Batalha de rimas: músicas, versos e muita Geografia.

  • Autor
  • Helton Evangelista da Silva
  • Co-autores
  • Marcos Bohrer
  • Resumo
  •  

    BATALHA DE RIMAS: MÚSICAS, VERSOS E MUITA GEOGRAFIA

     

    Helton Evangelista da Silva[1]

    Marcos Bohrer[2]

     

     

    PALAVRAS-CHAVE: Ensino de Geografia; Artes; Prática escolar.

     

    1 INTRODUÇÃO

     

    O que move os educadores de Geografia? Ser apenas docentes que transmitem conteúdo? Reprodutores dos mesmos métodos anos após anos, sem pensamento crítico dessas práticas? Será que a Geografia é muito mais que decorar nomes de países, bandeiras e os aspectos naturais e físicos? A Geografia, enquanto componente curricular (disciplina) proporciona inúmeras possibilidades de ensino e de aprendizagem, basta aprimorar suas práticas, planejar as aulas, buscar métodos que envolvam, que tornem os educandos participantes ativos e não só sujeitos que recebem um conteúdo e estudem para fazer uma prova.

    Refletir sobre o que nos move a ensinar e, a partir das aulas, repensar esse fazer é um dos sentidos deste texto. Posto que é “impossível não pensar”, cabe aos educadores em Geografia pensar intencionalmente quais são as suas propostas de temas, conceitos e metodologias para educar as novas gerações. E a resposta à pergunta “o que ensinar?” não é científica. Como nos relembra Morin (2015), a resposta ao que é ciência não é científica. Requer uma opção que é mais que teórica, é ontológica, pois ao ensinar ensinamos muito do que somos e cremos (KAERCHER e BOHRER, 2018, p. 115).

    A proposta deste projeto é trazer a arte da rima (Rap), poesias e paródias geográficas acerca dos conteúdos previamente trabalhados em aula, como um recurso/linguagem para as aulas de Geografia. Ensinar e aprender Geografia pode ser divertido, se se pensar para além do tradicionalismo dentro de quatro paredes de uma sala de aula, que às vezes “sufoca” e “engessa” o ensino-aprendizagem.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

     

    O método colocado em prática neste projeto baseia-se no uso de linguagem artística, a arte musical e a literatura como um meio de mediação para autoaprendizagem da Geografia. Quando se diz autoaprendizagem, refere-se ao educando aprender de forma autônoma, por mais que seja direcionado pelo educador quanto aos conteúdos geográficos, ele, por si só, deve buscar o conhecimento por meio de pesquisas, para compor a letra da rima, paródia ou poesia geográfica, sendo o resultado do seu desenvolvimento artístico/geográfico.

    Kaercher e Bohrer (2021) fazem um convite à implementação do uso da Literatura, da Arte e da Música (LAM) no ensino de Geografia. Porém, os autores fazem uma ressalva de que a LAM não pode ser, como eles dizem, uma muleta, que depois de utilizada seja descartada sem mais utilidade para o ensino. Ainda, segundo os autores, a LAM pode ser um recurso utilizado em vários momentos do ensino e não apenas em uma etapa. Partindo do que foi exposto, a LAM, quando bem aplicada se torna uma linguagem, que pode ser transformadora na forma comunicação do ensino com a aprendizagem. Assim, as autoras sugerem que:

    É importante entender que essas linguagens não são instrumentos ou meras ferramentas, mas são utilizadas como propostas voltadas para o processo de aprendizagem e para a ampliação do capital cultural do aluno (CASTELLAR e VILHENA, 2010, p. 9).

    É importante refletir sobre a abordagem dos recursos em sala de aula, compreendendo as potencialidades de cada um. O aproveitamento dependerá do entendimento e do planejamento do educador em relação ao objeto proposto. O educador deve utilizar a música, a poesia e outros recursos não como simples ferramenta, mas como forma de linguagem, criando possibilidades que vão além da simples transmissão de conteúdo. As linguagens são meios de expressão que, quando utilizadas, possibilitam o conhecimento e ainda podem promover a reflexão tanto sobre o que foi aprendido quanto sobre o processo que levou à construção de conhecimento.

    Esse se torna um grande desafio, pois para além da Geografia, na qual os educandos têm que lidar com a arte musical e literária, ou seja, estes devem se tornar compositores e intérpretes das letras geográficas, por isso é importante o auxílio do educador no processo, diferente do habitual, em que o educador pega músicas, poesias e cordéis, prontos para estudar o que a letra retrata, deixando bem claro que não há nada de errado nisso. Outro ponto de preocupação foi fazer com que os educandos fossem críticos em suas letras, expondo seus pontos de vista em relação aos temas relatados nas letras.

    Nesse sentido a música pode ser utilizada para ilustrar/reforçar um conteúdo trabalhado ou iniciar uma discussão/debate a respeito de um tema a ser trabalhado, criando-se assim um ambiente mais descontraído, onde os alunos possam se sentir atraídos pela proposta dos professores, e mais seguros para expor suas ideias sobre assuntos geográficos que, muitas vezes, aparecem como um “peso” a ser carregado, tanto pelos alunos quanto pelos professores (SANTOS e CHIAPETTI, 2012, p. 178).

    Dessa forma, esse tipo de abordagem com a música e poesia constitui-se uma metodologia ativa e interdisciplinar. Esse projeto é uma metodologia ativa, pois permite ao educando ser autor de seu próprio aprendizado, sendo conduzido pelo educador durante o processo para se obter os melhores resultados possíveis diante do proposto: composição autoral e apresentação de rimas, poesias e paródias geográficas.

     

    3 METODOLOGIA

     

    Esse projeto de “batalha” de rimas pode ser realizado com integração com as disciplinas de Língua Portuguesa e de Arte, já que envolve a composição de letras de poesias e músicas. Esse tipo de metodologia integrativa entre disciplinas é muito abrangente, abre inúmeras possibilidades do ensino de conceitos geográficos, em que muitos desses conceitos acabam incorporando outras disciplinas.

    Por exemplo: o estudo da estrutura interna da Terra, o Sistema Solar e os movimentos da Terra, clima e tempo, o intemperismo químico das rochas, entre outros temas, que se misturam com a disciplina de Ciências.

    Já nas séries iniciais do Ensino Fundamental, os professores devem incentivar os alunos a construírem relações entre os diferentes conteúdos presentes nas diversas disciplinas, sendo necessário levar em conta no momento da avaliação de uma atividade, ou projeto didático, as aprendizagens realizadas pelos alunos de modo integral (SOUZA et al., 2014, p. 66).

    Seguem, nos quadros 1 e 2, os planejamentos detalhados dos 6º e 8º anos.

     

    CONTEÚDOS

    METODOLOGIAS

    AVALIAÇÃO

    *Espaço geográfico

    *Lugar

    *Paisagens.

    *Sistema Solar*Os movimentos da Terra e as estações do ano

     

    *A estrutura física da Terra

    *O relevo terrestre

     

    *Hidrografia terrestre

    1ª semana: (1 aula) Explicação do trabalho. Grupos (opcional de 3 ou 2 educandos). Escolha dos conteúdos: dentre os temas propostos, cada grupo deve escolher no mínimo dois conteúdos para trabalhar. Explicação dos objetivos deste trabalho. Escolha do trabalho: rima, paródia ou poesia.

    *Participação nas atividades das aulas da oficina de composições.

    Apresentação

    dia 17/9.

    *A organização, a qualidade da apresentação dos integrantes.

    * Se a letra está de acordo com o proposto (se tem uma coerência e explicação dos temas escolhidos)

    2ª semana: (1 aula) Oficina de composição em sala. Orientação: educador de Geografia acerca dos conteúdos e como devem ser abordados nas letras.

    3ª semana: (1 aula) Continuação da oficina de composição em sala. Dicas da educadora de português sobre literatura: escritas dos versos, a ortografia, etc. Orientação: educador de Geografia acerca dos conteúdos e como devem ser abordados nas letras.

    4ª semana: (1 aula) A “batalha” de rimas. Apresentações dos grupos na sala de aula, com as letras expostas nos slides. Para quem escolheu rimas e paródias, a apresentação deverá ser com o beat (batida) ou com o instrumental da música proposta. Recursos: notebook, datashow, caixa de som, microfone, celular, papel, etc.

    Quadro 1– Planejamento metodológico para os 6º anos

    Fonte: elaborado pelos autores (2025).

     

    Quadro 2 – Planejamento metodológico para os 8º anos

    CONTEÚDOS

    METODOLOGIAS

    AVALIAÇÃO

    *Continente americano: território, regionalizações, países, localização, etc.

    *Relevo e hidrografia da América

    *Os climas e as vegetações da América

    *A colonização da América e seus impactos

    *Povos nativos: Astecas, Maias, Incas, indígenas, etc.

    1ª semana: (1 aula) Explicação do trabalho. Grupos (opcional de 3 ou 2 educandos). Escolha dos conteúdos: dentre os temas propostos, cada grupo deve escolher no mínimo 2 conteúdos para trabalhar. Explicação dos objetivos deste trabalho. Escolha do trabalho: rima, paródia ou poesia.

    *Participação nas atividades das aulas da oficina de composições.

    Apresentação

    dia 17/9.

    *A organização, a qualidade da apresentação dos integrantes.

    * Se a letra está de acordo com o proposto (se tem uma coerência e explicação dos temas escolhidos)

    2ª semana: (1 aula) Oficina de composição em sala. Orientação: educador de Geografia acerca dos conteúdos e como devem ser abordados nas letras.

    3ª semana: (1 aula) Continuação da oficina de composição em sala. Dicas da educadora de português sobre literatura: escritas dos versos, a ortografia, etc. Orientação: educador de Geografia acerca dos conteúdos e como devem ser abordados nas letras.

    4ª semana: (1 aula) A “batalha” de rimas. Apresentações dos grupos na sala de aula, com as letras expostas nos slides. Para quem escolheu rimas e paródias, a apresentação deverá ser com o beat (batida) ou com o instrumental da música proposta. Recursos: notebook, datashow, caixa de som, microfone, celular, papel, etc.

    Fonte: elaborado pelos autores (2025).

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

     

    Para as apresentações, os educandos com autonomia organizaram a ordem de apresentações. Cada grupo se apresentou, onde falaram seus nomes, o título da letra e depois declamaram as poesias ou cantaram as músicas e paródias produzidas por eles. Alguns ficaram envergonhados, mas conseguiram apresentar.

    Ao todo, as cinco turmas produziram 22 composições, sendo 4 paródias, 6 rimas e 12 poesias. Algumas dessas letras foram selecionadas para serem apresentadas no festival da primavera literária da escola.

    Segue algumas das letras desenvolvidas e apresentadas pelos educandos. Sendo respectivamente uma poesia, rima e paródia.

     

    Via Láctea, o nosso quintal

    Sol é uma pequena estrela, na via Láctea ela está. Oito planetas em sua volta, formam o Sistema Solar.

    O Sol “nasce” no Leste, com sua luz a iluminar. Transformando a noite em dia, 12 horas a brilhar.

    No horizonte Oeste, a tardezinha o Sol se vai. Levando consigo o dia, que a noite a Lua traz.

    E por falar em Lua, quatro fases ela tem. Cheia, Minguante, Nova e a Crescente tem também.

    A Terra vai girando, segue pela imensidão. A Lua é o seu satélite e sozinha não vai não.

    24 horas a Terra gira, gira feito um pião. Faz o dia e a noite, no movimento de rotação.

     

    América em prosa e rima

    Ata, vou ter que duvidar! Vai falar de geografia e ainda vai querer rimar.

    Mas o que seria isso de geografar? É o que falta, vai querer desenhar?

    Olha, se você quiser.

    AFF! Vê se larga do meu pé.

    Regionalizar, são formas de dividir e ao mesmo tempo juntar.                                                                                                                                                                                                      Falarei bem rápido, então não se esqueça. Guarde essas informações na sua cabeça.                                                                                                                                                                                                   Como assim? Não tô entendendo nada. Dá pra explicar direito essa bagaça.                                                                                                                                                                                                                                          Ok! Então preste atenção. Existem dois tipos de regionalização.                                                                                                                                                                                         

    A geopolítica divide o continente em três partes. América Central, do Sul e do Norte.                                                                                                                                                                                     

    Ei, peraí, essa aí eu já conheço. Pelo menos um pouquinho dessa coisa eu já entendo.                                        &n

  • Palavras-chave
  • Ensino de Geografia; Artes; Prática escolar.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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