Cultura Escolar na Educação Profissional e Tecnológica: a história do IFC Campus São Bento do Sul (2012–2022) e seus diálogos com o território

  • Autor
  • Larissa Merlo Morales da Silva
  • Co-autores
  • Reginaldo Leandro Plácido
  • Resumo
  • 1 INTRODUÇÃO

    Este trabalho apresenta parte dos resultados de uma pesquisa de mestrado em Educação Profissional e Tecnológica que teve como objetivo compreender a história da implantação do Instituto Federal Catarinense Campus São Bento do Sul (IFC-SBS) e suas relações de diálogo e influência com os Arranjos Produtivos, Sociais e Culturais Locais, no período de 2012 a 2022, correspondente à sua primeira década de funcionamento.

    A pesquisa inserida no contexto do Plano de Expansão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (RFEPCT), especificamente a partir de sua terceira fase, com a instituição da Lei nº 11.892/2008, que cria e orienta os Institutos Federais (IFs) a estruturarem sua oferta formativa em diálogo com os resultados produtivos, sociais e culturais (APLs). Nesse sentido, a criação dos IFs representa não apenas um processo de interiorização da educação pública, mas também um movimento de redefinição da convivência institucional e comunitária, na medida em que propõe novos modos de articulação entre escola, território e desenvolvimento.

    A partir desse marco, a pesquisa buscou responder às seguintes questões: como o IFC-SBS foi influenciado pelos arranjos produtivos, sociais e culturais de São Bento do Sul e região? E de que forma a instituição também influenciou esses arranjos em seu processo de implantação? O estudo propõe, assim, compreender a convivência da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) como um processo de construção coletiva, mediado por práticas, valores e significados que atravessam tanto o espaço escolar quanto às dinâmicas territoriais.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    2.1 Educação Profissional e Tecnológica e Arranjos Produtivos Locais

    O referencial teórico alicerçou-se nas discussões sobre a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) e na análise do processo de expansão dos Institutos Federais, entendidos como políticas públicas de interiorização que articulam educação, território e desenvolvimento regional (CASTRO; PLÁCIDO; MEDEIROS, 2023; CASTRO; PLÁCIDO; SCHENKEL, 2020). A Lei nº 11.892/2008, que cria os IFs, institui tacitamente essa articulação, ao estabelecer que sua oferta formativa esteja vinculada aos Arranjos Produtivos, Sociais e Culturais Locais (APLs).

    A origem do termo APL remete à convergência entre teorias de aglomerações produtivas internacionais e à necessidade de adaptação ao contexto brasileiro, situando-se como um instrumento de política econômica e de desenvolvimento regional incorporado à agenda governamental brasileira a partir de 1999. No contexto brasileiro, o conceito foi criado pela RedeSist, ao incorporar uma abordagem neo-schumpeteriana e estruturalista, que amplia a compreensão do termo para além da dimensão econômica.

    Nessa perspectiva, os APLs são compreendidos como Sistemas Produtivos e Inovadores Locais (SPILs), nos quais os processos de inovação e aprendizagem se dão de forma coletiva e contextualizada, envolvendo empresas, instituições de ensino, pesquisa, entidades governamentais e a comunidade. Essa leitura ampliada, posteriormente incorporada à legislação dos IFs, de forma dinâmica e lógica às dimensões sociais e culturais, originando a expressão arranjos produtivos, sociais e culturais locais.

     

    2.2 Formação Humana Integral na EPT

    A EPT, historicamente marcada pela dualidade entre formação intelectual e manual de formação (KUENZER, 2000), é estudada neste estudo como campo de disputa de projetos societários, no qual a formação humana integral se apresenta como horizonte de superação das desigualdades. Os IFs assumem, assim, papel estratégico na promoção de modos de convivência educativa democráticos, nos quais o conhecimento técnico-científico se integra à cultura, ao trabalho e à vida em sociedade.

     

    2.3 Cultura Escolar como Categoria Analítica

    O conceito de cultura escolar (VIÑAO FRAGO, 2007; JULIA, 2001; NÓVOA, 1999) constitui-se como lente interpretativa da pesquisa, sendo entendido como um conjunto de práticas, normas, valores e rituais que configuram o cotidiano institucional e as formas de convivência. Tal categoria permite compreender como a escola constrói sentidos próprios e, ao mesmo tempo, é permeada por influências externas.

    A categoria de territorialidade (SANTOS; SILVEIRA, 2006) contribui para situar a instituição no espaço social, revelando como o território é produzido por relações de poder, apropriações simbólicas e práticas de pertencimento. Já as categorias analíticas de porosidade e permeabilidade (PLÁCIDO; BENKENDORF; TODOROV, 2021), utilizadas na pesquisa como ferramentas de interpretação dos dados, permitem identificar os espaços de diálogo da instituição com a comunidade, assim como os fluxos de ideias, práticas e sentidos que atravessam o espaço escolar.

    Dessa forma, o referencial articula os campos da história cultural, da EPT e dos estudos territoriais, compreendendo o IFC Campus São Bento do Sul como espaço de intersecção entre escola e território, permeado por conexão, diálogos e aprendizagens mútuas.

     

    3 METODOLOGIA

    A pesquisa é concebida a partir do caminho metodológico da abordagem qualitativa e exploratória (MINAYO, 2002; GIL, 2002), orientada por uma perspectiva teórico-epistemológica crítica e sustentada no diálogo com os fundamentos do materialismo histórico-dialético e da história cultural. Articula diferentes campos do saber: especialmente os estudos sobre cultura escolar, territorialidade e os Arranjos Produtivos, Sociais e Culturais Locais. Estes campos atravessam a análise e se concretizam no processo de produção e interpretação dos dados, não sendo tratados como categorias temáticas, mas como categorias analíticas estruturantes, que guiam a leitura crítica dos dados e dialogam entre si no processo investigativo e analítico.

    Com relação ao período escolhido para análise, foi determinado o ciclo histórico de implantação do IFC Campus São Bento do Sul, no período de 2012 a 2022. O percurso investigativo caracteriza-se como documental-bibliográfico, tendo como construção dos dados o cruzamento entre fontes documentais (atas de audiências públicas, registros imobiliários, Projetos Pedagógicos de Curso e notícias institucionais) e fontes orais e visuais (entrevistas com servidores, estudantes e membros da comunidade; projeto de extensão).

    O tratamento dos dados baseou-se na análise de conteúdo por categorias temáticas (BARDIN, 1977). No contexto do projeto de extensão vinculado à pesquisa, foram realizadas produções de materiais audiovisuais baseados no dispositivo metodológico de fotografias narradas (MIGLIORIN, 2014), permitindo que os participantes expressassem percepções sobre o cotidiano escolar e a relação da instituição com o entorno.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

     

    4.1 Análise Documental e Diretrizes Institucionais

    As fontes documentais, os registros dos registros institucionais, como as atas das audiências públicas e os Projetos Pedagógicos dos Cursos, evidenciaram a presença de diretrizes institucionais orientadas pela legislação da Rede Federal, destacando a necessidade de alinhar a oferta formativa aos arranjos produtivos, sociais e culturais locais. Esses registros revelam a preocupação inicial com o setor industrial e com a adequação dos cursos às demandas produtivas regionais, o que expressa a permeabilidade institucional às expectativas externas e aos interesses locais durante o processo de implantação.

     

    4.2 Memórias e Narrativas dos Sujeitos

    As entrevistas com servidores e representantes da comunidade reforçaram essa evidência, ao apresentar as memórias narradas pelos sujeitos, com momentos de participação e escuta nas etapas iniciais de criação do campus. As falas evidenciaram o papel das audiências públicas como espaços de porosidade, nos quais se estabeleceram diálogos sobre a definição dos cursos e a vocação institucional. Tais espaços possibilitaram a circulação de ideias e valores do território dentro da instituição, caracterizando a permeabilidade da escola às dinâmicas locais.

     

    4.3 Ampliação do Conceito de APL

    Ao mesmo tempo, as memórias narradas pelos sujeitos e os documentos elaborados indicam que, embora o IFC-SBS tenha sido constituído em diálogo com o território, não se limitou a uma função instrumental de atendimento apenas às demandas produtivas. As evidências apontam que, desde os primeiros anos de implantação, a instituição buscou integrar dimensões sociais, culturais e educativas, ampliando o conceito de APL. Essa ampliação se manifesta, por exemplo, nas ações de ensino, pesquisa e extensão que envolveram estudantes e comunidade em atividades formativas externas à valorização da memória institucional e ao fortalecimento de vínculos com o território.

     

    A análise de conteúdo das fontes transferidas à definição de três categorias temáticas centrais, alinhadas aos objetivos da pesquisa: Implantação do IFC Campus São Bento do Sul; Relações com os Arranjos Produtivos, Sociais e Culturais Locais; e Falas, histórias e memórias.

    Durante a análise, observou-se que a categoria cultura escolar atravessa transversalmente todos os demais, configurando-se não como tema isolado, mas como categoria analítica estruturante. A partir dela, foi possível interpretar as práticas e discursos institucionais como manifestações de uma cultura em formação, permeada por sinceridade entre a lógica produtiva e os princípios da formação humana integral.

    A incorporação das categorias de porosidade e permeabilidade ao processo analítico permitiu identificar diferentes níveis de interação entre o IFC-SBS e o território. As audiências públicas, os projetos de extensão e as memórias narradas pelos assuntos foram reconhecidos como espaços de porosidade, marcados pela abertura da instituição ao diálogo e à participação da comunidade.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    1. Os resultados da pesquisa corroboram a hipótese inicial de que uma instituição constitui um espaço poroso e permeável, marcado por uma dupla influência com o território. Os resultados também revelaram uma tensão constitutiva e não resolvida que define a própria natureza dos Institutos Federais na atualidade.

    2. A experiência do IFC Campus São Bento do Sul confirma que políticas educacionais articuladas com o território geram resultados significativos na formação humana integral dos estudantes, na valorização da memória institucional e na construção de identidades coletivas, consolidando um modelo de instituição educacional que vai além da lógica econômica.

    3. Em resumo, os resultados apontam que a implantação do IFC Campus São Bento do Sul ocorreu em meio a processos simultâneos de adaptação e ressignificação. A instituição foi permeada por influências externas, mas também exerceu influência sobre o território, promovendo práticas educativas que ultrapassam o atendimento às demandas econômicas e alcançam dimensões sociais e culturais. Esse movimento confirma o caráter dialógico, histórico e situado da relação entre escola e território, revelando a complexidade que marca a cultura escolar em construção no IFC-SBS.

    4.  

    5. A investigação concentra-se na fase de implantação do IFC Campus São Bento do Sul, e como apontamentos para trabalhos futuros entende ser necessário explorar os demais processos do ciclo histórico da instituição, a fim de compreender a evolução contínua da cultura escolar e das interações com o território.

    REFERÊNCIAS 

    BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

     

    CASTRO, Cloves Alexandre; PLÁCIDO, Reginaldo Leandro; MEDEIROS, Ivonete Telles. Educação Tecnológica no Brasil: A Geopolítica e a Geografia Política do processo histórico. Metodologias e Aprendizado, v. 6, p. 516–533, 2023. https://doi.org/10.21166/metapre.v6i.3983

    CASTRO, Cloves Alexandre; PLÁCIDO, Reginaldo Leandro; SCHENKEL, Cladecir Alberto. História Socioespacial do Trabalho no Brasil, Educação Profissional e Tecnológica e a Questão Regional. Revista Labor, v.1, n. 24, p. 334-355, 2020.

    JULIA, Dominique. A cultura escolar como objeto histórico. Revista Brasileira de História da Educação, n. 1, p. 9–43, 2001.

    KUENZER, Acácia Zeneida. Educação profissional: categorias de análise e elementos para uma nova proposta. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

    MIGLIORIN, Cezar. Inventar com a diferença: cinema e direitos humanos. Niterói: Editora da UFF, 2014.

    MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade. 21. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

    PLÁCIDO, Reginaldo Leandro; BENKENDORF, Shyrlei; TODOROV, Denise. Porosidade e permeabilidade: uma abordagem mesoanalítica na história das instituições escolares a partir da cultura escolar. Metodologias e Aprendizado, v. 4, p. 183-196, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.21166/metapre.v4i.2221. Acesso em: 07 jun. 2023.

    SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2006.

    VIÑAO FRAGO, Antonio. Sistemas educativos, culturas escolares e reformas. Mangualde, Portugal: Edições Pedago, 2007.

    AGRADECIMENTOS (se houver) 

     

    Ao IFC pelo apoio cedido na realização da pesquisa e pela concessão do auxílio financeiro para incentivo à apresentação de trabalhos em eventos científicos por meio do Edital nº xx/202x. 

     
  • Palavras-chave
  • Cultura Escolar, Educação Profissional e Tecnológica, Institutos Federais. Arranjos Produtivos Locais, Territorialidade.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
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