RESUMO EXPANDIDO
Grupo de Trabalho (GT): Divulgação Científica/Ensino de Ciências
Modalidade do trabalho: comunicação oral
Formato de apresentação: presencial
COM OLHOS DE CRIANÇA: DESENVOLVENDO UM OLHAR CIENTÍFICO CUIDADOSO COM FRITZ MÜLLER
Aline Coêlho dos Santos[1]
Aline Camilo Luiz [2]
Ana Karina Coral [3]
Karolini Fontana Garcia [4]
PALAVRAS-CHAVE: Divulgação científica; Cultura do Cuidado; Fritz Müller; Educação básica
A iniciação científica nos anos iniciais do Ensino Fundamental se configura como um desafio pedagógico, pois esta precisa ultrapassar os limites inerentes ao conteudismo, que por vezes se caracteriza como mera transmissão de informações. Propomo-nos a refletir sobre como despertar nas crianças uma postura investigativa e uma relação significativa com o conhecimento, em que ciência e vida cotidiana se entrelacem.
Neste contexto, a divulgação científica é de suma importância, quando concebida não como gesto de transmissão unilateral, mas como prática dialógica e situada, capaz de engajar os estudantes a partir de suas realidades e curiosidades. É nesse horizonte que a figura do naturalista Fritz Müller emerge como inspiração para a prática aqui relatada, oferecendo não apenas uma biografia a ser estudada, mas um modo de observar, registrar e relacionar-se com o mundo natural que pode inspirar novas oportunidades de se relacionar com a ciência na escola e fora dela.
Aliada a essa perspectiva, a cultura do cuidado, tal como proposta por Bernardo Toro (2009), oferece uma perspectiva teórica para repensar a educação científica. Partimos do entendimento de que se o cuidado implica zelo, atenção e responsabilidade, o ato de observar cientificamente pode ser compreendido como uma forma de cuidar do detalhe, do fenômeno, do ambiente e do registro. Articular divulgação científica dialógica e cultura do cuidado significa, portanto, conceber a atividade científica na escola como uma práxis formadora, na qual o desenvolvimento do olhar se faz acompanhar pelo desenvolvimento de uma postura ética de valorização da vida em suas múltiplas expressões.
Diante desse quadro, este estudo tem como objetivo refletir sobre o processo de desenvolvimento de um olhar científico cuidadoso em crianças do 1º ano, a partir de uma experiência pedagógica de divulgação científica dialógica ancorada na cultura do cuidado e inspirada na trajetória de Fritz Müller.
Para orientar nossa reflexão, partimos da seguinte questão de pesquisa: Como as atividades inspiradas em Fritz Müller, articulando a divulgação científica dialógica e a cultura do cuidado, contribuíram para a formação de um olhar científico cuidadoso nas crianças do 1º ano?
O percurso metodológico adotado, um relato de experiência sistematizado, permitirá descrever e analisar as atividades realizadas, destacando os sentidos que assumiram no contexto mais amplo de uma educação científica comprometida com a formação integral.
Para refletir sobre nossa prática, partimos de uma concepção de divulgação científica que supera o modelo de déficit cognitivo, compreendendo-a como processo dialógico e participativo. Como argumentam Lordêlo e Porto (2012), a divulgação científica deve ser entendida como construção compartilhada de saberes, estabelecendo diálogos entre conhecimentos científicos e saberes locais. Nesta perspectiva, a atividade de divulgar torna-se uma práxis educativa democrática, onde diferentes vozes e formas de conhecimento são valorizadas e incorporadas ao processo de aprendizagem.
Essa compreensão dialógica articula-se com o conceito de cultura científica proposto por Vogt (2003), que a representa como uma espiral em constante movimento. Essa espiral envolve diferentes atores em um processo contínuo de produção, ensino e socialização do conhecimento. A espiral nos mostra que a cultura científica não se restringe à aquisição de informações, mas configura-se como um modo de leitura e intervenção no mundo, que se desenvolve através de interações e trocas significativas.
Ainda, para refletir esta prática, adotamos a cultura do cuidado proposta por Bernardo Toro (2017), que defende o cuidado como paradigma fundamental para as relações humanas. Para o autor, cuidar não é um sentimento, mas uma prática social que envolve responsabilidade, abrangendo desde o cuidado consigo mesmo e com o próximo até o cuidado com o planeta. Na educação, isso se traduz em uma postura pedagógica que incentiva a autoestima, a autorregulação e o autoconhecimento como pilares da autonomia (TORO, 2011).
Articulando esses referenciais, compreendemos a divulgação científica dialógica como uma práxis comprometida com o cuidado. Quando concebemos atividades de investigação que valorizam a escuta, a observação atenta e o registro detalhado, estamos simultaneamente cultivando um olhar científico e uma postura cuidadosa.
Dessa forma, o desenvolvimento de um olhar científico cuidadoso em crianças do primeiro ano do Ensino Fundamental significa formar não apenas pequenos investigadores, mas sujeitos capazes de relacionar-se com o mundo a partir de uma perspectiva ética de valorização e preservação da vida.
Este relato de experiência analisa a prática educativa “Investigando com Fritz Müller”, foi desenvolvida ao longo do primeiro semestre de 2024 com uma turma do 1º ano do ensino fundamental na Escola Sesc de Araranguá/SC. A metodologia adotada descreve a intervenção pedagógica que articulou a divulgação científica dialógica e a cultura do cuidado, seguindo a sistematização de Fortunato (2018) apresentada no Quadro 1.
Os próximos elementos do relato de experiência, com, planejamento, execução e análise à luz da base teórica, são apresentados na sequência, articuladas às discussões do nosso referencial teórico.
Quadro 1 - Elementos constituintes do relato de experiência
Elemento | Descrição |
Antecedentes | A iniciativa integra o macroprojeto interdisciplinar "Divulgando Ciência com Fritz" e surgiu de formação continuada sobre práticas educativas para divulgação científica ministrada pela professora formadora Aline Coêlho dos Santos, autora do livro "Fritz Müller: como já dizia Darwin, o príncipe dos observadores", que serviu como elemento de inspiração da ação na escola. |
Local | Escola Sesc de Araranguá/SC |
Motivo | Contribuir para o desenvolvimento de um olhar científico cuidadoso em crianças do 1º ano, através de uma prática de divulgação científica dialógica ancorada na cultura do cuidado. |
Agentes | 1 professora regente, 1 professora auxiliar e 50 estudantes do 1º ano do Ensino Fundamental. |
Envolvidos | Comunidade escolar e Familiares. |
Epistemologia para ação | Fundamentação em uma epistemologia crítica da educação, compreendendo a prática educativa como ação reflexiva (Freire, 2019). |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base na sistematização proposta por Fortunato (2018).
O planejamento organizou-se em uma sequência investigativa que partiu da leitura do livro "Fritz Müller: como já dizia Darwin, o príncipe dos observadores" (SANTOS, 2023), passou pela exploração sensorial, saída de campo e culminou na construção do baú de memórias. A execução, por sua vez, foi documentada por meio de registros no diário da professora, registros fotográficos, produções das crianças (caderneta do cientista, lupas de cerâmica, incenso natural) e registros do baú de memórias. Esses materiais, em diálogo com os conceitos de divulgação científica dialógica e cultura do cuidado, fundamentam nos mostram os resultados alcançados na formação do olhar científico cuidadoso das crianças.
A Jornada Mileriana: Um Relato na Voz da Professora
“Tudo começou com o desejo de mostrar para meus pequenos que a ciência também se faz aqui, pertinho da gente. Quando abrimos o livro da Aline e começamos a ler sobre a vida do Fritz Müller, foi uma descoberta. As crianças se encantaram ao saber que ele tinha vivido aqui mesmo, em Santa Catarina, e que observava a natureza com tanto cuidado. A figura do Fritz virou nossa companhia constante - ele era 'o cientista que observava tudo'. A partir da leitura das cartas dele, começamos a explorar os cinco sentidos como ferramentas do cientista. Expliquei que observar não é olhar rápido, mas é olhar devagar, com atenção. Brincamos de descobrir texturas nas folhas, cheiros das ervas, sons do pátio. Cada sentido virou uma porta para a observação atenta, assim como Fritz fazia. As crianças foram incumbidas de fazerem buscas por algo precioso durante suas caminhas fora do ambiente escolar, para instigar a investigação a todo instante e em todo lugar, compreendendo que cada lugar pode ser um laboratório, como a Aline mesmo menciona no livro e na palestra feita para as crianças. Aprendemos não apenas a ver - aprendemos a olhar. Cada descoberta ganhou lugar na nossa caderneta do cientista. Depois veio a produção do incenso natural, inspirado nas cartas onde Fritz falava dos mosquitos. Confeccionamos lupas de cerâmica e descobrimos que 'olhar' científico precisa observar os detalhes, por isso, a lupa foi nosso instrumento de observação. Por fim, construímos nosso baú de memórias, onde guardamos tudo que aprendemos, com a ajuda da historiadora Sueli Petry. Ao final, essas crianças de seis anos me mostraram que fazer ciência é observar com cuidado, registrar com carinho e se sentir parte da natureza. Elas se tornaram pequenos 'milerianos', com olhos atentos, mãos curiosas e muito afeto pelo que descobriam.” (Relato pessoal da professora regente).
Articulação entre Atividades, Objetivos e Componentes Curriculares
Para melhor compreensão do percurso pedagógico realizado, sistematizamos no Quadro 2 as principais atividades desenvolvidas.
Quadro 2 - Síntese das práticas educativas desenvolvidas
Atividade | Objetivos de Aprendizagem | Conhecimentos Mobilizados | Componentes Curriculares |
Leitura do livro e cartas de Fritz Müller | Apresentar a figura do cientista como investigador; Estabelecer vínculo afetivo com a ciência | • Biografia e método científico • Processos de imigração • Relação homem-natureza | Língua Portuguesa, História, Ciências |
Exploração dos cinco sentidos | Desenvolver a observação atenta; Aguçar a percepção sensorial | • Órgãos dos sentidos • Texturas, sons, aromas • Atenção e concentração | Ciências, Arte, Educação Física |
Saída de campo investigativa | Exercitar a curiosidade científica; identificar elementos da natureza | • Biodiversidade local • Método observacional • Registro ambiental | Ciências, Geografia, Educação Ambiental |
Caderneta do cientista | Desenvolver o registro sistemático; Valorizar a documentação | • Registros (escrita/ desenho) • Organização de informações | Língua Portuguesa, Arte, Ciências |
Produção de incenso natural | Relacionar conhecimento tradicional e científico; Compreender repelentes naturais | • Plantas aromáticas • Cultura popular • Prevenção em saúde | Ciências, História, Saúde |
Confecção de lupas de cerâmica | Compreender instrumentos de observação; Explorar diferentes perspectivas | • Propriedades da luz • Função das lentes • Criatividade e inventividade | <
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