Quando a Literatura transforma: do letramento literário à formação humana integral

  • Autor
  • Ana Paula Pereira Villela
  • Co-autores
  • Raquel Cardoso de Faria e Custódio
  • Resumo
  • RESUMO EXPANDIDO

     

    Grupo de Trabalho (GT): Educação Profissional e Tecnológica

    Modalidade do trabalho: comunicação oral 

    Formato de apresentação: presencial


     

    QUANDO A LITERATURA TRANSFORMA: DO LETRAMENTO LITERÁRIO À FORMAÇÃO HUMANA INTEGRAL

     

    PALAVRAS- CHAVE: literatura; letramento literário; ensino médio integrado.

     

    1 INTRODUÇÃO

     A proposta deste trabalho é demonstrar a importância da literatura no espaço da educação profissional e tecnológica como agente de transformação e aliada na formação humana integral. Para além de promover o letramento literário e incentivar a leitura literária, encontramos na literatura parte essencial da formação a que se propõe o Ensino Médio Integrado, ou seja, temos buscado contribuir para a formação integral e integrada proposta pelos IFs. Além disso, o processo de letramento literário objetiva promover a interação e a integração dos estudantes dos variados níveis de ensino e cursos, cumprindo com a verticalização proposta. A partir dos resultados observados, fomos articulando intervenções nas práticas pedagógicas, que não se limitaram a ver a literatura apenas como fonte de história e cultura, mas sim como textos potentes em sua significação que podem extrapolar as interpretações e levar ao autoconhecimento. 


    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    A necessidade de criar lugares de leitura literária como possibilidade de pôr em marcha um “veículo de conscientização social e fonte de prazer estético” (Tinoco, 2013) se mostra premente porque o cenário em que estamos imersos reivindica esforços e dedicação em proporcionar aos estudantes espaço para desenvolver a leitura de si e do mundo, num exercício articulado e processual. Além disso, estamos instalados em uma instituição comprometida com a formação integral e integrada, mas, como postula Frigotto (2011) no prefácio da obra “Filosofia da práxis e didática da educação profissional”, nos vemos diante do desafio de desarticular o sistema dual (colonial/escravocrata) existente em nossa sociedade, fundada na concentração de renda e propriedade, na qual a identidade é marcada pelo mimetismo, gerando a cultura da cópia e que não espera de seus cidadãos ações cientes e conscientes, mas sim o cultivo das superficialidades e dos engodos de enlevos fugazes. Frente a tais falácias se aprofundam a falta de criticidade e o descompromisso com as responsabilidades cidadãs diante do mundo e de si próprio. Por isso, negligenciar a lacuna gritante da leitura literária na escola se converte em colaborar com esse sistema que beneficia poucos. 

    Sabemos que é cada vez mais urgente a necessidade de trazer à tona a importância da literatura como elemento da formação humana, da leitura literária na formação integral e do letramento literário como processo de aprendizagem. Para alcançar isso, não objetivamos a imposição da literatura e da leitura literária única e exclusivamente como obrigação curricular, “mas como disposição de uma chance única, cujo acesso às exigências da vida cotidiana tendem a vedar.” (Perrone, 2006, p. 28) e quando pensamos no estudante do ensino médio integrado isso toma uma outra dimensão, visto que sua formação se dá também visando o mundo do trabalho.

    Entendemos que a experiência estética necessita de um lugar para crescer e florescer; no entanto, as urgências das “juventudes” (Dayrell, 2003) acabam por distanciá-las das oportunidades de viver o que a literatura proporciona. Assim, buscamos manter o incentivo à leitura literária no campus São Bento do Sul como forma de promover a autonomia intelectual e a participação cidadã, pilares do trabalho realizado nos Institutos Federais. Para isso, é fundamental que o espaço reservado para essa promoção permita que os estudantes possam estabelecer relações de mudanças e, a partir delas, contestar suas certezas, resultando no exercício do senso crítico e do ser social.

    A literatura, em conceito apresentado por Cosson (2014, p. 12), “é plena de saberes sobre o homem e o mundo [...] tem o poder de se metamorfosear em todas as formas discursivas. Ela também tem muitos artifícios [...]. A literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar e a expressar o mundo por nós mesmos”. Logo, ao pensar que nosso público atravessa um “processo [que] é influenciado pelo meio social concreto no qual se desenvolve e pela qualidade das trocas que este proporciona” (Dayrell, 2003, p. 42), a literatura se converte em lugar de encontros com o mundo em que estão inseridos e outros a serem desvelados. Falamos desde um lugar específico, o ensino médio integrado, que tem em seu propósito a formação integral e integrada, visamos “a formação omnilateral [...] para compreensão do mundo do trabalho e inserção crítica e atuante na sociedade” e se tomarmos a ideia de que a literatura, como dito anteriormente,  é “plena de saberes” essa, por sua vez, contribuirá para a formação omnilateral em um espaço de identificação, porque “no conhecimento humano, nem sempre ciência, técnica e tecnologia são separadas, elas se complementam e se alimentam mutuamente na produção de bens necessários à existência humana, embora possamos diferenciá-las para fins de análise” (Pacheco, 2012, p. 10), aqui indo ao encontro da ideia candida de que a literatura nos humaniza. Ao observar o prefácio de “Como e por que ler”, notamos a importância da leitura dentro dessa perspectiva humanizadora que não se dissocia da formação técnica, pois Bloom (2001, p. 15) assevera: “Não existe apenas um modo de ler bem, mas existe uma razão precípua por que ler [...] é o mais benéfico dos prazeres. Ler conduz à alteridade, seja a nossa própria ou a de nossos amigos, presentes ou futuros. Literatura de ficção é alteridade”, e nesse espaço de alteridade construímos o olhar produzido pela leitura literária que colabora na formação de um outro que abriga um universo de possibilidades, abrangendo o conhecimento humano. Por isso, propiciamos o contato permanente com obras da literatura brasileira e hispano-americana autênticas e integrais, criando o espaço de alteridade.

    Ademais, a leitura não se fundamenta apenas naquilo encerrado em um olhar único, mas em uma busca incessante que pode e deve desencadear novas significações. Além disso, não se destina apenas ao âmbito do real, mas também aos “devaneios e desatenções”, dado que “[...] toda leitura tem [...] uma parte constitutiva de subjetividade” (Jouve, 2013, p. 53), ou seja, buscamos essas linhas tênues entre o real e a subjetividade. 

    Concordamos com Cosson (2014) quando afirma que a simples leitura de uma obra literária não é condição suficiente para que os estudantes sejam capazes de fruir todo o potencial humanizador desse ato. Para ele, é indispensável que essa leitura seja compartilhada em uma comunidade de leitores. Nesse processo de ler, buscar sentidos, manter diálogos com o mundo e com o outro, compartilhar impressões de leitura, o letramento literário é essencial.

    Na escola, a leitura literária tem a função de nos ajudar a ler melhor, não apenas porque possibilita a criação do hábito de leitura ou porque seja prazerosa, mas sim, e sobretudo, porque nos fornece, como nenhum outro tipo de leitura faz, os instrumentos necessários para conhecer e articular com proficiência o mundo feito linguagem (Cosson, 2014, p. 30).

    Dessa forma, a escolha de estratégias que contemplem o coletivo e o individual como círculos de leitura, oficinas literárias, leituras dramatizadas, ilustrações e a escrita criativa (para experienciar e estabelecer relações reflexivas entre leitura e escrita) são privilegiadas nesse processo de letramento literário, comprometido com a formação cidadã e a inclusão social. Pretendemos que nossas ações continuem contribuindo não apenas com a formação profissional dos nossos estudantes, mas também com a promoção de uma formação integral e integrada. 

    3 METODOLOGIA

    A metodologia que temos utilizado baseia-se nos círculos de leitura (Cosson, 2018), que se estruturam a partir da proposta da sequência básica (Cosson, 2014), cuja organização se inicia com a escolha do texto literário; seguida da motivação à leitura; conhecimento da obra e do autor; leitura propriamente dita; interpretação e discussão do texto lido. Os encontros têm duração de aproximadamente uma hora e acontecem quinzenalmente, de abril a novembro, às terças-feiras no auditório do campus ou em outros espaços de convivência. Em reuniões periódicas, selecionamos o gênero a ser lido; geralmente iniciamos com crônicas, pois são textos mais curtos e abordam situações do cotidiano com as quais os jovens podem se vincular. Em seguida, passamos à leitura de contos de variadas temáticas, os quais sempre conquistam o interesse dos leitores. Também há espaço para a leitura de poemas, esquetes, enfim, buscamos a diversidade de temáticas e autores da literatura brasileira e hispano-americana, tanto do cânone como contemporâneos, pois é muito importante que faça parte do repertório de leituras obras que estiveram e ainda estão marginalizadas, assim valorizamos grupos cuja cultura foi ignorada, esquecida ou apagada. Alguns autores lidos este ano foram Luis Fernando Verissimo, Rubem Fonseca, Horacio Quiroga, Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles, Conceição Evaristo. A cada encontro a frequência dos estudantes é registrada, assim mensuramos o interesse pelo projeto a partir da assiduidade deles; em 2025, a média tem sido de 60 participantes. Para encerrar os encontros, uma atividade é sugerida, por exemplo, leituras dramatizadas de esquetes, dinâmica do telefone sem fio, reescrita de um novo final para a narrativa lida, inclusão de um novo personagem na história e seu impacto no enredo. Essas ações regulares e contínuas promovidas nos círculos de leituras têm contribuído para aprofundar a compreensão do texto lido, propiciar a prática da escrita criativa, promover a interação com os textos literários e aprofundar os laços entre os participantes. 

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Desde o início das ações do projeto de ensino há seis anos, os participantes têm vivenciando a leitura literária em suas várias dimensões e percebido que a diversidade contemplada na Literatura e as vivências propiciadas por ela podem despertar seu potencial transformador e humanizador. Por meio das estratégias que utilizamos, como os círculos de leitura, as leituras dramatizadas, a prática da escrita criativa, entre outras metodologias, estamos solidificando o processo de letramento literário que hoje está instituído no campus São Bento do Sul, atraindo os novos estudantes e ampliando os horizontes daqueles que já participam das ações que visam a formação humana integral. Os resultados estão sendo mensurados pela frequência aos encontros e esse controle mostra que a cada ano o número de   participantes aumenta gradativamente. Além disso, outro resultado das ações desenvolvidas, foi a publicação de dois guias, um voltado para docentes e outro para estudantes. Nesses guias apresentamos as sequências didáticas realizadas em variados encontros, mas sob uma perspectiva diferente para cada um deles. Os professores podem replicá-las e adaptá-las ao seu contexto; e os estudantes, de maneira interativa, desenvolvem sua autonomia de leitura. Temos ressignificado a literatura para os estudantes ao relacionar as descobertas com todas as outras dimensões do ser, inclusive a do mundo do trabalho, contribuindo para a formação de cidadãos cientes e conscientes, comprometidos e responsáveis por si e pelo outro. Lançando mão de projetos de ações integradas, de ensino e de extensão,  indiretamente, estamos aprimorando sua capacidade de leitura, compreensão, interpretação e produção de textos nos demais componentes curriculares. Assim, reiteramos que a literatura é parte fundamental da formação humana dos estudantes do Ensino Médio Integrado.

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Ressignificar a literatura para os estudantes dos variados níveis de ensino, levando-os ao autoconhecimento e também a uma intimidade maior com a língua materna é primordial para a formação humana pretendida. A partir dos variados gêneros literários, autores e autoras do cânone e fora dele, os participantes têm vivenciado esse processo de letramento literário e percebido que a diversidade contemplada na Literatura, aliada às experiências propiciadas por ela podem despertar seu potencial transformador e humanizador. Por meio das estratégias  utilizadas, como os círculos de leitura, as leituras dramatizadas, a prática da escrita criativa, entre outras metodologias, esperamos solidificar o processo de letramento literário que hoje já está instituído no campus São Bento do Sul,  colaborando com a formação humana integral.

    REFERÊNCIAS 

    BLOOM, Harold. Como e por que ler. Trad. José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001.

    COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed. 4ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2014. 

    COSSON, Rildo. Círculos de leitura e letramento literário. 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2018. 

    DAYRELL, Juarez. O jovem como sujeito social. In.Revista Brasileira de educação. Set/Out/Nov/Dez 2003, No 24, p. 42-50.

    FRIGOTTO, Gaudêncio. Os circuitos da história e o balanço da educação no Brasil na primeira década do século XXI. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, v.16, n.46, jan./abr. 2011, pp. 235-254.

    JOUVE, Vincent. A leitura como retorno a si: sobre o interesse pedagógico das leituras subjetivas. In: ROUXEL, A.; LANGLADE, G.; REZENDE, N. L. (org.). Leitura subjetiva e ensino de Literatura. São Paulo: Alameda, 2013. p. 53-65. 

    PACHECO, Eliezer. (org.). Perspectivas da educação profissional técnica de nível médio: propostas de diretrizes curriculares nacionais. São Paulo: Moderna, 2012.

    PERRONE-MOISÉS, Leila. Literatura para todos. Literatura e Sociedade, [S. l.], v. 11, n. 9, p. 16-29, 2006. DOI: 10.11606/issn.2237-1184.v0i9p16-29. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ls/article/view/19709. Acesso em: 6 jun. 2024. 

    TINOCO, Robson Coelho. Percepção do mundo na sala de aula: leitura e literatura. In: DALVI, Maria Amélia; REZENDE, Neide Luzia de; JOVER-FALEIROS, Rita (org.). Leitura de literatura na escola. São Paulo: Parábola, 2013.

  • Palavras-chave
  • literatura, letramento literário, ensino médio integrado.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
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