Grupo de Trabalho (GT): Psicologia Política
Modalidade do trabalho: Comunicação oral
Formato de apresentação: On-line
Autor: Fernando Coura Assis
Orientadora: Marilene Proença Rebello de Souza
Palavras-chave: Educação; Sujeito; Controle; Emancipação; Michel Foucault; Paulo Freire.
O presente trabalho tem como objetivo investigar o papel da escola na constituição do sujeito moderno, articulando as reflexões de Michel Foucault e Paulo Freire sob a perspectiva da Psicologia Política. A pesquisa parte da hipótese de que a educação, enquanto prática social e política, opera entre dois polos — o controle disciplinar e a emancipação crítica —, que coexistem de forma tensa e produtiva.
Na obra foucaultiana, a escola é compreendida como um dispositivo de poder que fabrica corpos dóceis e sujeitos disciplinados (Foucault, 2014). Já em Paulo Freire (1987; 1996), a educação se configura como uma prática de liberdade, voltada à conscientização e à superação das relações opressoras. Essas duas perspectivas, quando colocadas em diálogo, permitem compreender a educação como um campo de forças, onde se produzem e disputam subjetividades.
A relevância deste estudo reside na possibilidade de compreender a escola não apenas como espaço de transmissão de saberes, mas como território de poder e resistência, onde se forjam identidades e se exercitam práticas políticas de controle e libertação. No campo da Psicologia Política, a análise da educação enquanto processo de subjetivação é fundamental para repensar as condições de formação do sujeito contemporâneo e as possibilidades de emancipação social e ética.
O referencial teórico articula duas linhas centrais: o poder disciplinar foucaultiano e a pedagogia libertadora freireana.
Em Vigiar e Punir (Foucault, 2021), o autor descreve a emergência de dispositivos disciplinares nas sociedades modernas, caracterizados pela vigilância, pela normalização e pelo exame. A escola, ao lado da prisão, do hospital e da fábrica, é um desses espaços privilegiados de produção de subjetividades ajustadas à ordem social. A disciplina, segundo Foucault (2014), não se reduz à repressão: ela é produtiva, pois fabrica comportamentos, corpos e modos de ser. Assim, o poder educacional não atua apenas “de cima para baixo”, mas se infiltra nas práticas cotidianas e nas relações interpessoais, moldando o sujeito a partir de dentro.
Por outro lado, Freire (1987) propõe uma concepção de educação radicalmente oposta à lógica da domesticação. Em Pedagogia do Oprimido, o autor critica a “educação bancária”, que reduz o aluno a um recipiente passivo de conteúdos, e defende uma pedagogia dialógica e emancipadora. Para Freire (1996), ensinar é um ato político, e toda prática educativa implica uma tomada de posição diante das relações de poder que estruturam a sociedade. O diálogo, a problematização e a práxis constituem os pilares dessa pedagogia da liberdade.
Enquanto Foucault analisa os modos de sujeição e os mecanismos de poder, Freire aponta caminhos para a autonomia e a conscientização. Ambos convergem ao compreender que o sujeito é histórico e relacional: ele se constitui nas interações sociais, nos discursos e nas práticas.
Outros autores complementam essa discussão. Vygotsky (2007) entende o desenvolvimento humano como processo mediado socialmente, destacando o papel das interações e da linguagem na formação do pensamento. Gramsci (2000) contribui com a noção de hegemonia, ao enfatizar que a escola é também um espaço de disputa ideológica, no qual se forja o “consenso” social. Veiga-Neto (2011) aproxima Foucault da Educação ao demonstrar como a escola moderna materializa práticas de normalização e exclusão sob o pretexto de formar cidadãos.
Além disso, Arroyo (2011) ressalta a importância de reconhecer os sujeitos concretos da escola — crianças, jovens e educadores — como portadores de trajetórias, identidades e resistências. Essa perspectiva crítica é aprofundada por Proença (2010), que, ao discutir a Psicologia Escolar e Educacional, evidencia o papel da psicologia como instrumento de transformação social, desnaturalizando desigualdades e práticas excludentes.
Em síntese, o referencial teórico sustenta que a educação, longe de ser neutra, é um campo político de produção de subjetividades. Ao mesmo tempo em que disciplina e regula, pode também abrir brechas para a criação, o diálogo e a emancipação.
A pesquisa é de natureza qualitativa e teórico-bibliográfica, fundamentada em uma análise documental interpretativa. Foram revisadas as principais obras de Michel Foucault e Paulo Freire, além de estudos secundários que discutem a relação entre educação, poder e subjetivação.
A metodologia adotada consiste na análise comparativa entre os conceitos de poder e subjetivação em Foucault e os de diálogo e conscientização em Freire. Essa leitura cruzada foi realizada à luz da Psicologia Política, campo que busca compreender as relações entre subjetividade, ideologia e práticas sociais (Proença, 2010).
O estudo também se apoia em documentos educacionais e políticas públicas brasileiras, analisados sob a ótica foucaultiana da governamentalidade. A abordagem interpretativa visa compreender como os discursos pedagógicos e psicológicos contribuem para a constituição de um “sujeito educado”, simultaneamente submisso e autônomo.
Os resultados da análise indicam que a escola é um espaço de ambiguidade, onde coexistem mecanismos de controle e possibilidades de resistência. Inspirando-se em Foucault (2021), compreende-se que a instituição escolar é um dos principais dispositivos de poder da modernidade, pois organiza o tempo, o espaço e os corpos, instaurando regimes de visibilidade e normalização.
No entanto, mesmo nesse contexto disciplinar, emergem práticas de resistência e criação. A partir de Freire (1987), observa-se que a educação pode se tornar instrumento de libertação quando o diálogo e a reflexão crítica substituem a obediência e a repetição. A consciência crítica, enquanto processo de humanização, transforma o educando em sujeito ativo de sua história.
Essa leitura dialética entre controle e emancipação permite reinterpretar o papel da escola e da Psicologia Política na contemporaneidade. O poder não é apenas repressivo, mas também produtivo — ele fabrica sujeitos capazes de agir sobre si mesmos. A emancipação, portanto, não se opõe ao poder, mas o reinscreve em práticas éticas de autonomia e reflexão (Foucault, 2014).
O cruzamento entre as teorias de Foucault e Freire revela que o sujeito educado é simultaneamente efeito e agente das relações de poder. Ao se apropriar criticamente das normas e discursos que o constituem, o sujeito se emancipa, transformando a obediência em consciência e a norma em ação ética.
Além disso, os aportes de Proença (2010) e Arroyo (2011) reforçam que a Psicologia Escolar e a Educação Crítica devem reconhecer a pluralidade dos sujeitos e romper com visões homogeneizadoras. A emancipação não se dá por decreto, mas pelo reconhecimento das diferenças, pela escuta e pela práxis coletiva.
O diálogo entre Michel Foucault e Paulo Freire possibilita compreender a educação como espaço de tensão entre poder e liberdade. De um lado, o poder disciplinar molda corpos e subjetividades para a adaptação às normas sociais; de outro, a prática pedagógica crítica busca abrir caminhos para a autonomia e a transformação.
A constituição do sujeito educado, portanto, envolve processos simultâneos de sujeição e emancipação. A Psicologia Política, ao investigar essa ambivalência, contribui para desnaturalizar o papel da escola e propor novas formas de pensar a relação entre saber, poder e subjetividade.
Conclui-se que repensar a educação sob essa perspectiva é fundamental para fortalecer práticas pedagógicas comprometidas com a justiça social, a ética e a democracia. O sujeito educado que emerge desse processo é aquele capaz de reconhecer-se como produto e produtor da história — consciente das forças que o moldam, mas também capaz de reinventá-las.
Assim, o estudo reafirma a importância de uma educação crítica e emancipatória, na qual o poder seja compreendido não como imposição, mas como potencial criador de liberdade e de novos modos de existência.
ARROYO, Miguel. Educação e exclusão: abordagens críticas. Petrópolis: Vozes, 2011.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2021.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
PROENÇA, Marilene. Psicologia Escolar e o compromisso social: reflexões e práticas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.
VEIGA-NETO, Alfredo. Foucault & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.
VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.