PROMOVENDO REFLEXÕES SOBRE O QUE É ESTAR REALMENTE CONECTADO: UMA EXPERIÊNCIA QUE CONECTOU ESPORTE E A COMUNIDADE ESCOLAR

  • Autor
  • Emili Adriana Stiz
  • Co-autores
  • Thiago Uliano , Antonio José Müller
  • Resumo
  •  

    1 ESCOLA, ESTUDANTES E FAMÍLIAS: PARA ALÉM DE UM EVENTO ESPORTIVO

    A educação atual, embora imersa em tecnologias digitais e sobrecarga informacional, revela também sinais de um distanciamento dos valores humanos essenciais. Nesse sentido, durante o evento de abertura dos jogos interclasses de uma escola pública de Santa Catarina, a partir da pergunta: “Estamos todos conectados, mas, como está a nossa conexão?” propôs-se uma reflexão acerca da dualidade interpretativa da palavra “Conexão”.

    O objetivo deste resumo é apresentar a experiência vivida no cerimonial de abertura como espaço pedagógico, evidenciando como a integração entre tecnologia, arte, esporte e valores humanos pode favorecer reflexões críticas e aprendizagens significativas no contexto escolar. O evento é tradicional e muito aguardado pela comunidade escolar. Neste ano, em sua 26ª edição resgatou memórias, fez perguntas, estabeleceu conexões e emocionou.

    A partir do diálogo entre os envolvidos, sentiu-se a necessidade de objetivar a reflexão para o encontro ao vivo, para o olhar atento, para a escrita em papel, para o calor do abraço, em contraste às ausências geradas pelo uso tão frequente das tecnologias digitais.

    Nesse contexto, a fundamentação teórica amparada em Pérez Gómez colabora para o entendimento dos desafios e possibilidades da educação na era digital, Paulo Freire indica caminhos para uma educação emancipadora e o uso intencional de recursos digitais como ferramentas pedagógicas amplia o debate sobre o papel das tecnologias na educação contemporânea.

    O processo de aplicação da proposta compreendeu quatro etapas principais: planejamento coletivo, construção das apresentações, execução do cerimonial e registros da experiência. Os resultados foram sentidos por cada sujeito e compartilhados através das suas emoções.

    Assim, o cerimonial de abertura transformou-se para além de um evento esportivo: tornou-se um espaço de problematização, vivência coletiva e reflexões sobre os sentidos da conexão pedagógica, humana e digital na contemporaneidade.

     

    2 ESTAMOS TODOS CONECTADOS, MAS COMO ESTÁ A NOSSA CONEXÃO?

    As conversas entre os sujeitos da escola foram o ponto de partida para a construção do tema. Por estar sempre nos homens e mulheres e em seu aqui e agora, “que constituem a situação em que se encontram ora imersos, ora emersos, ora insertados” (Freire, 1987, p. 41), as sugestões foram muitas e variadas: infância, meio ambiente, valores, brincadeiras antigas, saúde mental, multiculturalidade, entre outros. Nada concreto. Todas as opções importantes, pertinentes, reais.

    Gestão e professores de Educação Física, a partir do diálogo optaram por não escolher, mas construir o tema, incluindo as demandas do cotidiano. A multiculturalidade e a situação ambiental se destacaram, assim como saúde mental, e os valores e a história (dos jogos, da escola, das famílias, de nós mesmos) poderiam ser mobilizados, se conectados.

    Conexões: o que nos conecta? Como estamos conectados? Como está a qualidade das nossas conexões? Essas perguntas nos levaram à problemática principal: “Estamos todos conectados, mas como está a nossa conexão?”. Para Pérez Gómez (2015, p.15) as transformações substanciais que ocorreram no âmbito da economia, política, sociedade e cultura impactaram de tal modo que “As confluências de mudanças tão significativas e radicais estão moldando um novo metacontexto que modifica as instituições, os Estados e a vida cotidiana dos cidadãos dentro de uma era de globalização e interdependência”. Ainda para o autor:

    Embora a conexão, a interdependência e o intercâmbio global não precisem destruir a diversidade, a forma como se pratica a globalização a serviço do lucro a qualquer preço representa uma ameaça constante para os modos de vida de cada grupo humano, independentemente das suas raízes históricas. (2015, p.16).

     

    Nesse sentido, a tecnologia apesar de nos permitir estar mais próximos do que nunca, muitas vezes, nos faz sentir ainda mais sozinhos. O “Vídeo sobre troca de valores” de Luiz Fernando (YouTube, 2017) foi exibido com a proposta de provocar a reflexão sobre essa supervalorização do lucro e evidenciar a solidão como resultado principal. Em seguida, o público foi conduzido a voltar no tempo, para a época que não tínhamos celulares ou televisores e que o acesso aos livros e à educação era para poucos. Ainda assim, tínhamos uns aos outros. Como lembram Nóvoa e Alvim, “Grande parte das nossas vidas e culturas, da nossa criatividade, das histórias, das produções efémeras e espontâneas, dos laços e relações entre nós, dos nossos sonhos, não estão na internet. Há um património humano, impossível de digitalizar.” (2022, p. 46).

    Assim, a carta, símbolo antigo de comunicação, foi utilizada como lembrete de que a verdadeira conexão não está nas inovações tecnológicas, mas no toque humano, na presença física, na dedicação, na concretude de desenhar as palavras – e, muitas vezes, os próprios sentimentos. Nessa perspectiva, as cartas emergiram como um instrumento de conexão que se tornou o ponto de partida da cerimônia de abertura e também, o convite para o evento.

    Em um resgate histórico, entendemos que a vida em sociedade foi (e continua sendo) [TU1] fundamental para a humanidade. Como destaca Freire, “mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma Presença no mundo, com o mundo e com os outros”. (Freire, 2002, p. 84). As pessoas se reuniam para compartilhar histórias, valores e tradições, fortalecendo laços que transcendiam fronteiras geográficas e culturais. Assim, refletimos: no passado, sem a tecnologia que temos hoje, sobre o que se conversava? O que se fazia? E nesse momento, quem somos nós? Essas perguntas foram a chamada para a coreografia “Somos um”, criada por uma estudante do 7º ano e apresentada ao som da música Somos, de Alok e Melim (2021).

    A junção do ritmo eletrônico com o pop sugere unidade e harmonia conectando multiculturalidade e valores ontológicos. Da mesma forma, as cartas, lembram que a comunicação verdadeira não exige imediatismo para existir. Além disso, são testemunhas do que realmente importa: os valores e as conexões que construímos com as pessoas que nos rodeiam.

    Portanto, estamos cada vez mais em busca de um lugar nesse novo cenário tecnológico e digital. Mas que lugar é esse? Que história estamos escrevendo hoje? Para fortalecer a reflexão, utilizamos a música Amarelo, Azul e Branco, de Anavitória e Rita Lee (2021), apresentada por estudantes de 11 e 12 anos, com a participação de uma estudante de 15 anos representando o passado. A música celebra a história, a cultura e a identidade sem nos tornar submissos a elas, valorizando a liberdade e a autonomia para ser no futuro.

    O cerimonial incluiu trechos protocolares como o juramento dos atletas, reafirmando publicamente o compromisso em competir com justiça, integridade e honestidade. A conexão seguinte relacionou saúde mental, consciência ambiental e tecnologia, recursos dos quais nos beneficiamos para nos conectar com o mundo. Por vezes, é possível esquecer que presença humana, toque físico e conversas significativas, são fundamentais para a saúde emocional.

    Também é essencial construir relações duradouras entre nós e o planeta, afinal, como lembra Morin (2000, p. 72), “temos todos uma identidade genética, cerebral, afetiva comum em nossas diversidades individuais, culturais e sociais. Somos produto do desenvolvimento da vida, da qual a Terra foi matriz e nutriz.”, e precisamos ao pensar no futuro, “aprender a ser, a viver, a dividir e a comunicar como humanos do planeta Terra, não mais somente pertencer a uma cultura, mas também ser terrenos.” (Morin, 2000, p. 73). Para reforçar essa relação, apresentamos o vídeo intitulado “A Terra | Curta-Metragem Sobre o Meio Ambiente”.

    As conexões já evidentes nesse momento, também se ligaram ao momento de acendimento da tocha. O fogo, símbolo tão antigo que nos aquece e alimenta desde a Antiguidade, nos Jogos Olímpicos, é utilizado como símbolo de luz, energia, pureza, paz, amizade e de ligação entre os jogos antigos e os da era moderna (Comitê Olímpico Internacional, 2013). Esse mesmo fogo, apesar da sua simbologia tão nobre, tem força equivalente para destruir com violência. Dessa forma, precisamos estar atentos ao exemplo deixado no exercício de nossos papéis como professores, afinal, “tão importante quanto o ensino dos conteúdos é minha coerência na classe. A coerência entre o que digo, o que escrevo e o que faço.” (Freire, 2002, p.40). Contudo, à medida que a inteligência artificial avança, cresce a ilusória ideia de substituição do professor quando na verdade, “nada substitui o trabalho de um bom professor, de uma boa professora, na capacidade de juntar o saber e o sentir, o conhecimento e as emoções, a cultura e as histórias pessoais.” (Nóvoa; Alvim, 2022, p.6).

    O vídeo “Evolução das tecnologias na educação” corroborou com o exposto, reforçando os benefícios da tecnologia desde que a humanidade controlou o fogo e em contraponto, a necessidade da educação mais humana. Essa perspectiva nos fez questionar: quanto brilho da expressão humana estamos perdendo entre telas e algoritmos? Para intensificar a emoção do público, a última apresentação uniu música instrumental bem-marcada, representada pelas estudantes com gestos “robóticos” e uso de uma máscara branca – e depois da retirada das máscaras, “Imagine”, de John Lennon, que representa a esperança de paz na Terra e reafirma que as conexões verdadeiras dependem de SERMOS cada vez mais humanos.

    O fechamento da solenidade evidenciou a presença da tecnologia para além da melhoria de cada objeto ao longo do tempo: presente na história e evolução, as inovações tecnológicas foram criadas pelo ser humano para facilitar a nossa vida. Portanto, que sejamos também capazes de utilizá-la para nos aproximar. Porque, no final, é a presença humana que nos conecta à natureza, que nos faz sentir vivos e verdadeiramente conectados. 

     

    3 CONEXÕES

    A experiência fundamenta-se na perspectiva freireana de construção coletiva do conhecimento por meio do diálogo e da problematização a partir da realidade vivida no ambiente escolar. Dessa forma, o processo metodológico envolveu diferentes etapas: levantamento inicial das sugestões temáticas; diálogo; construção do tema norteador e do referencial teórico; seleção de músicas, elaboração das coreografias, ensaios e organização prévia do evento.

    O cerimonial de abertura foi planejado com base nessa estrutura e contemplou momentos protocolares, como o juramento dos atletas e apresentações artísticas. As coreografias, criadas e apresentadas pelos estudantes (com auxílio da professora de Educação Física) foram conectadas às músicas intencionalmente escolhidas para integrarem-se aos momentos reflexivos do texto lido pela cerimonialista e potencializados pela utilização dos vídeos. Nesse contexto, as tecnologias digitais alinhadas à leitura e à expressão corporal, foram incorporadas de forma crítica e mediada, tornando-se instrumentos pedagógicos que possibilitaram uma experiência estética, sensível e conectiva, capaz de favorecer reflexões mais profundas sobre o valor das relações humanas na era digital. Os registros foram realizados em vídeos e fotografias, além de cartas reflexivas sobre a vivência.

     

    4 QUANDO A ESCOLA SE TORNA ESPAÇO DE REFLEXÃO

    Os resultados, sentidos por cada sujeito e compartilhados através das emoções, evidenciaram uma vivência capaz de ampliar o olhar da comunidade escolar sobre o papel da tecnologia na educação e na vida das sociedades humanas.

    O cerimonial de abertura transformou-se, ultrapassando a dimensão esportiva e estética, e constituindo-se em um espaço de reflexão sobre valores humanos, saúde mental, multiculturalidade e consciência ambiental. Essas reflexões sentidas e também presentes nas cartas, conectadas à vida e ao movimento, provocaram questionamentos e revelaram potencialidades da utilização das tecnologias digitais integradas a valores ontológicos.

    A análise do evento mostrou que a relação estabelecida entre tecnologia, arte e reflexão crítica favoreceu aprendizagens significativas, pois revelou novos olhares e reflexões potentes, presentes nas falas, expressões emocionadas e participação ativa dos envolvidos. Essa percepção desvelou o potencial que a escola pode assumir na mediação crítica entre o mundo humano e o mundo digital em favor da aprendizagem mais significativa e de um planeta mais saudável para todos os seres que aqui habitam.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    A experiência evidenciou o potencial pedagógico de integrar tecnologia, esporte, arte e valores humanos em um mesmo momento, conectados à história, à problematização e à realidade vivida e sentida pelos sujeitos da comunidade escolar.

    Mais do que uma solenidade, a vivência revelou um novo caminho para os desafios que enfrentamos de aprender em um mundo tão conectado e ao mesmo tempo tão distante do que nos aproxima verdadeiramente. Esse caminho é continuar explorando as tecnologias digitais como instrumentos capazes de potencializar aprendizagens, otimizar nosso tempo, ampliar nossos olhares e inspirar novas práticas educativas emancipadoras, mediadas criticamente pela escola, unindo valores humanos, presença, diálogo e futuro.

     

    REFERÊNCIAS

     

    ALOK; MELIM. Somos (Official Music Video). [vídeo online]. YouTube, 7 set. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=F5aVOf-JWGU. Acesso em: 9 set. 2025.

     

    ANAVITÓRIA; RITA LEE. Amarelo, azul e branco (Visualizer) [vídeo online]. YouTube, 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GtvS897PiyQ. Acesso em: 10 set. 2025.

     

    COMITÊ OLÍMPICO INTERNACIONAL. The Olympic flame and the torch relay. Lausanne: The Olympic Museum, 3rd ed., 2013. 16 p.

     

    FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

     

    GÓMEZ, Ángel I P. Educação na era digital. Porto Alegre: Penso, 2015. E-book. p.16. ISBN 9788584290246. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788584290246/. Acesso em: 09 set. 2025.

     

    HISTÓRIAS MÁGICAS. A TERRA | CURTA-METRAGEM SOBRE O MEIO AMBIENTE. [vídeo online]. YouTube, s.d. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tjJvL8FP1IU. Acesso em: 10 set. 2025.

     

    LUZ FERNANDO. Vídeo de reflexão sobre troca de valores na sociedade atual. [vídeo online]. YouTube, 8 anos atrás. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Xm3VnM6kyt8. Acesso em: 9 set. 2025.

     

    NÓVOA, António; ALVIM, Yara. Escolas e professores: proteger, transformar, valorizar. Salvador: SEC/IAT, 2022. 116 p.

     

    À TODOS AQUELES QUE SONHAM E QUE PERMITEM SONHAR

    Obrigado por serem chão e horizonte (escola), inspiração e futuro (estudantes), razão e propósito (família), confiança e diálogo que conectam (amigos e orientador). Afinal, estar realmente conectado é aprender juntos, no mundo e com o mundo.

     

  • Palavras-chave
  • Educação. Educação Física. Tecnologias. Conexões. Valores.
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