Racismo no Futebol Feminino: Uma Análise da cobertura da Folha de São Paulo de 2019 a 2021

  • Autor
  • Maria Rute da Conceição dos Santos
  • Co-autores
  • Beatriz de França Alves , Cristiano Mezzaroba
  • Resumo
  • 1 INTRODUÇÃO

    A pesquisa objetivou analisar como a Folha de São Paulo (FSP) aborda o racismo no futebol feminino, identificando padrões, omissões e aprofundamento da cobertura jornalística sobre o tema, desvelando discursos quanto às relações entre esporte, racismo, gênero e mídia. Diante dessa temática, elencamos a seguinte problemática: Considerando as produções de notícias do Jornal FSP, um dos principais veículos de informações do Brasil, como é possível analisar a abordagem acerca do racismo no futebol feminino em suas reportagens, e de que forma essa cobertura contribui para a visibilidade e o enfrentamento da questão?



     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    Nos últimos anos, o número de casos de racismo no futebol masculino que repercute na mídia tem apresentado um crescimento significativo. No entanto, quando analisamos o futebol feminino, não observamos a mesma visibilidade quanto ao racismo. Parece ser algo que não existe, mesmo com a maioria das jogadoras brasileiras sendo negras. Com isso, podemos levantar duas questões: (a) a invisibilidade das mulheres por parte da mídia no meio futebolístico brasileiro, e, (b) o fato das mulheres negras sofrerem quanto à invisibilidade.

    Apesar de o futebol feminino ter ganhado mais popularidade recentemente, ainda há pouca cobertura midiática sobre a modalidade, pois quando se trata de denunciar casos de racismo sofridos pelas jogadoras, a escassez de reportagens nos principais meios de comunicação do país ainda é existente. Isso vai de encontro com o futebol masculino, em que episódios de discriminação racial são amplamente debatidos e noticiados. Com isso, podemos perceber que o racismo se manifesta de maneira cada vez mais explícita, seja por meio de atos cometidos por jogadores, jogadoras ou pelas torcidas, mas no caso das mulheres negras, a violência simbólica do silenciamento também é uma forma de discriminação. 

    Para compreender como a mídia contribui para essa invisibilização, podemos utilizar a “análise de produto midiático” proposta por Mezzaroba, Mendes e Pires (2010). Segundo os autores, essa abordagem consiste em acompanhar e interpretar os discursos veiculados pelos meios de comunicação, identificando suas intenções e representações. Tal análise consiste na seguinte abordagem: 

     

    [...] quando se procura acompanhar determinado veículo midiático e detectar/compreender seu conteúdo e seu discurso, com suas possíveis intenções – por exemplo, acompanhar, seja pela internet, ou pela mídia impressa ou mesmo por algum programa televisivo, os discursos, os sentidos e as representações de um grande evento esportivo (Mezzaroba; Mendes; Pires, 2010, p. 202).

     

    Ou seja, o fato de quase não existir matérias sobre o racismo no futebol feminino não quer dizer que ele não se manifesta de forma recorrente e insistentemente. Na verdade, esse silêncio da mídia só reforça a segregação das 

     

    jogadoras negras e perpetua a desigualdade dentro do esporte, evidenciando-se que temos aí uma interseccionalidade que envolve gênero e relações étnico-raciais que se somam. E para combater o racismo no futebol, não basta apenas denunciar os casos mais evidentes, é preciso dar visibilidade e voz a esses(as) atletas, reconhecendo suas histórias e enfrentando essa exclusão, sem contar a dimensão da punição com os(as) agressores(as).

     Mas também podemos ver que o racismo no futebol feminino não é apenas uma questão de atos isolados, mas um reflexo de um sistema que historicamente marginaliza mulheres negras, negando-lhes espaço e reconhecimento. Para transformar essa realidade, é fundamental que a mídia amplie sua cobertura, promovendo debates e dando visibilidade às jogadoras negras, não apenas quando enfrentam discriminação, mas também como protagonistas de suas trajetórias. Somente assim será possível romper com esse ciclo de invisibilidade e construir um futebol verdadeiramente inclusivo e equitativo.

     

    3 METODOLOGIA

    Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de abordagem descritivo-exploratória (Gil, 2002, p. 41). O estudo também se caracteriza como uma análise documental (Triviños, 1995), uma vez que examina materiais jornalísticos em formato digital. Foram identificadas e selecionadas reportagens da FSP que abordam questões raciais no futebol brasileiro e mundial, publicadas entre 2019 e 2021, especificamente na seção de esportes. Utilizou-se a análise de conteúdo (Bardin, 1977) para elaborar inferências sobre as reportagens em relação ao objetivo geral da pesquisa, ou seja, perceber como a FSP aborda o racismo no futebol feminino. A escolha deste jornal justifica-se por seu alcance nacional, sua relevância no cenário jornalístico e sua ampla base de leitores.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Entre o período de 11 de fevereiro de 2019 a 17 de novembro de 2021, identificamos na FSP apenas 2 (duas) reportagens que abordavam questões sobre racismo no futebol feminino. Em geral, o futebol feminino ainda recebe menos atenção da mídia, afetando a visibilidade dos problemas enfrentados pelas 

     

    jogadoras, incluindo o racismo que frequentemente vem sendo negligenciado pela mídia. Nas reportagens, identificamos alguns relatos de jogadoras que foram vítimas de insultos racistas durante as partidas, atos esses deferidos pelas atletas adversárias.

    Com base nas análises dessas reportagens, encontramos relatos das jogadoras que foram vítimas de racismo advindos das jogadoras adversárias. Em 2021, no jogo entre Corinthians e Nacional, a atacante do Corinthians Adriana foi chamada de “macaca” por uma jogadora do Nacional que não foi identificada. Em entrevista a jogadora corintiana disse: “Eu acabei não vendo [ouvindo] o que ela falou, mas todo mundo que escutou se sentiu mal” (O CORINTHIANS, 2021).

    Caso parecido aconteceu com a jogadora Andressa Alves, que em 2019 também foi vítima em uma partida entre o Barcelona, time que fazia parte, e Rayo Vallecano, que após a vitória da sua equipe a atleta sofreu insultos racistas. Nota-se que apesar de atuar em uma equipe fora do Brasil, a realidade das jogadoras permanece semelhante à vivenciada no país, uma vez que o racismo não é um problema exclusivo do Brasil, ele é uma questão global, presente em diversas partes do mundo.

    Ademais os atos racistas que acometem essas jogadoras ao longo da sua carreira, seja dentro ou fora do país, perpassa para além das questões raciais, as questões de gênero também estão presentes em sua visão reducionista do esporte. Segundo Devide (2005), o gênero se caracteriza como uma categoria em mutação, que diz respeito ao que a sociedade entende como típico do homem ou da mulher.  Bortolini (2008), de maneira mais pontual, assevera que:

     

    [...] falar de gênero não significa simplesmente falar “de mulher”, mas de relações de poder, materiais e simbólicas, que envolvem todos os seres humanos. Significa visibilizar e problematizar os modos de significação dos corpos, dos jeitos de ser, de andar, de falar. (Bortolini, 2008, p. 32)

     

    Diante das análises feitas a partir dos dois textos encontrados na FSP, fica evidente nas reportagens analisadas que quase não há reportagens sobre o racismo no futebol feminino, em comparação a um maior número de matérias jornalísticas referente ao racismo no futebol masculino.  

     

    Com isso, a escassez de reportagens jornalísticas sobre o racismo no futebol feminino, associada à invisibilidade, evidencia a necessidade urgente de um olhar mais atento e comprometido por parte da mídia. Sendo assim, é fundamental que as discussões sobre racismo no futebol englobem também as questões de gênero, devido à interseção de discriminação racial e sexista no Brasil e em outros países. 

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Precisamos ampliar as compreensões sobre a temática do racismo no futebol feminino visando uma análise mais profunda tendo como propósito compreender como a mídia vem abordando o racismo. Não podemos deixar de considerar o papel da mídia na operação e manutenção da invisibilidade que acomete o futebol feminino tendo em vista o seu grande poder de alcance e de formação de opinião. É inegável que tivemos avanços significativos na história do futebol feminino, com mais visibilidade e apoio institucional, no entanto, ainda estamos longe de alcançar o reconhecimento e visibilidade necessários. Portanto, pesquisas como essa se fazem necessárias na busca de políticas de ações antirracistas no futebol e mais especificamente no futebol feminino. 

     

    REFERÊNCIAS 

    BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

     

    BORTOLINI, A. Diversidade sexual e de gênero na escola: uma perspectiva interrelacional e intercultural. In: BORTOLINI, A. (Org.). Diversidade Sexual e de Gênero na Escola: educação, cultura, violência e ética. Rio de Janeiro: Pró-reitoria de Extensão, UFRJ, 2008. p.26-51

     

    DEVIDE, F. Gênero e mulheres no esporte: história das mulheres nos Jogos Olímpicos Modernos. Ijuí: Unijuí, 2005.

     

    GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4ª. ed. São Paulo: Atlas S/A, 2002.

     

    MEZZAROBA, C.; MENDES, D.S.; PIRES, G.D.L. Grandes eventos esportivos, mídia e representações: possibilidades/responsabilidades para a Educação Física escolar. In: DANTAS JUNIOR, H. S.; KUHN, R.; DORENSKI, S. (Orgs.) Educação Física, esporte e sociedade: temas emergentes. v. 4. São Cristóvão: UFS, 2010.




     

    TRIVINOS, A. N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987

     

    TÉCNICO do Barça diz que brasileira sofreu racismo. Folha de São Paulo, 2019. Disponível em:

    https://acervo.folha.com.br/compartilhar.do?numero=48632&keyword=racismo&anchor=6112071&origem=busca&pd=24d16fd8c9de2e00b285e3e5689a60f7.  Acesso em: 16 mar. 2025.

     

    O CORINTHIANS avança à final da Libertadores feminina em jogo marcado por racismo. Folha de São Paulo, 2021. Disponível em:

    https://acervo.folha.uol.com.br//compartilhar.do?numero=49732&anchor=6445461&pd=25d5d1c70ab94fb933904aaa994be8bd. Acesso em: 16 mar. 2025.

  • Palavras-chave
  • Racismo, Futebol Feminino e invisibilidade
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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