MODELOS MENTAIS DE FUTUROS PROFESSORES SOBRE AS PRÁTICAS DE ENSINO ORIENTADAS AO CONSTRUTIVISMO NOS JOGOS ESPORTIVOS COLETIVOS

  • Autor
  • Ana Flávia Backes
  • Co-autores
  • Jéssica Dias Cardoso , Valmor Ramos , Juarez Vieira do Nascimento
  • Resumo
  •  

    1 INTRODUÇÃO

    A estrutura dos modelos mentais apresenta potencial de avanço na compreensão sobre a construção do conhecimento profissional dos futuros professores para o ensino dos JEC. Neste aspecto, a base conceitual Framework Theory of Conceptual Change – FTCC (VOSNIADOU, 1994), permite compreender as crenças não como unidades isoladas, mas conectadas a outras crenças ou conceitos dentro de um sistema conceitual inter-relacionado e dinâmico, composto por uma componente geral e uma componente específica, ou seja, uma estrutura conceitual complexa e relativamente coerente, fornecendo subsídios para interpretar a aprendizagem de conceitos pedagógicos sobre as práticas de ensino orientadas ao construtivismo nos JEC.

    Não há evidências sobre como os modelos mentais relativos ao ensino dos JEC são construídos por futuros professores de Educação Física. Sob influência do construtivismo, a Pedagogia do Esporte passou por uma mudança paradigmática (ENNIS, 2014), que deslocou o foco das abordagens centradas no professor (TCAs) para as centradas no aprendiz (LCAs) e no jogo (GCAs) (HARVEY; JARRET, 2014; FARIAS; MESQUITA, 2022). Essa transição resultou nas Práticas Baseadas em Modelos (MbPs) (CASEY; KIRK, 2020) e na definição de princípios pedagógicos orientados ao construtivismo (RAMOS et al., 2022; BACKES et al., 2023). A partir dessas novas perspectivas, torna-se essencial investigar a construção dos modelos mentais pelos futuros professores de Educação Física. Portanto, o objetivo do estudo foi descrever os modelos mentais dos futuros professores de Educação Física sobre as práticas de ensino orientadas ao construtivismo nos JEC.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    O estudo fundamenta-se na Framework Theory of Conceptual Change – FTCC (VOSNIADOU, 1994; 2013) e na estrutura dos modelos mentais propostos por Vosniadou e Brewer (1992; 1994), com base nas contribuições de Syrmpas et al. (2019) e Syrmpas e Digelidis (2020) no contexto da formação de professores de Educação Física. Além disso, apoia-se nas discussões da Pedagogia do Esporte sob a perspectiva construtivista (ENNIS, 2014; HARVEY; JARRET, 2014; FARIAS; MESQUITA, 2022), incorporando as proposições das Práticas Baseadas em Modelos – MbPs (CASEY; KIRK, 2020) e os princípios pedagógicos definidos por Ramos et al. (2022) e Backes et al. (2023).

    3 METODOLOGIA

    O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa transversal, de abordagem qualitativa (DENZIN; LINCOLN, 2018), que buscou descrever e interpretar os modelos mentais dos futuros professores de Educação Física mediante aos procedimentos de estudos de casos múltiplos (YIN, 2018). Participaram nove futuros professores de uma universidade pública da região sul do Brasil, distribuídos entre o início, meio e final do curso de Licenciatura em Educação Física, selecionados de forma intencional conforme critérios específicos relacionados à formação e à orientação construtivista (BACKES et al., 2022). A coleta de dados foi aprovada pelo Comitê de Ética (Parecer nº 4.802.198/2021) e realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, elaboração de mapas conceituais e entrevistas abertas.

    Os dados foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo (BARDIN, 2016), em processo dedutivo-indutivo composto pelas etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. A classificação dos modelos mentais seguiu a tipologia de Vosniadou (1994; 2013). O tratamento dos dados foi conduzido com o auxílio do software NVivo 10.0, sendo estabelecidos procedimentos de triangulação, checagem dos participantes e checagem interpesquisador, resultando em um índice de fidelidade de 99%, conforme o coeficiente de Tuckwell (1981) e Januário (1996). Em síntese, este resumo refere-se à descrição de dois dos estudos de caso realizados na pesquisa.

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Modelo mental sintético

    Nesta categoria, encontram-se dois futuros professores (Aurora e Senna), que estavam matriculados na 5ª fase do curso de formação inicial e apresentaram previamente níveis altos de orientação construtivista. Os modelos mentais destes participantes foram categorizados como sintéticos uma vez que os pressupostos ontológicos e epistemológicos eram consistentes com a perspectiva construtivista, os quais sustentaram a construção da componente específica coadunada aos conceitos científicos predominantes, mas apresentaram algumas crenças alternativas que não compactuavam com a coerência do seu modelo mental. Os modelos mentais sintéticos foram construídos tanto a partir de experiências antes do ingresso na formação inicial, no contexto escolar e esportivo, quanto em experiências em cursos de curta duração e ao longo da formação inicial.

    As evidências do presente estudo corroboram a investigação recente de cunho quantitativo sobre a tendência dos futuros professores de Educação Física brasileiros perceberem o ensino orientado ao construtivismo (Ver capítulo XVIII) e estudos de abordagem qualitativa sobre os modelos mentais e mudança conceitual na Educação Física (SINCLAIR; THRONTON, 2016; SYRMPAS et al., 2019; SYRMPAS; DIGELIDIS, 2020; BACKES et al., 2022) em que a maior parte dos futuros professores investigados apresentaram no primeiro ano do programa de formação inicial suposições relativamente coerentes com perspectivas de ensino cientificamente aceitas.

    Os futuros professores com modelo mental sintético manifestaram conceitos elementares sobre oportunizar a ‘construção de significados em conjunto’ mediante as negociações para as tomadas de decisão coletivas e as reflexões sobre os erros com o uso de questionamentos. A negociação de significados é um processo pelo qual os aprendizes chegam a níveis de compreensão sobre um dado tópico uns com outros, de modo que a ação pedagógica torna as negociações implícitas em explícitas (DARNIS; LAFONT, 2015; AARSKOG; BARKER; BORGEN, 2021). Por envolver a facilitação de processos cognitivos de ordem superior, como a compreensão, é possível justificar a maior complexidade de aprender este conceito dentro do princípio de ‘facilitar a cooperação social’. Diferentemente dos demais conceitos desta categoria que foram construídos inicialmente nas experiências de observação e relações sociais estabelecidas com os professores, treinadores e os pares antes do ingresso no curso de formação inicial, os futuros professores possivelmente construíram esse conceito em seu modelo mental sintético por tomarem consciência sobre os efeitos positivos da negociação de significados na sua aprendizagem, associadas às experiências de debates no curso de formação inicial.

    A influência particular dos pressupostos epistemológicos nas justificativas apresentadas pelos participantes parece ter restringido a construção de conceitos pedagógicos nesta categoria, de modo que somente os futuros professores com modelos mentais sintéticos (sintético-intuitivo e sintético) incorporaram de forma elementar os princípios de ‘auxiliar os aprendizes a relacionar novas informações ao conhecimento prévio’, ‘enfatizar o conteúdo tático’ e ‘enfatizar a compreensão’. Para tanto, os futuros professores interpretaram que ‘auxiliar os aprendizes a relacionar as novas informações ao conhecimento prévio’ significa aproximar o conteúdo da sua realidade, mencionando diferentes estratégias para a sua operacionalização. Particularmente no modelo sintético, os futuros professores mencionaram os jogos porque permitem resgatar a memória e trazer sentido à realidade do aprendiz. De fato, nas propostas de ensino emergentes dos JEC, o jogo é considerado um "organizador cognitivo" usado deliberadamente para auxiliar os aprendizes a resgatar, ativar e aprender informações, tornando-as familiares e significativas a fim de prepará-los para novos desafios de aprendizagem (PILL; HYNDMAN, 2018).

    Em ambos os modelos mentais sintéticos, o princípio de ‘enfatizar a compreensão’ estava relacionado ao processo de facilitar o entendimento dos objetivos, princípios e intencionalidades do jogo, manifestados a partir de tomadas de decisão adequadas e na capacidade de verbalizar, justificar, contestar e resolver problemas. Em conformidade com a literatura da área, a compreensão é, portanto, uma capacidade demonstrada frente aos problemas do jogo (PILL; HYNDMAN, 2018). O foco pedagógico deve centrar-se nas oportunidades em que os aprendizes devem explicar, resolver um problema, elaborar um argumento, uma vez que elas permitem que os aprendizes demonstrem o nível de compreensão atual, como também o expandem para um nível de compreensão mais profundo sobre o jogo (CASEY; KIRK, 2020).

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Sob a influência dos pressupostos ontológicos, os futuros professores construíram conceitos relacionados ao princípio de facilitar a construção ativa do conhecimento e a cooperação social ao passo que os pressupostos epistemológicos restringiram a construção de conceitos sobre o princípio de facilitar a relevância pessoal, com implicações na sua interpretação e aprendizagem pelos futuros professores. A construção dos modelos mentais sintéticos, foram associadas às reflexões, aos debates e aos conflitos cognitivos vivenciados pelos futuros professores antes e durante o curso de formação inicial.

    As implicações das evidências do presente estudo para a formação de professores concentram-se em fornecer suporte aos futuros professores no desenvolvimento da consciência metaconceitual, a partir de situações intencionalmente planejadas para tornarem explícitas as suposições gerais que trazem consigo ao ingressar no programa de formação inicial, a respeito da natureza do ensino e aprendizagem e formação do conhecimento no ensino dos JEC. Essas experiências, acompanhadas de situações de conflito cognitivo que permitam aos futuros professores observar, testar e experimentar a incompatibilidade entre as suas visões de mundo e a epistemologia inerente à teoria científica predominante, podem contribuir para projetar a aprendizagem de conceitos específicos. Neste processo, sugere-se que os professores formadores introduzam conceitos potencialmente significativos e coerentes com o conhecimento prévio dos futuros professores, com atenção particular aos possíveis equívocos que podem ser gerados no processo de aprendizagem, a fim de contribuir para a construção de modelos mentais científicos.

    No sentido de contribuir com a ampliação das investigações sobre os modelos mentais no âmbito do ensino dos JEC, futuros estudos podem concentrar-se na sua descrição ao longo de diferentes etapas do curso, considerando outros domínios da Educação Física ou dos esportes (ex: aprendizagem de conceitos táticos dos JEC), tanto no cenário brasileiro e internacional.

    REFERÊNCIAS

    AARSKOG, E.; BARKER, D.; BORGEN, J. ‘When it’s something that you want to do.’Exploring curriculum negotiation in Norwegian PE. Physical Education and Sport Pedagogy, p. 1-14, 2021.

    BACKES, A. F. et al. Pedagogical principles of constructivist-oriented teaching practices in team sports. Journal of Physical Education, v. 34, n. 1, 2023

    BACKES, A. F.; RAMOS, V.; COSTA, M. D. L.; RISTOW, L. et al. Exploring beliefs about teaching sports: an approach to conceptual change in teacher education. Movimento, 28, p. e28012, 2022.

    BACKES, Ana Flávia et al. Fontes de crenças de futuros professores de Educação Física sobre o planejamento e a avaliação no ensino dos jogos esportivos coletivos. Caderno de Educação Física e Esporte, v. 20, 2022.

    CASEY, A.; KIRK, D. Models-based practice in physical education. London: Routledge, 2020.

    DARNIS, Florence; LAFONT, Lucile. Aprendizagem cooperativa e interações diádicas: dois modos de construção do conhecimento em contextos socioconstrutivistas para o ensino de esportes coletivos. Educação Física e Pedagogia do Esporte , v. 20, n. 5, p. 459-473, 2015.

    DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (Eds.). The SAGE handbook of qualitative research. 5. ed. Los Angeles: SAGE, 2018.

    ENNIS, C. D. What Goes Around Comes Around … Or Does It? Disrupting the Cycle of Traditional, Sport-Based Physical Education. Kinesiology review, v.3, n. 1, p. 63-70, 2014.

    FARIAS, C.; MESQUITA, I. Learner-Oriented Teaching and Assessment in Youth Sport. New York: Routledge, 2022.

    HARVEY, S.; JARRETT, K. A review of the game-centred approaches to teaching and coaching literature since 2006. Physical Education and Sport Pedagogy, v. 19, n. 3, p. 278- 300, 2014.

    JANUÁRIO, C. Do pensamento do professor à sala de aula. Coimbra: Livraria Almedina, 1996.

    PILL, S.; HYNDMAN, B. Gestalt psychological principles in developing meaningful understanding of games and sport in physical education. Journal of Teaching in Physical Education, v. 37, n. 4, p. 322-329, 2018.

    RAMOS, A.; AFONSO, J.; COUTINHO, P.; BESSA, C. et al. Appropriateness-Based Activities: Reaching Out to Every Learner. In: FARIAS, C. e MESQUITA, I. (Ed.). Learner[1]Oriented Teaching and Assessment in Youth Sport. New York: Routledge, 2022. p. 75-8

    SINCLAIR, Christina; THORNTON, Leonard Jay. Exploring preservice teachers’ conceptions after ‘living a hybrid curriculum’. European Physical Education Review, v. 24, n. 2, p. 133-151, 2016. DOI: https://doi.org/10.1177/1356336X16669331

    SYRMPAS, I. et al. Greek preservice physical education teachers’ mental models of production and reproduction teaching styles. European Physical Education Review, v. 25, n. 2, p. 544- 564, 2019.

    SYRMPAS, I.; DIGELIDIS, N. Examining physical education teachers’ and pre-service physical education teachers’ knowledge related to reproduction and production Teaching Styles through the Framework Theory of Conceptual Change. In: SUESEE, B.; HEWITT, M.; PILL, S. (Eds.). The Spectrum of Teaching Styles in Physical Education. London: Routledge, 2020. p. 139-151.

    TUCKWELL, Neil B. Content analysis of stimulated recall protocols. Centre for Research in Teaching, Faculty of Education, University of Alberta, 1981.

    VOSNIADOU, S. Capturing and modeling the process of conceptual change. Learning and Instruction, v.4, n.1, p. 45–69, 1994.

    VOSNIADOU, S. Conceptual Change in learning and instruction: the framework theory approach. In: VOSNIADOU, S (Ed.). International Handbook of Research on Conceptual Change. 2nd ed. New York: Routledge, 2013b

    VOSNIADOU, S.; BREWER, W. F. Mental models of the day/night cycle. Cognitive science, v. 18, n. 1, p. 123-183, 1994.

    VOSNIADOU, S.; BREWER, W. F. Mental models of the earth: A study of conceptual change in childhood. Cognitive psychology, v. 24, n. 4, p. 535-585, 1992. 276

    YIN, Robert K. Case study research and applications: Design and methods. London: Sage, 2018

  • Palavras-chave
  • Modelo Mental; Formação Inicial; Educação Física; Ensino; Construtivismo; Jogos Esportivos Coletivos
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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