ENSINO DE LUTAS NO CONTEXTO ESCOLAR: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM UM ITINERÁRIO FORMATIVO DO ENSINO MÉDIO NA CIDADE DE RIO DO SUL – SC

  • Autor
  • Carolina Machado de Oliveira
  • Co-autores
  • Eliz Eduarda Hildebrando
  • Resumo
  •  

    1 INTRODUÇÃO

    A tematização do conteúdo Lutas na Educação Física escolar vem sendo objeto de estudo em inúmeras investigações, que evidenciam tanto sua relevância quanto as dificuldades de implementação. Diversos autores apontam que, apesar das lutas serem reconhecidas como manifestações legítimas da cultura corporal, sua presença no currículo escolar ainda é reduzida, sendo geralmente ofuscada pela centralidade dos esportes coletivos (Correia; Franchini, 2010). Nesse sentido, compreende-se que tematizar as lutas na escola contribui para a formação integral dos estudantes, desenvolvendo valores como respeito, disciplina, cooperação, autodefesa e convivência ética (Rufino; Darido, 2013; Pereira et al., 2017).

    Ainda assim, mesmo diante dos inúmeros benefícios decorrentes do conhecimento sobre a prática de lutas, a literatura revela que muitos professores apresentam resistência ou insegurança para trabalhar esse conteúdo, devido à falta de formação inicial e continuada, à escassez de materiais pedagógicos e aos preconceitos que associam as lutas à violência (Paim et al., 2021).

    Dada a relevância desse conteúdo perante a literatura, o Grupo de Pesquisa Teorias e Práticas Pedagógicas em Educação Física (TEPPEF), do Centro Universitário para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí – UNIDAVI, vem trabalhando anualmente em projetos que visam identificar as fragilidades e potencialidades do ensino de lutas na escola. Em 2022, o foco esteve na problematização do ensino desse conteúdo no contexto escolar; em 2023, foram investigados os impasses vivenciados por professores da região do Alto Vale do Itajaí – SC, para ministrar a temática; e, em 2024, foi realizada uma formação continuada voltada à temática. Em 2025, o projeto ancora-se na perspectiva dos alunos da educação básica, com o intuito de compreender sua percepção acerca da relevância (ou não) das lutas na Educação Física escolar.

    Partindo do exposto, acredita-se que compreender a óptica discente pode auxiliar no diálogo entre pesquisadores, professores e estudantes, fortalecendo a inserção das lutas como parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e do Novo Ensino Médio. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo relatar a percepção dos estudantes do ensino médio sobre o ensino de lutas na Educação Física escolar, a partir de uma oficina de Jiu-Jitsu realizada no itinerário formativo de Linguagens, desenvolvido no contraturno de um colégio universitário, na cidade de Rio do Sul – SC, Brasil.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    O ensino das lutas na Educação Física escolar tem sido reconhecido como um conteúdo relevante da cultura corporal de movimento, contribuindo para a formação integral dos estudantes. Diferentemente da visão reducionista que as associa apenas à violência ou ao desempenho técnico, as lutas possibilitam experiências pedagógicas que abrangem aspectos motores, sociais, históricos, culturais e filosóficos (Correia; Franchini, 2010).

    No contexto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as lutas são legitimadas como uma das unidades temáticas da Educação Física, ao lado dos esportes, danças, ginásticas e práticas corporais de aventura. Essa inclusão reforça a necessidade de ampliar as experiências escolares para além dos esportes coletivos, cuja tematização historicamente ocupou lugar hegemônico nas aulas de Educação Física (Rufino; Darido, 2013).

    A literatura aponta que o ensino das lutas favorece o desenvolvimento de valores educativos como disciplina, respeito, responsabilidade e cooperação, ao mesmo tempo em que promove a vivência de situações de oposição e tomada de decisão (Avelar-Rosa; Figueiredo, 2015). Além disso, sua prática pode contribuir para a inclusão de estudantes que não se identificam com os esportes tradicionais, oferecendo novas possibilidades de engajamento e expressão corporal.

    Apesar desse potencial, ainda existem desafios para a efetiva implementação do conteúdo. Muitos professores relatam insegurança e falta de preparo para ensinar lutas, devido à escassez de formação inicial e continuada, bem como à carência de materiais pedagógicos e apoio institucional (Paim et al., 2021).

    Diante desse cenário, diferentes propostas metodológicas vêm sendo desenvolvidas. Uma delas é a organização do ensino a partir de jogos de lutas, que tornam a aprendizagem mais lúdica e acessível, ao mesmo tempo em que desconstroem a associação com a violência (Pereira et al., 2017).

    Outra proposta é o conceito de “saber lutar”, que sistematiza conhecimentos técnico-táticos comuns a diferentes modalidades (ações ofensivas, defensivas, de transição e gestão tática), possibilitando que mesmo professores não especialistas possam trabalhar o tema de maneira segura e significativa (Avelar-Rosa; Figueiredo, 2015).

    Assim, a presença das lutas na escola deve ser compreendida não como uma simples prática corporal, mas como conteúdo pedagógico de grande relevância, capaz de ampliar horizontes culturais, fomentar a reflexão crítica e contribuir para a valorização da diversidade na Educação Física escolar.

    No contexto escolar, destacadamente no Novo Ensino Médio, a organização curricular apresentou possibilidades do ensino de lutas não só no componente curricular obrigatório de Educação Física. Os itinerários formativos, cuja redação do art. 4º, alterando o art. 36 da LDB, preveem a possibilidade das escolas em oferecerem opções de ensino dentro da área de linguagens e suas tecnologias (Corrêa; Ferri; Garcia, 2022), o que permitiu o aprofundamento do componente curricular Educação Física, com a aula de Lutas dentro do itinerário de Linguagens.

    Dentro desta proposta, de flexibilização do currículo e autonomia para os estudantes fazerem suas escolhas, a partir da ideia de construírem seu projeto de vida (Corrêa; Ferri; Garcia, 2022), as lutas podem desempenhar um importante papel no conhecimento da cultura corporal para além dos esportes habituais (e ainda hegemônicos) das aulas de Educação Física.

     

    3 METODOLOGIA

    Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de caráter qualitativo e exploratório, voltada à compreensão da percepção de estudantes sobre o ensino de lutas na Educação Física escolar. A escolha pela abordagem qualitativa justifica-se pelo interesse em analisar sentidos, interpretações e experiências atribuídas pelos próprios alunos ao conteúdo em questão.

    A técnica de coleta de dados utilizada foi o grupo focal, conduzido pela professora-pesquisadora com uma turma do ensino médio, durante o itinerário formativo de Linguagens, na oficina “Jiu Jitsu”. Participaram da atividade aproximadamente 30 alunos (indicar o número exato, se possível), com idades entre 15 e 18 anos, regularmente matriculados na escola e que optaram por participar do referido itinerário. As aulas de Jiu Jitsu acontecem uma vez na semana, com duração de 55 minutos, nas dependências do colégio, que dispõe de tatame e kimono para realização das aulas. O material para aulas é cedido pelo curso de formação inicial em Educação Física, que ocorre no período noturno na instituição.

    O grupo focal foi realizado em ambiente escolar, em formato de roda de conversa, com duração média de 40 minutos. O diálogo partiu de questões norteadoras, tais como: “O que vocês já sabiam sobre o Jiu-Jitsu?”, “Quais eram suas expectativas ao participar da oficina?” e “Vocês consideram importante que esse conteúdo seja ensinado nas aulas de Educação Física escolar?”. As falas dos alunos foram registradas em transcrição literal, preservando-se o anonimato por meio da designação genérica “Aluno”

    A análise dos dados foi feita por meio da técnica de análise temática, que consiste em organizar as respostas em categorias emergentes a partir do conteúdo. Neste estudo, os principais eixos identificados foram: (1) conhecimentos prévios sobre o Jiu-Jitsu; (2) expectativas em relação à oficina; (3) percepção sobre a relevância do conteúdo no currículo escolar; e (4) necessidade de formação docente adequada para o ensino de lutas.

    A utilização do grupo focal como metodologia possibilitou compreender a visão dos alunos em relação ao tema, trazendo à tona percepções individuais e coletivas que dialogam com a fundamentação teórica apresentada.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Em relação aos “Conhecimentos prévios sobre o Jiu-Jitsu”, a maioria dos alunos demonstrou conhecimento parcial sobre o Jiu-Jitsu, geralmente associado a lutas televisivas ou a práticas esportivas populares. Desta categoria emergem falas como “Dos jogos olímpicos eu tinha noção do judô, kimono e tatame”; “Do UFC”; “Eu via na TV e já fiz judô”; “Sabia que era uma arte marcial, só não sabia como funcionava”.

    Alguns alunos possuíam experiência familiar ou recreativa com lutas: “Eu não sabia que o principal era finalização, tinha o conhecimento que era uma luta agarrada, meu pai tinha um kimono em casa, a gente sempre brincava de luta. Não sabia que tinha pontos ou regras em geral, apenas que era uma luta agarrada no chão

    Quando perguntados sobre as “Expectativas em relação à oficina”, os alunos demonstraram interesse em vivenciar a prática e adquirir novas habilidades, percebido na seguinte fala: “Acho que é uma experiência boa para todos. Eu quando entrei sempre tive vontade de aprender alguma coisa, eu e meu amigo tivemos a ideia de começar algum tipo de luta e ter essa experiência

    Ao encontro das expectativas, a “Percepção sobre a relevância do conteúdo no currículo escolar” de um modo geral, os alunos percebem a importância do conteúdo, mas enfatizam a necessidade de professores qualificados: “[...] teria que ser alguém com propriedade para ensinar, um exemplo é o nosso professor [do componente curricular Educação Física] ele não sabe como funciona nem tem experiência na prática”; “Concordo com o meu colega”; “Acho que teria que ter um cuidado a mais para a organização das aulas para não acontecer acidentes”. Um dos alunos percebe uma lacuna nas percepções dos colegas, argumentando que “Talvez se o professor fosse atrás de atualizações sobre esse conteúdo conseguiria repassar dando uma base para nós

    Por fim, ao serem solicitados a fazerem “Sugestões e considerações sobre a implementação do conteúdo”, na percepção deles: “É uma forma de aprender autodefesa”; “É uma nova experiência, um diferencial, é bom ter outras práticas para talvez se encontrar em algo ou só ter como experiência”; “Eu recomendaria porque é importante aprender algo novo”;             “Eu recomendaria porque alguns não se encontram nos esportes comuns, ter um diferencial é uma nova chance de ser incluído a algo ou dar seguimento como carreira, hobby, uma prática de exercício físico

    A análise das falas dos alunos evidencia o quanto estes valorizam a aprendizagem de autodefesa, experiências novas e inclusivas, bem como destacam a importância da formação continuada dos professores para a tematização de conteúdos não habituais na Educação Física escolar. Esses achados corroboram a literatura que indica o ensino de lutas como promotora de habilidades motoras, sociais e culturais (Avelar-Rosa; Figueiredo, 2015; Rufino; Darido, 2013).

    Embora não relatado pelos alunos, a parceria entre Ensino Superior e Educação Básica se revela na possibilidade de usar espaços da graduação para efetivar propostas da Educação Básica, como o desenvolvimento do Itinerário Formativo de Lutas, com toda estrutura desejada para aulas de Jiu Jitsu e formação específica da professora (também do Ensino Superior) para isso. Tais condições não refletem a regra geral, em que as escolas não possuem condições mínimas para o ensino de conteúdos clássicos como os esportes coletivos, nem os professores são mestres em lutas. Contudo, a experiência com o itinerário formativo sinaliza o interesse dos estudantes em aprenderem práticas corporais para além dos esportes tradicionais e a importância do professor de Educação Física em buscar formação continuada e estratégias de ensino que possibilitem a oferta de um conteúdo tão importante na formação dos alunos, mesmo sem ter formação específica para isso.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    O presente texto buscou relatar as primeiras impressões dos alunos de um colégio universitário, durante o itinerário formativo do ensino médio, na oficina de Jiu Jitsu. No relato dos estudantes, direcionado a partir de categorias pré definidas pela professora pesquisadora, foi possível perceber que os alunos reconhecem a inexistência deste conteúdo na Educação Física, sendo o itinerário formativo, uma possibilidade de vivenciar esta temática dentro do contexto escolar.

    A relação entre curso de graduação em Educação Física, dispondo de estrutura e conhecimento pedagógico da professora, e colégio universitário foi fundamental para proporcionar aos alunos no ensino médio vivências que não teriam se não fosse essa parceria e a flexibilização do currículo na construção das oficinas dentro do itinerário de Linguagens e suas tecnologias.

    Contudo, esta experiência é isolada e reconhece a importância de tematizar o conteúdo lutas dentro do componente curricular obrigatório de Educação Física, a partir de condições reais das escolas e a partir de propostas pedagógicas que não necessitam de “mestres de artes marciais” para ensinarem o conteúdo, ainda que estes sejam bem-vindos para contribuir com a experiência de ensino.

    REFERÊNCIAS

    AVELAR-ROSA, Bruno. FIGUEIREDO, Bruno. As artes marciais e desportos de combate na Educação Física escolar: interpretação curricular. Journal of Sport Pedagogy and Research, 1(8), pp.14-21, 2015

     CORRÊA, S. de S.; FERRI, C.; GARCIA, S. R. de O. O que esperar do Novo Ensino Médio?. Retratos da Escola, [S. l.], v. 16, n. 34, p. 15–21, 2022. Disponível em: https://retratosdaescola.emnuvens.com.br/rde/article/view/1543. Acesso em: 19 out. 2025.

     CORREIA, Walter Roberto; FRANCHINI, Emerson. Produção acadêmica em lutas, artes marciais e esportes de combate. Motriz, Rio Claro, v.16 n.1 p.01-09, jan./mar. 2010.

     PAIM et.al. Inserção do conteúdo de lutas na escola: percepções de professores de Educação Física. Conexões, Campinas: SP, v. 19, e021039, 2021.

     PEREIRA et.al. Lutas na escola: sistematização do conteúdo por meio da rede dos jogos de lutas. Conexões, Campinas: SP, v. 15, n. 3, p. 338-348, jul./set. 2017.

    RUFINO, Luiz Gustavo Bonatto Rufino. DARIDO, Suraya Cristina. Possíveis diálogos entre a Educação Física escolar e o conteúdo das lutas na perspectiva da cultura corporal. Conexões, Campinas, v. 11, n. 1, p. 145-170, jan./mar. 2013.

     

     
  • Palavras-chave
  • Ensino de lutas, Educação Física escolar; Ensino Médio.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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