificar as principais barreiras e oportunidades para a inserção da IA na prática pedagógica.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
A Teixeira (2019) a Inteligência Artificial (IA) constitui um ambicioso projeto científico e multidisciplinar. O seu objetivo central não é somente o de aliviar o trabalho humano através da automação, mas, fundamentalmente, desvendar a natureza da mente humana e produzir comportamento, dito, inteligente em máquinas, embora Nicolelis (2025) questione o uso de inteligência, atribuindo o termo a uma jogada de marketing. “Se tudo que você vai fazer é baseado num banco de dados do que já foi feito, você não tem futuro (...) Além de um futuro sem futuro, a gente não vai saber o que é verdade” (Nicolelis, 2025).
Entretanto, para Teixeira (2019), a mente humana opera de forma análoga a um computador, e o caminho para criar "máquinas pensantes" reside no estudo e na elaboração de programas computacionais sofisticados. O propósito daquilo que chamamos de IA reside, não somente na execução de tarefas que requerem certos dados, mas em fazê-lo de maneira similar ao modo como os seres humanos as realizam, imitando a atividade mental subjacente. Portanto, a IA criaria modelos computacionais que simulem capacidades humanas como raciocinar, perceber o mundo, falar e compreender a linguagem.
Embora a ideia de construir criaturas artificiais seja antiga, a IA como disciplina científica efetiva só se tornou viável após a Segunda Guerra Mundial, com o surgimento dos computadores modernos, para Teixeira (2019). Diante deste quadro, para Silva et al. (2025), a IA na educação oferece potencialidades significativas, e, ao mesmo tempo, preocupações éticas, diante dos muitos desafios que ali estão. Pensar a escola do tempo presente, é pensar além dos muros que lhe cercam, como afirma Sibília (2012), e pensar além, é entender a mudança paradigmática vivada, e em conjunto com ela, as mudanças no espaço escolar.
3 METODOLOGIA
Nesse contexto, a pesquisa-ação emerge como uma metodologia pertinente para investigar a inserção da IA na educação. Conforme Thiollent (2009), a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo. Ela permite que os participantes da pesquisa se envolvam ativamente no processo de investigação e transformação de suas próprias práticas. No presente estudo, a pesquisa-ação foi empregada para analisar a percepção e o uso da IA por professores, ao mesmo tempo, em que promovia a capacitação e a reflexão sobre o tema.
O estudo foi estruturado em fases, iniciando com a aplicação de um questionário prévio para diagnosticar o nível de familiaridade e as preocupações iniciais dos professores. Posteriormente, um encontro formativo foi realizado, seguido pela aplicação de um questionário posterior e a elaboração de um diário de observação, a fim de avaliar o impacto da intervenção e as mudanças de percepção. A metodologia de pesquisa-ação permite uma abordagem participativa e reflexiva, visando não somente coletar dados, mas também promover a capacitação e o engajamento dos participantes.
A pesquisa foi realizada no dia 25 de agosto de 2025, nas dependências da Faculdade SENAC Blumenau em um laboratório de informática. Participaram do estudo 34 professores de uma escola da rede pública municipal. Os dados coletados foram analisados para identificar padrões, tendências e percepções dos professores em relação à IA na prática pedagógica, permitindo uma compreensão abrangente do impacto na educação.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Questionário prévio
O questionário prévio revelou um cenário de crescente inserção tecnológica, na prática docente, com déficit no conhecimento específico sobre IA. Em relação ao uso de recursos tecnológicos em suas práticas pedagógicas, 56% afirmaram utilizar frequentemente, 26% ocasionalmente e somente 3% nunca havia utilizado. Isso demonstra uma base de familiaridade com a tecnologia, mas que não se traduz diretamente em conhecimento aprofundado sobre IA em práticas pedagógicas.
Quando questionados sobre o nível de conhecimento em tecnologia educacional, a maioria se classificou como saber intermediário 44% ou básico 38%, com somente 3% de professores se consideram com saber avançado. Em relação à IA especificamente, 56% professores afirmaram conhecer superficialmente, enquanto 29% disseram conhecer e saber como funciona. Nenhum professor declarou não ter conhecimento sobre IA. Isso indica um conhecimento prévio ao tema, ainda que limitada.
As vantagens percebidas pelos professores no uso da IA na educação foram diversas e focadas na otimização do trabalho docente e criatividade em propostas como o auxílio no planejamento, acesso rápido a informações, agilidade e praticidade. Nas vozes dos professores, eles veem a IA como uma ferramenta que “ajuda a otimizar o tempo para preparar materiais de aprendizagem” (P1) e “facilita meu cotidiano na elaboração de planejamento, e projetos, além de auxiliar na sugestão de estratégias que eu posso utilizar em sala” (P2).
No entanto, as preocupações e receios em relação à IA também foram expressivos. A “falta de formação adequada” foi a preocupação das mais citadas, com 65%, seguida por “privacidade e segurança dos dados” 41% e “desigualdade entre alunos” 32%. A “substituição do professor pela IA” foi mencionada por 12% participantes, e a “dificuldade de acesso à tecnologia” por 15%. Essas preocupações refletem a necessidade de políticas públicas e programas de formação que abordem não somente o uso técnico da IA, mas também suas implicações éticas e sociais no campo da educação.
Muitos esperam que a IA “auxilie no planejamento e em práticas diferenciadas para os estudantes” (P3) e “melhore a linguagem de apresentação de conteúdos” (P4). A média de avaliação do impacto potencial da IA na educação foi de 7,76 (em uma escala de 1 a 10), indicando uma visão geralmente otimista, mas com espaço para maior reconhecimento da ferramenta e necessidade de realizar capacitações.
4.2 Questionário posterior
Após o encontro formativo, o questionário posterior revelou uma mudança significativa na percepção e no nível de conhecimento dos professores sobre Inteligência Artificial. A participação no questionário posterior foi de 53% dos professores. Em relação ao nível de conhecimento sobre IA aplicada à educação, a maioria avaliou-se como médio 56%, alto 17% ou muito alto 17%, com somente 11% se considerando com conhecimento baixo. Isso demonstra a eficácia do encontro na elevação do conhecimento dos participantes.
Os conceitos mais compreendidos durante o encontro foram as “Ferramentas práticas de IA para sala de aula” 89%, seguidos por “Exemplos de IA na educação” 78%, “O que é Inteligência Artificial” 56% e “Questões éticas relacionadas à IA” 56%. A compreensão desses conceitos é crucial para a integração consciente e responsável da IA no ambiente educacional. Nesta questão, os respondentes poderiam indicar mais do que uma opção.
Quando solicitados para descrever o que entendem por IA na educação, os professores a definiram como um “mecanismo de auxílio” (P5), “apoio para todos” (P6), “ferramenta útil para o aprendizado” (P7) e “otimização de tempo de pesquisa” (P8). Essas respostas reforçam a visão da IA como um suporte pedagógico e um facilitador de processos, alinhando-se às vantagens percebidas no questionário prévio.
A intenção de utilizar recursos de IA em suas práticas pedagógicas após o encontro foi expressiva, 83% dos professores afirmaram que “Sim, com certeza” e 17% afirmaram que “Provavelmente sim”. Nenhum participante expressou dúvidas ou a intenção de não utilizar a IA. Isso indicam um alto nível de engajamento e aceitação da tecnologia após a capacitação.
As áreas com maior potencial de uso da IA em sala de aula, segundo os professores, incluem “planejamento” (P9), “atividades dinâmicas” (P10) e “educação especial” (P11), além de “todos os componentes curriculares” (P12). Isso sugere que a IA é vista como uma ferramenta versátil, capaz de beneficiar diversas facetas do processo educacional.
No entanto, os desafios para a implementação da IA na realidade escolar ainda persistem, com destaque para a falta de estrutura, internet instável e falta de computadores. A limitação no agendamento do laboratório de informática na escola também foi mencionada, evidenciando a necessidade de investimentos em infraestrutura para viabilizar práticas pedagógicas integradas a IA.
O encontro promoveu uma mudança significativa na visão dos professores sobre o uso de IA na educação, com 78% afirmando que sua visão “mudou bastante” e 17% que “mudou um pouco”. Resistências como falta de conhecimento, medo e resistência ao novo foram superadas. A média de avaliação do impacto das discussões na visão crítica e pedagógica sobre o uso de IA foi de 9,94, em uma escala de 1 a 10, demonstrando o sucesso da pesquisa-ação em promover a reflexão e a capacitação. Da pesquisa prévia, percebe-se que houve um aumento de 7,76, aumentando 2,18 pontos, portanto, percebe-se que esses momentos de capacitação contribuem para a formação continuada dos professores. Todos os professores manifestaram interesse em participar de outros encontros sobre IA e tecnologia educacional.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa-ação realizada demonstrou o potencial da IA como ferramenta de apoio e otimização no contexto educacional. Os resultados indicam que, apesar de um conhecimento inicial superficial sobre IA, os educadores demonstraram grande abertura e interesse em integrar essa tecnologia em suas práticas pedagógicas após uma intervenção formativa.
Os objetivos da pesquisa foram plenamente alcançados, evidenciando uma mudança na percepção dos professores, que passaram a ver a IA como um recurso valioso para o planejamento, a criação de atividades dinâmicas e o suporte à educação especial. A superação de resistências, como o medo e a falta de conhecimento, foi um dos pontos altos do estudo, reforçando a importância de programas de capacitação bem estruturados.
As implicações deste estudo são vastas, apontando para a necessidade urgente de políticas públicas e investimentos em infraestrutura tecnológica nas escolas, incluindo acesso à internet de qualidade e equipamentos adequados. Além disso, a formação continuada dos professores em IA deve ir além do aspecto técnico, abordando também as questões éticas e a segurança dos dados, que foram preocupações recorrentes entre os participantes. O que pode ser objeto de estudos posteriores.
Como limitações, a pesquisa-ação, por sua natureza, envolve um grupo específico de participantes e um contexto delimitado, o que pode restringir a generalização dos resultados. No entanto, os achados fornecem um panorama valioso e podem servir de base para estudos mais amplos.
REFERÊNCIAS
NICOLELIS, Miguel. Miguel Nicolelis fala sobre “chip do cérebro”, IA e o futuro sem futuro. Deu Tilt UOL: Spotify, 28 jan. 2025. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/4SC0adoGDO7Sd0qdknoBW3?si=rN3eeJ3bRKKmTjfP3OcMgw.
SIBILIA, Paula. Redes ou paredes: a escola em tempos de dispersão. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
SILVA, Joel Paulino da et al. A percepção de professores sobre o uso de IA em sala de aula: barreiras e oportunidades. Revista Aracê, New Science Publisher, São José dos Pinhais, v. 7, n. 7, p. 35637–35651, 2025. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/6316. Acesso em: 20 set. 2025.
TEIXEIRA, João de Fernandes. O que é inteligência artificial? São Paulo: E-galáxia, 2019.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 17. ed. São Paulo: Cortez, 2009.