Desafios e boas práticas para a promoção de saúde mental nas escolas

  • Autor
  • Julia Ribeiro da Silva Vallim
  • Co-autores
  • Lucilene Renó Ferreira , Rosália Aparecida Martins Diniz , Thaís Guedes Georgini
  • Resumo
  • 1 INTRODUÇÃO

    O cenário contemporâneo é marcado por um agravamento dos problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes, gerando impactos significativos no sistema público de saúde, com altos custos econômicos e sociais. As estimativas globais e nacionais indicam uma prevalência de 10% a 25% de crianças e adolescentes afetadas por algum algum nível de sofrimento psíquico (BRASIL, 2024; FATORI et al., 2018; UNICEF, 2024), o que compromete diretamente seu desenvolvimento e capacidade de lidar com as demandas cotidianas. A gravidade da situação é sublinhada por dados que posicionam o suicídio como a 4ª principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, sendo a 2ª causa em adolescentes de 15 a 19 anos no Brasil (BRASIL, 2024; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2022; UNICEF, 2021). Além disso, a pandemia de COVID-19 exacerbou esses problemas, intensificando a ansiedade, a depressão e o aumento nas taxas de autolesões e suicídios, principalmente em populações vulneráveis (ALVES et al., 2024;HOLMES et al., 2020).

    A escola, reconhecida como um espaço privilegiado para o desenvolvimento e o estabelecimento de relações interpessoais, assume um papel de extrema importância nesse contexto. No entanto, a saúde mental de estudantes e professores é percebida como o maior desafio em cerca de 8 em cada 10 das redes municipais de ensino, apesar de apenas 39% delas oferecerem ações voltadas para a temática (UNDIME, 2023). 

    Diante desse cenário, é imperativo aprofundar a compreensão dos desafios e boas práticas nos contextos locais, pela perspectiva de seus principais atores, para implementar estratégias eficazes na promoção da saúde mental no ambiente educativo.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    A saúde mental é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um estado de bem-estar em que o indivíduo reconhece suas habilidades, lida com os desafios da vida, trabalha produtivamente e contribui para sua comunidade (OMS, 2022). Em um ambiente escolar, este estado é influenciado por fatores biológicos, psicológicos, culturais, condições de vida e apoio social.

     

    2.1. Fatores de Proteção e o Clima Escolar

    O ambiente educacional configura-se como um espaço potente de fatores de proteção e/ou de risco para a saúde mental. Dentre os fatores de proteção, destacam-se: Relacionamentos e Cultura Escolar Construtiva, Atividade Física e Espaços Verdes, Engajamento Familiar e Formação de Professores (TROY et al., 2022; WEI; KUTCHER, 2012).

    O clima escolar, constituído por percepções e expectativas compartilhadas, impacta a qualidade de vida e o processo de ensino-aprendizagem. Fatores como autoconhecimento, empatia, cooperação, autocuidado e as competências socioemocionais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) são elementos essenciais para a promoção da saúde neste ambiente (BRASIL, 2018; VINHA; MORAES, 2017).

     

    2.2. A Saúde Mental dos Educadores e a Síndrome de Burnout

    A Síndrome de Burnout é reconhecida pela OMS como uma síndrome ocupacional, caracterizada por exaustão, distanciamento mental e sensação de ineficácia (OMS, 2022). Os profissionais da educação são um grupo de risco, devido ao alto investimento emocional exigido pela profissão. No Brasil, a saúde mental do educador é considerada um fator crítico para a qualidade do ensino, sendo fundamental para promover o bem-estar nas escolas de forma abrangente.

     

    2.3. A Interface Educação-Saúde e a Intersetorialidade

    A promoção da saúde mental nas escolas é reforçada por políticas públicas que buscam a intersetorialidade entre as áreas de educação e saúde. Desde a década de 90, com os modelos de Escolas Promotoras de Saúde da OMS-OPAS-UNESCO, a intersetorialidade evoluiu para estratégias como o Programa Saúde na Escola (PSE), instituído em 2007 (SOUSA; ESPERIDIÃO; MEDINA, 2017) e, que atualmente, inclui o eixo de Saúde Mental.

    A legislação brasileira reforça essa interface com a Lei nº 13.935/2019, que estabelece a obrigatoriedade de serviços de psicologia e serviço social nas escolas públicas (BRASIL, 2019), e a Lei nº 14.819/2024, que institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares (BRASIL, 2024).

    No entanto, a intersetorialidade enfrenta múltiplos desafios. A sustentabilidade dessas ações depende de alinhamentos prévios, definição de responsabilidades, e do envolvimento de educadores e equipes multiprofissionais na formulação dos programas (SOUSA; ESPERIDIÃO; MEDINA, 2017).

     

    2.4. A Relevância da Ciência da Implementação

    Apesar das evidências sobre a eficácia de diversas intervenções, há uma grande lacuna na compreensão de como implementar essas práticas de forma efetiva em diversos contextos (GREEN et al., 2009). A Ciência da Implementação busca diminuir a distância entre o que se sabe (a pesquisa) e o que se faz (a prática). Com base na ciência da implementação é possível identificar desafios e potencialidades para que haja a implementação de uma estratégia sustentada, na qual os programas respondam às necessidades da população com fidelidade, eficiência, qualidade e com coberturas relevantes (LEONARDI,ET AL., 2024).

     

    3 METODOLOGIA

    O estudo, de abordagem quantitativa e delineamento transversal e exploratório, é realizado em ambiente virtual com professores e gestores da rede pública e privada dos estados de São Paulo e Minas Gerais.

     

    3.1. Objetivo Geral

    O objetivo geral é avaliar os desafios e boas práticas de promoção da saúde mental no contexto educacional, a partir da perspectiva de professores e gestores educacionais da rede pública e privada de ensino de São Paulo e Minas Gerais.

    A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Paulo – CAAE: 88112825.5.0000.5505. Essa pesquisa contou com apoio financeiro da Fundación Mapfre. A financiadora não teve influência no delineamento do estudo, método, análise e interpretação dos dados.

     

    3.2. Coleta de Dados

    A coleta de dados foi realizada em formulário eletrônico contendo questões relacionadas com os desafios para a promoção da saúde mental nas escolas e com avaliações subjetivas da condição de saúde dos profissionais e do seu impacto no clima escolar (amostragem de conveniência). 

    Até setembro/2025, foram recrutados 347 participantes, 63% atuantes na rede de ensino de Minas Gerais e 37% em São Paulo. Do total, 86% são do sexo feminino, com idade média de 45±10 anos, atuando há 16±10 anos e carga horária semanal média de 33±11 horas. 

    O estudo prevê a avaliação de 600 indivíduos (50% de cada estado). 

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Mais de 50% dos respondentes reportaram experienciar sintomas de burnout em mais da metade dos dias nas últimas 4 semanas e avaliam a sua saúde mental como neutra ou ruim, o que evidencia um estado de vulnerabilidade da saúde mental. Mais de 75% consideram que o seu estado emocional e saúde mental afetam o ambiente escolar e o bem-estar dos alunos, o que demonstra a percepção de um impacto direto na sua atuação na sala de aula. 

    Apesar desse estado alarmante de vulnerabilidade, menos de 40% dos profissionais da educação desta pesquisa possuem apoio de psicólogos ou assistentes sociais nas ações coletivas escolares, o que demonstra uma falta de acesso a profissionais especializados. 

    Dentro os principais desafios para a implementação de práticas de promoção de saúde mental na sua escola elencados, mais de 50% consideram a falta de políticas públicas ou programas voltados para o tema como o principal gargalo, seguido pela ausência de capacitação ou treinamento adequado e a falta de tempo na rotina escolar. Talvez por essa razão, 89% deles gostariam de ser treinados para alguma prática para a promoção da saúde mental na escola, ainda que 82% prefiram que essas ações sejam conduzidas por um monitor/profissional especializado.

    A análise preliminar dos dados aponta para dois principais pontos de atenção para a promoção da saúde mental nas escolas:

    1. Falta de treinamento e acesso a profissionais especializados.

    2. Falta de acesso a políticas/programas.

    Essa lacuna é crítica, visto que os profissionais demonstram a necessidade e o desejo de serem treinados para práticas de promoção da saúde mental. Além disso, questiona-se a presença de psicólogos/assistentes sociais nas escolas para apoiar ações coletivas. Esses achados indicam potenciais sítios de ações, que devem incluir a capacitação dos profissionais da educação. Achados adicionais indicam que 80% reportam realizar práticas de autocuidado, no entanto, menos de 20% o fazem com práticas como terapia e meditação, o que indica uma possível ação a ser tomada e implementada como promoção de saúde nesse contexto.

    A avaliação dos principais desafios e de lacunas na adoção de práticas é uma ferramenta diagnóstica, ponto central da investigação. A discussão dos resultados reforça que a sensibilização e o conhecimento da temática por parte dos educadores é fundamental para a segurança no desenvolvimento das práticas, e que o envolvimento da equipe multiprofissional potencializa a implementação de programas.


     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Os resultados parciais deste estudo reforçam a urgência de investimentos consistentes na saúde mental dos profissionais da educação, cuja vulnerabilidade compromete a dinâmica escolar e o bem-estar coletivo. A ausência de treinamento adequado e de programas estruturados reduz a eficácia das intervenções e limita a capacidade das escolas de responder de forma preventiva e sustentável às demandas emocionais de seus alunos e de sua comunidade.

    Esta investigação contribui para o mapeamento de boas práticas e desafios relacionados à promoção da saúde mental no contexto escolar, destacando a necessidade de políticas públicas integradas, da valorização e do cuidado com o educador, bem como da implementação de estratégias efetivas que assegurem a continuidade e a qualidade das ações no ambiente educativo.

     

    REFERÊNCIAS 

    ALVES, F. J. O.; FIALHO, E.; ARAÚJO, J. A. P.; NASLUND, J. A.; BARRETO, M. L.; PATEL, V.; MACHADO, D. B. The rising trends of self-harm in Brazil: an ecological analysis of notifications, hospitalisations, and mortality between 2011 and 2022. The Lancet Regional Health - Americas, v. 31, p. 100691, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.lana.2024.100691. Acesso em: jun. 2025. 

    BRASIL. BNCC - Base Nacional Comum Curricular. 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 04 out. 2021. 

    BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Diário Oficial da União, Brasília, 12 dez. 2019. 

    BRASIL. Lei nº 14.819, de 7 de março de 2024. Institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 8 mar. 2024

    BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Censo escolar da educação básica 2023: resumo técnico. Brasília, DF: INEP, 2024.

    FATORI, D.; BRENTANI, A.; GRISI, S. J. F. E.; MIGUEL, E. C.; GRAEFF-MARTINS, A. S. Prevalência de problemas de saúde mental na infância na atenção primária. Ciência & Saúde Coletiva, v. 23, n. 9, p. 3013-3020, 2018.

    GREEN, Lawrence W.; OTTOSON, Judith M.; GARCÍA, César; HIATT, Robert A. Diffusion theory and knowledge dissemination, utilization, and integration in public health. Annual Review of Public Health, v. 30, n. 1, p. 151-174, 2009.

    HOLMES, E. A.; O’CONNOR, R. C.; PERRY, V. H. et al. Multidisciplinary research priorities for the COVID-19 pandemic: a call for action for mental health science. Lancet Psychiatry, v. 7, p. 547–60, 2020.

    LEONARDI, J. L. et al. Prática baseada em evidências em psicologia clínica: fundamentos teóricos, questões metodológicas e diretrizes para implementação. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2024.

    OMS – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World mental health report: Transforming mental health for all. 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338. Acesso em: 18 mar. 2025. 

    SOUSA, MC; ESPERIDIÃO, MA; MEDINA, MG. A intersetorialidade no Programa Saúde na Escola: avaliação do processo político-gerencial e das práticas de trabalho. Ciência & Saúde Coletiva, 22(6):1781-1790, 2017.

    TROY, David; ANDERSON, Joanna; JESSIMAN, Patricia E.; et al. What is the impact of structural and cultural factors and interventions within educational settings on promoting positive mental health and preventing 31 p. poor mental health: a systematic review. BMC Public Health, v. 22, n. 524, 1-16, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12889-022-12894-7. Acesso em: 23 jan. 2025. 

    UNDIME; ITAÚ SOCIAL. Percepções e Desafios dos Anos Finais do Ensino Fundamental nas redes municipais de ensino. Agosto 2023. Disponível em: https://undime.org.br/uploads/documentos/phpHiz8lt_64da43f96e2fc.pdf. Acesso em: 30 ago. 2024. 

    UNICEF. Mental health of children and young people: service guidance, 2024. Disponível https://www.who.int/publications/i/item/9789240100374. 10/01/25

    VINHA, Telma Pileggi; MORAIS, Alessandra de; MORO, Adriano (Coord.). Manual de orientação para a aplicação dos questionários que avaliam o clima escolar. Campinas, SP: FE/UNICAMP, 2017.

     

    WEI, Yifeng; KUTCHER, Stan. International School Mental Health: Global Approaches, Global Challenges, and Global Opportunities. Child Adolesc Psychiatric Clin N Am, 21, p. 11–27, 2012.Disponível em: doi:10.1016/j.chc.2011.09.005. Acesso em: 10 jan. 2025.

  • Palavras-chave
  • Saúde mental, Ambiente escolar, Estudantes, Professores
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
Voltar Download
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
  • GT 3 - Mudanças Climáticas: educação ambiental, saúde e produção de alimentos
  • GT 4 - Educação Física e Esporte
  • GT 5 - Divulgação científica/Ensino de Ciência
  • GT 6 - Arte e Educação
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
  • GT 8 - Novas Tecnologias na Educação
  • GT 9 - Questões Étnico-Raciais na Educação
  • GT 10 - Agricultura, Sociedade e Educação
  • GT 11 - Educação Superior
  • GT 12 - Educação Comparada
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
  • GT 14 - Educação Inclusiva
  • GT 15 - Plurilinguismo na Educação
  • GT 16 - Linguagens e letramentos na Educação