RESUMO EXPANDIDO
Grupo de Trabalho (GT): 2 – Filosofia e Epistemologia da Educação
Modalidade do trabalho: Comunicação oral
Formato de apresentação: Online
POR UMA EDUCAÇÃO DIALÓGICA RUMO A CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA
Viviane Sena Alves Mendes
Ana Elisa Spaolonzi Queiroz Assis
PALAVRAS-CHAVE: Conscientização, Educação libertadora, Educação ambiental crítica.
A presente pesquisa, financiada pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC da Universidade Estadual de Campinas, foi realizada com análise das obras Sociedade de Risco: Rumo a uma outra modernidade, de Ulrich Beck (2011), e Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire (2005), buscando relações entre suas teorias e conceitos.
Com isso, este resumo tem como foco uma parte da pesquisa, focado na conscientização como ferramenta essencial para transformação social; dando importância às questões urgentes da sociedade atual, a discussão foi orientada para a educação ambiental crítica, visto que uma efetiva mudança apenas será possível após a compreensão das estruturas de dominação e opressão que envolvem as pessoas.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Tendo como base as obras indicadas na introdução, destacamos os aspectos relevantes de cada uma delas para o recorte aqui apresentado. O filósofo Paulo Freire (2005) ensina que a pedagogia do oprimido é aquela dos sujeitos se empenhando na luta pela superação das contradições sociais. Nesse contexto, a práxis é a reflexão e a ação das pessoas sobre o mundo para transformá-lo; sem ela, a superação da contradição opressor-oprimido, é inatingível.
Já o sociólogo Ulrich Beck (2011), no entanto, discute em seu livro a transformação da sociedade contemporânea e os riscos presentes nessa mudança. A modernidade industrial foi e é concebida a partir do avanço tecnológico da sociedade tradicional, todavia, ela não apenas se desenvolve, como também se destrói. A dissolução da sociedade moderna, conforme Beck (2011), acontece em função de seus êxitos, indicando uma ambição por progresso técnico científico que se interliga com a produção de riscos. Logo, na continuidade dessa modernidade surge uma outra figura: a sociedade de risco.
Esta pesquisa caracterizou-se como pesquisa bibliográfica (Gil, 1994). Com base na análise de conteúdo (Bardin, 1977), foi possível relacionar as teorias dos dois autores e obter resultados significativos, já que a sua obra apresenta variadas técnicas a serem utilizadas na análise de conteúdo. Nesse trabalho, a categorização foi empregada, permitindo a redução de uma grande quantidade de informações para um conjunto mais maleável. Como resultado, as categorias definidas foram: individualização e conscientização. No entanto, neste resumo a conscientização se destaca.
Para a realização do escopo final, foi preciso trabalhar em etapas, sendo elas: a análise das obras bibliográficas Sociedade de Risco (2011), de Ulrich Beck, e Pedagogia do Oprimido (2005), de Paulo Freire; a explicação dos conceitos chave de sociedade de risco, opressão e libertação; os paralelos traçados entre os autores, suas teorias e conceitos. Com base nos resultados obtidos, a educação ambiental crítica em diálogo com as obras de Beck e Freire foram analisadas para a construção do argumento final deste resumo.
Ulrich Beck (2011) alerta que com o crescimento dos riscos da modernização, as diferenças sociais são flexibilizadas, visto que os riscos produzidos têm o poder de atingir a todos. Isto posto, a sociedade de classes não foi discutida, uma vez que o padrão compartilhado dos riscos tendem à globalização.
Paulo Freire (2005) afirma que a conscientização é primordial para o processo de emancipação dos sujeitos, pois assim, a realidade em sua complexidade se torna perceptível e, então, é possível agir com o intuito de transformá-la. Beck (2011) disserta que a sociedade moderna é marcada por riscos invisíveis e ordenadamente produzidos, os quais necessitam de interpretação crítica para seu entendimento.
Diante do exposto, a reflexão crítica é uma ferramenta fundamental para tornar os perigos visíveis e promover reações frente às incertezas da modernidade. Dessa forma, Freire (2005) propõe uma educação libertadora com base na dialogicidade, capacitando os indivíduos a compreenderem sua própria realidade em um processo de interação entre educador e educando, propiciando um ambiente de reciprocidade de consciências.
Ulrich Beck aborda um fenômeno parecido com o que disserta Paulo Freire ao argumentar que, na sociedade de risco, é o conhecimento que irá determinar a consciência do ser; uma vez que as ameaças modernas não são mais unicamente de ordem econômica ou social, como também ecológicas e políticas, tornando o desenvolvimento de uma consciência crítica fundamental para a interpretação dos riscos. A fim de que os desafios contemporâneos sejam superados, faz-se necessária a capacidade de compreender e transformar a realidade, assim como propõe Freire em sua perspectiva educacional quando afirma que “para alcançar a meta da humanização, que não se consegue sem o desaparecimento da opressão desumanizante, é imprescindível a superação das “situações-limites” em que os homens se acham quase coisificados” (2005, p. 131).
Os oprimidos apenas serão persuadidos de que é preciso lutar por libertação, através de engajamento, ao se tornem pessoas conscientes a partir de uma educação libertadora, pela qual “a superação da contradição é o parto que traz ao mundo este homem novo não mais opressor; não mais oprimido, mas homem libertando-se”, onde o diálogo, o estímulo à reflexão crítica e às ideias revolucionárias se fazem presentes (Freire, 2005, p. 48).
Considerando que um grande desafio da atualidade são as questões de sustentabilidade, que envolvem desde a manutenção da vida até a revisão das organizações de poder, uma alternativa possível seria através da construção de uma cultura ecológica, embasada na educação ambiental crítica, isto é, “que compreenda natureza e sociedade como dimensões intrinsecamente relacionadas e que não podem mais ser pensadas – seja nas decisões governamentais, seja nas ações da sociedade civil – de forma separada, independente ou autônoma” (Carvalho, 2008, Parte 2 Capítulo II). Para esse propósito, são necessárias abordagens crítico-reflexivas para a formação de sujeitos ecológicos, em que o diálogo se faz protagonista do “encontro em que se solidariza o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado” (Freire, 2005, p. 109).
Nessa perspectiva, a educação ambiental crítica têm o intuito de formar educandos para que reflitam sobre suas relações com o mundo em que vivem e suas responsabilidades consigo e com os outros, fomentando uma consciência cidadã individual e coletiva em prol de um mundo local-global mais ecológico. Para tal fim, uma educação dialógica tem um papel fundamental para a reflexão e problematização das questões ambientais atuais (Dickmann; Carneiro, 2012).
Constata-se que o conceito de sociedade de risco (Beck, 2011) se aproxima com o de de ação antidialógica (Freire, 2005), evidenciando que a conscientização, ou seja, a compreensão da realidade do mundo, é crucial para o entendimento crítico da sociedade contemporânea e a luta pela transformação, contribuindo para que as pessoas se vejam enquanto seres políticos no mundo.
Uma educação genuinamente libertadora leva os educandos a terem consciência de si e também da realidade, se entendendo enquanto “corpo consciente”, experienciam uma relação dialética entre condicionamentos e sua liberdade (Freire, 2005, p. 125). Portanto, ter consciência dos riscos e acesso à informações concretas são fundamentais, desde que apresentadas a um contexto favorável para quem ouve, sobretudo, reforçando a “capacidade de ação dos sujeitos no mundo e sua vinculação afetiva com os valores éticos e estéticos dessa visão de mundo” (Carvalho, 2008, Parte 2 Capítulo V), enfatizando que a ação coletiva é o caminho para lutar por mudanças significativas e agir politicamente.
Considerando as ideias desenvolvidas ao longo do resumo, conclui-se que a valorização da democracia e participação cidadã são fundamentais para o desenvolvimento de uma educação ambiental crítica, que avaliará riscos mundiais e locais e desvelar a realidade opressora, desumanizante e insustentável, buscando construir alternativas sustentáveis, rumo a libertação (Dickmann; Carneiro, 2012).
REFERÊNCIAS
Bardin, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.
Beck, Ulrich. Sociedade de risco: Rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2011a.
Carvalho, Isabel Cristina de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. São Paulo: Cortez, 2008.
Dickmann, Ivo; Carneiro, Sônia Maria Marchiorato. Paulo Freire e educação ambiental: contribuições a partir da obra Pedagogia da Autonomia. R. Educ. Públ. [online]. 2012, vol.21, n.45, pp.87-102. ISSN 2238-2097.
Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido. 42. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. 213 p..
Gil, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1994.