FORMAÇÃO INICIAL DE TÉCNICOS ADMINISTRATIVOS NOS INSTITUTOS FEDERAIS: ANÁLISE SOB PERSPECTIVA DA FORMAÇÃO HUMANA INTEGRAL

  • Autor
  • Tatiane Mai
  • Co-autores
  • Reginaldo Leandro Plácido , Denise Fernandes
  • Resumo
  •  

    RESUMO EXPANDIDO

     

     

     

    Grupo de Trabalho (GT): Educação Profissional e Tecnológica 

    Modalidade do trabalho: Comunicação Oral

    Formato de apresentação: Presencial

     

    FORMAÇÃO INICIAL DE TÉCNICOS ADMINISTRATIVOS NOS INSTITUTOS FEDERAIS:  ANÁLISE SOB PERSPECTIVA DA FORMAÇÃO HUMANA INTEGRAL

     

    PALAVRAS-CHAVE: Educação profissional e tecnológica. Formação e integração. Mundo do trabalho. Formação humanizada.

     

    1 INTRODUÇÃO

    Este artigo é parte integrante da pesquisa em andamento intitulada "Formação inicial de Servidores Técnicos Administrativos em Educação nos Institutos Federais: análise sob perspectiva da formação humana integral", desenvolvida no âmbito do Mestrado Profissional em Educação (ProfEPT). A investigação parte das lacunas existentes nas instituições de ensino, marcada pela ausência de práticas sistematizadas de formação e integração de novos técnicos administrativos em educação (TAEs).

    Tal lacuna é comprovada sob a ótica da educação profissional e tecnológica (EPT), cuja proposta de emancipação da classe trabalhadora e de formação humana integral e omnilateral somente se concretiza quando seus princípios são conhecidos e protegidos por todos os servidores. Nesse contexto, surge uma problemática central da pesquisa: como os processos de formação inicial dos TAEs nos Institutos Federais podem incorporar os princípios da formação humana integral?

    O estudo fundamenta a compreensão de que os TAEs não são apenas executores de atividades administrativas, mas sujeitos educadores cuja atuação é essencial para o fortalecimento do processo educativo, em sintonia com a identidade e a missão institucional dos Institutos Federais. Essa perspectiva alinha-se aos princípios da EPT, que preconiza a superação da dicotomia entre trabalho intelectual e manual, promovendo uma formação que integra todas as dimensões humanas.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    2.1 Educação Profissional e Tecnológica e Formação Humana Integral

     

    A fundamentação teórica apoia-se em autores da EPT que destacam a relevância da formação inicial e do papel dos técnicos administrativos no contexto educacional das instituições. Ciavatta e Ramos (2011) evidenciam as contradições históricas da educação profissional brasileira, marcadas pela dualidade estrutural que separa formação propedêutica e formação para o trabalho. Essa dualidade reflete-se também na concepção restrita do trabalho administrativo, muitas vezes desvinculado de sua dimensão educativa.

    Frigotto (2023) contribui para a compreensão da EPT como campo de disputa hegemônica, no qual a formação integral dos trabalhadores representa uma alternativa ao modelo excludente do capitalismo. O autor destaca que a formação omnilateral pressupõe o desenvolvimento pleno das potencialidades impostas humanas, superando a fragmentação pela divisão social do trabalho.

     

    2.2 O Trabalho como Princípio Educativo

    A concepção do trabalho como princípio educativo, desenvolvida por Saviani (2007), oferece fundamentos para compreender a dimensão formativa do trabalho dos TAEs. Segundo o autor, o trabalho constitui-se como mediação fundamental na relação entre o homem e a natureza, sendo responsável pela produção da existência humana. Essa compreensão permite reconhecer no trabalho administrativo uma dimensão educativa que transcende a mera execução técnica.

    Ramos (2008) complementa essa perspectiva ao defender que a formação integral pressupõe a articulação entre trabalho, ciência e cultura, elementos que devem estar presentes em todos os processos formativos, incluindo aqueles destinados aos servidores das instituições educacionais.

     

    2.3 Identidade Profissional e Socialização Organizacional

    A teoria das identidades profissionais de Dubar (2005) contribui para a compreensão dos processos de construção identitária dos TAEs. O autor destaca que a identidade profissional resulta da articulação entre a identidade para si (trajetória individual) e a identidade para o outro (reconhecimento social), processo que se desenvolve ao longo da socialização organizacional.

    Bauer et al. (2007) oferecem elementos para compreender os processos de integração organizacional como momentos cruciais para a construção de vínculos e o desenvolvimento de competências. Os autores destacam que programas estruturados de financiamento podem influenciar significativamente a satisfação, o desempenho e a retenção de novos colaboradores.

     3 METODOLOGIA

    A investigação caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa de revisão bibliográfica sistemática, fundamentada no materialismo histórico-dialético, cuja escolha se justifica pela necessidade de compreender as concepções, sentidos e práticas relacionadas à formação dos TAEs. O referencial epistemológico adotado permite uma compreensão crítica e abrangente da realidade social, considerando suas contradições e mediações como elementos fundamentais para a transformação.

    Como destaca Frigotto (2010), essa abordagem transcende a mera produção de conhecimento crítico, pois se orienta pela efetivação da transformação da realidade. Nessa perspectiva, a abordagem qualitativa, como afirma Minayo (2014), permite trabalhar com o universo dos significados, implicações e valores, mostrando-se adequado para captar a complexidade que envolve o objeto de estudo.

    Uma revisão bibliográfica sistemática buscou reunir, organizar e interpretar diferentes contribuições teóricas sobre a formação e o acolhimento de TAEs nos Institutos Federais, com o objetivo de mapear a produção científica e construir uma base conceitual sólida para as análises. Conforme Severino (2017), a pesquisa bibliográfica utiliza registros de estudos anteriores como fontes legítimas para identificar concepções atuais e lacunas sobre o tema.

    Para garantir o rigor metodológico, atualizou-se uma estratégia de busca sistemática, com descritores previamente definidos ("técnicos administrativos educação", "institutos federais formação" e "acolhimento servidores públicos") e recorte temporal de 2010 a 2024, que abrange o período de construção dos Institutos Federais. Também foram utilizadas fontes documentais e bases institucionais, como a Plataforma Nilo Peçanha, o SIAPE e os Relatórios de Gestão, que fornecem dados qualitativos e quantitativos sobre perfil, capacitação e acolhimento dos TAEs.

    No tratamento dos dados, aplicou-se uma análise de conteúdo temático conforme Bardin (2016), que a define como "um conjunto de instrumentos de cunho metodológico em constante aperfeiçoamento, que se aplica a discursos extremamente diversificados" (BARDIN, 2016, p. 15). O procedimento ocorreu em três etapas: pré-análise, exploração e tratamento dos resultados.

     4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Uma análise teórica sobre a formação inicial dos TAEs nos Institutos Federais revela um paradoxo central: embora essas instituições tenham sido concebidas sob a perspectiva da formação humana integral, tal concepção relatada se estende aos processos formativos dos próprios servidores. A literatura aponta uma lacuna significativa no reconhecimento da dimensão educativa do trabalho administrativo.

     

    4.1 Contradições na Formação de Servidores

    Enquanto a formação omnilateral dos estudantes possui ampla fundamentação teórica, defendida por Ramos (2008) e Frigotto, Ciavatta e Ramos (2012), a formação dos TAEs permanece, em grande parte, orientada por perspectivas tecnicistas. Essa contradição evidencia a carência de estudos que reconheçam e sustentem a perspectiva da formação humana integral para esses segmentos de servidores.

     4.2 Análise Dialética dos Processos Formativos

              Os resultados podem ser interpretados à luz das categorias do materialismo histórico-dialético. A tradição manifesta-se na permanência de modelos burocráticos e fragmentados que ainda orientam práticas de acolhimento e formação dos TAEs, restringindo sua atuação ao campo administrativo. A contradição evidencia-se na distância entre o princípio da formação integral e as práticas efetivas, que reduzem o servidor a uma função instrumental.

    A negação aponta para a possibilidade de superação desse cenário, diminuindo caminhos para ressignificar o trabalho administrativo como dimensão educativa e para consolidar uma identidade institucional própria dos Institutos Federais.

     4.3 Perspectivas de Superação

    Essa compreensão converge com o propósito formativo dos Institutos Federais, que busca ultrapassar a visão limitada da educação profissional como mero treinamento para atender às demandas imediatas do mercado. Como afirma Pacheco (2015, p. 11): “Nosso objetivo central não é formar um profissional para o mercado, mas sim um cidadão para o mundo do trabalho — um cidadão que tanto poderia ser um técnico quanto um filósofo, um escritor”.

    Os resultados reforçam a necessidade de que os processos formativos específicos aos TAEs incorporem, de maneira eficaz, os princípios da formação humana integral e omnilateral, reconhecendo esses servidores sujeitos educadores fundamentais à consolidação da missão institucional dos Institutos Federais.

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Este estudo contribui para o campo da Educação Profissional e Tecnológica ao proporcionar a ampliação do conceito de formação humana integral para os processos formativos dos TAEs. A articulação entre a teoria do trabalho como princípio educativo (SAVIANI, 2007), a sociologia das identidades profissionais (DUBAR, 2005) e as teorias sobre socialização organizacional (BAUER et al., 2007) oferece uma base inovadora para compensar o acolhimento dos servidores nos Institutos Federais.

    Ao deslocar o foco de uma visão tecnicista para uma abordagem crítica, sustenta-se que a formação inicial dos TAEs deve ser entendida como investimento estratégico, capaz de fortalecer a identidade institucional dos IFs e consolidar seu papel transformador na educação pública brasileira.

    Com base nos resultados, a pesquisa propõe diretrizes para programas de formação inicial crítica dos TAEs, estruturadas em três dimensões: político-pedagógica, voltada ao estudo da história e missão dos Institutos Federais, à compreensão dos princípios da EPT e à análise da conjuntura política; técnico-administrativo, orientado à apropriação dos processos institucionais e ao desenvolvimento de competências específicas; e humano-relacional, direcionada à construção de vínculos comunitários e ao fortalecimento da consciência coletiva.

    Reconhece-se que a investigação apresenta limitações, como a análise restrita ao campo teórico, a concentração em literatura nacional e a ausência de dados longitudinais. Nesse sentido, abrem-se perspectivas para futuras pesquisas empíricas sobre a percepção dos TAEs sobre seu papel educativo, estudos comparativos de diferentes modelos de acolhimento na Rede Federal e investigações sobre a articulação entre a formação dos TAEs e os projetos pedagógicos institucionais.

     

    REFERÊNCIAS

    BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016. 

     

    BAUER, Talya N. et al. Newcomer adjustment during organizational socialization: a meta-analytic review of antecedents, outcomes, and methods. Journal of Applied Psychology, v. 92, n. 3, p. 707-721, 2007. DOI: https://doi.org/10.1037/0021-9010.92.3.707

     CIAVATTA, M.; RAMOS, M. N. Ensino médio e educação profissional no Brasil: dualidade e fragmentação. Revista Retratos da Escola, Brasília, v. 5, n. 8, p. 27-41,jan./jun. 2011. Disponível em: https://br.doczz.net/doc/188738/ensino-m%C3%A9dio-e-educa%C3%A7%C3%A3o-profissional-no-brasil-dualidade-e. Acesso em: 11 jun. 2025.

     DUBAR, Claude. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

    FRIGOTTO, Gaudêncio (org). O ensino médio no Brasil e sua (im) possibilidade histórica. Rio de Janeiro: Editora Expresso Popular, 2023.

     FRIGOTTO, Gaudêncio. O enfoque da dialética materialista histórica na pesquisa educacional. In: FAZENDA, I. (Ed.). Metodologia da pesquisa educacional.12. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

     FRIGOTTO, Gaudêncio; CIAVATTA, Maria; RAMOS, Marise (Org.). Ensino médio integrado: concepção e contradições. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

     MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.

     PACHECO, Eliezer Moreira. Fundamentos político-pedagógicos dos Institutos Federais: diretrizes para uma educação profissional e tecnológica transformadora. Natal: IFRN, 2015.

     RAMOS, Marise Nogueira. Concepção do ensino médio integrado. Brasília: MEC/SETEC, 2008. Disponível em:https://homol.forumeja.org.br/wp-content/uploads/tainacanitems/1688/439501/concepcao_do_ensino_medio_integrado5.pdf . Acesso em: 26 set. 2025.

    SAVIANI, Dermeval. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação, v. 12, n. 34, p. 152-165, jan./abr. 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S1413-24782007000100012

     SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2017. e-book. Disponível em: https: https://bibvirtual.parlamento.ao/wp-content/uploads/2023/03/Metodologia-do-trabalho-cientifico-by-Antonio-Joaquim-Severino-_z-lib.org_-1.pdf. Acesso em: 3 out. 2025.

     UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU (FURB). Resolução nº 49, de 15 de outubro de 2021. Dispõe sobre a adoção das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para a elaboração de trabalhos acadêmicos que não se destinam à publicação científica. Blumenau: FURB, 2021.

     

     

  • Palavras-chave
  • Educação profissional e tecnológica, Formação e integração, Mundo do trabalho. Formação humanizada.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
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