CULTURA, ARTE E EDUCAÇÃO

  • Autor
  • Luis Flavio Reis Godinho
  • Co-autores
  • Rosana Soares
  • Resumo
  •  

    Grupo de Trabalho (GT): GT 6 - Arte e Educação

    Modalidade do trabalho: comunicação oral

    Formato de apresentação:  online

     

    CULTURA, ARTE E EDUCAÇÃO

     

    Luís Flavio Reis Godinho[1]

     

    Rosana Soares[2]

     

    PALAVRAS-CHAVE: museu virtual; mascarados afro-americanos; cultura; educação.

     

    1 INTRODUÇÃO

    O texto se refere a construção de um acervo online dos chamados Mascarados Afro-americanos de Acupe, Saubara e dos Zambiapungas de Nilo Peçanha e Taperoá, é parte de um projeto de pesquisa iniciado em 2017[3] e se mostra fundamental na luta pela sobrevivência destes grupos culturais centenários, a partir da socialização dos saberes unindo culturas, arte e educação. A observação dos festejos e o estudo de materiais publicados possibilitou identificar nas relações entre o cortejo, sua história e o trabalho como cultura, memórias político-identitárias no interior de cada grupo social, onde a partilha se torna o elo de sustentação dessas manifestações culturais, e a educação um dos caminhos para a sustentabilidade da cultura.

    Os zambiapungas estão presentes em cinco localidades distintas do Baixo Sul da Bahia: Cairú, Nilo Peçanha, Taperoá, Ilha de Boipeba e Valença, as caretas além desta região, também estão presentes na região do Recôncavo da Bahia. Como estas práticas culturais, nas quais as indumentárias construídas e apreendidas de forma ancestral são disseminadoras das narrativas e tradições que construíram e constroem estas coletividades. Suas máscaras de argila "tabatinga" cinza - localizáveis em certo tipo de rio das cercanias das localidades -, revestidas em papel marche; saias de fibra de piaçava e indumentárias de folhas de bananeira seca; casacos feitos de cabaça; seus panos de chita e cetim; os capacetes improvisados em formato cônico e revestidos de papel de seda franjado multicores quentes; búzios gigantes colhidos no mar de Boipeba e de Nilo Peçanha se transformam em instrumentos de sopro, enquanto as lâminas da enxada -usadas no plantio de mandioca, piaçava, dendê, frutas como cupuaçú - tiram sons percussivos ao chocarem- se com pregos e outros metais. Tudo isso, harmonizado pela cama sonora proporcionada por tambores rústicos feitos com troncos de árvore da mata nativa - escavados com formão rústico local - e cobertos com peles curtidas de bode adquiridas na Feira de São Joaquim ou doado por algum terreiro de Angola do território. Cuícas ancestrais quadradas denominadas " Berra Boi". Toda esta ludicidade e confluência de cores, formas e sons refletem uma cultura ancestral que resistiu e resiste, rompe o silêncio e afirma sua beleza, autoestima e sabedoria que estão parcamente escritas nos livros e são pouco ilustradas nas telas, mas que pulsam e nos contam muitas histórias e nos ajuda a nos reconhecermos.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    Os cortejos presentes nos grupos culturais têm diferentes origens históricas. Os Zambiapungas de Nilo Peçanha na Bahia vinculam-se a dimensões culturais e religiosas provenientes do continente africano, dos povos de língua Banto. O termo derivou do vernáculo banto Zamiapombo, deus supremo dos candomblés de alguns países, como Angola e Congo. Zambi ou Nzambi-a-Mpungu é o Deus supremo de povos bantos do Baixo Congo (Castro, 2001) . A população local volta sua atenção para a lembrança de seus mortos que são homenageados com flores, velas e missas, mas com o tempo o caráter religioso enfraqueceu. O Zambiapunga ficou inativo em Nilo Peçanha cerca de 20 anos sendo revitalizado em 1982 pela professora Lili Camardelli. Mas só em 1996 foi registrado enquanto entidade, como Organização Não Governamental (ONG)

    São mais ou menos 70 mascarados que fazem parte da Associação do Grupo Folclórico Cultural Zambiapunga fundado em 1985 em Nilo Peçanha. Uma curiosidade do grupo é o laço de parentesco que existe entre eles, já que a grande maioria faz parte de um mesmo núcleo familiar. Dessa forma, dá-se continuidade a uma tradição herdada de pai para filho originada dos antigos mestres da cultura popular da região.

    Segundo Carvalho (2020) a festa, atualmente tem um caráter lúdico e identitário, com forte base territorial, ainda que ancestralmente esteja vinculada a fenômenos mágicos e religiosos de matriz africana, com mais de 200 anos de expressão naquelas localidades pertencentes à Capitania de Ilhéus, desde o Brasil oitocentista. Nesse ínterim, heranças africanas, catolicismo, escravidão no período imperial e religiosidades bantu, mesclam-se a espíritos antepassados e aos ligados a entes humanos falecidos do território.

    No que se refere as manifestações de Saubara - BA, destaca-se a ritualística do cortejo pelas ruas da cidade do grupo Caretas do Mingau, mulheres que se vestem de branco com rosto coberto e distribuem o alimento a quem abrir a porta na madrugada de 02 de julho. Igualmente centenária, a manifestação tem origem nas irmandades religiosa de mulheres que lutaram pela independência da Bahia.

    Em Acupe de Santo Amaro - BA, o grupo cultural Nego Fugido revive em cenário a céu aberto o processo da luta contra a escravidão, revivendo com muito batuque e encenação teatral momentos delicados da história de um Brasil escravocrata.

    A manifestação cultural em sua diversidade compõe o cenário brasileiro, confere-se particularidades a partir da sua ancestralidade e influência cultural. Na Bahia, os grupos culturais resistem por todos os cantos em sua riqueza partilhada. Podemos afirmar que o acesso às manifestações como Zambiapunga de Nilo Peçanha pela literatura, documentário, teses e dissertações (muito importantes) não dão conta da magnitude do rito.  O ritual, vive-se feito um brincante. Por fim, compreende-se o entrelaçamento das memórias, identidades culturais e ancestralidades negras no interior do fazer cultural.

     

     

    3 METODOLOGIA

    A pesquisa em torno dos festejos e as raízes culturais dos grupos citados possibilitou a coleta de um acervo importante, entre fotos, objetos e relatos em vídeo. Todo esse material será disponibilizado de forma gratuita a partir da Criação do "Museu Digital de Manifestações Culturais Negras de origem banto do Corredor Acupe-Saubara e Baixo Sul", com a disponibilização gratuita de acervo de mais de 500 fotos artísticas e registros fotográficos jornalísticos feitos por parceiros autônomos da área de produção cultural, 3000 peças em esculturas, artes plásticas, poesias e dispositivos e objetos de cultura material sobre a cultura afrodiaspórica popular de Acupe e Saubara, localidades de Santo Amaro da Purificação no Recôncavo da Bahia e no território do Baixo Sul, notadamente em Taperoá, Nilo peçanha, Valença e Cairú, terras de zambiapungas. Além disso, Banco de Dados com 20 entrevistas originais - já transcritas - com mestres e mestras idosos (as) sexagenários (as) até a faixa de atores centenários (as) das expressões artísticas tri-centenárias negro-populares do Recôncavo e Baixo Sul da Bahia no portal e redes sociais da pesquisa. Entende-se o potencial desse acervo como possível material pedagógico especialmente nas aulas de arte.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    A disponibilização do acervo a partir do museu virtual traz visibilidade além fronteira das conexões entre processos de fabrico de indumentárias, instrumentos sonoros e aspectos identitários de uma manifestação cultural de origem banto nos territórios do Recôncavo e Baixo Sul da Bahia. Para isso, delimitamos o caso dos Mascarados Afro-americanos de Acupe e Saubara e dos Zambiapungas de Nilo Peçanha e Taperoá, ao estudarmos as relações entre o cortejo, sua história, o trabalho com cultura e as memórias político-identitárias no interior do grupo social. Sistematizamos como se processa a relação entre memória, trabalho e vidas ocupacionais negras no campo cultural e a importância da encenação visual para a autoestima e a continuidade das suas narrativas e tradições transmitidas de forma oral, visual e cênica ao longo de mais de um século.

    A produção de pequenas pílulas audiovisuais de três minutos, com mestres da cultura, pode contribuir para maior interesse da juventude no que toca a participação na manifestação cultural. Em suma, esse projeto busca fortalecimento da autoestima artística, visual, estética e das formas de produção ancestral de origem banto no território do Baixo Sul e Recôncavo da Bahia. Poucos participantes atuais sabem produzir tambores ancestrais, tocar búzios, elaborar máscaras de papel marche, confeccionar capacetes, elaborar roupas com piaçava e folhas de banana seca. Assiste-se também ao crescimento do fenômeno de mascarados que utilizam materiais fabricados em indústrias como máscaras e roupas elaboradas de borracha, espuma, componentes eletrônicos e cultura estética de massa, convivendo nesse sentido a tradição secular e a massificação moderna não tradicional, em contexto de desequilíbrio desfavorável no tocante à ancestralidade. Alguns grupos já não possuem instrumentos sonoros ancestrais, e no caso de outros, a indumentária não conta mais com produção tradicional. O sortilégio da tradição ainda é central, pois a festa conta em seu cortejo principal, oficial e primaz com os mascarados tradicionais e o material existente já catalogado, da sustentação a praticas pedagógicas ricas, em um processo de troca entre a comunidade e a escola.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    A parceria entre universidade, escola e comunidade comporta laços de resistência cultural. Saberes socializados ganham formas em diferentes suportes, desde a fotografia e o vídeo até a reprodução de objetos oriundos das atividades laborais dos grupos na construção dos ritos. Disponibilizar toda essa produção de forma gratuita através do museu virtual é um ganho intelectual a todos os grupos envolvidos, a universidade, aos artistas, a comunidade escolar e aos brincantes em geral.

     

    REFERÊNCIAS

    CARVALHO,CRISTINA   ASTOLFI.   Caretas   e   zambiapungas:   a   influência centro-africana na cultura do Baixo Sul (BA) e a história da região. Dissertação apresentada   ao   Programa   de   Pós-   Graduação   em   História   Social   do Departamento   de   História   da   Faculdade   de   Filosofia,   Letras   e   Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para a obtenção do título de Mestre em História Social. 2020. 261 f

    PESSOA   DE   CASTRO,  Yeda.   Falares   africanos   na   Bahia:   um vocabulário   afro-brasileiro.   Rio   de   Janeiro:   Topbooks/Academia Brasileira de Letras, 2001

     

    AGRADECIMENTOS  

    Aos grupos culturais envolvidos no projeto: Zambiapunga, Caretas do Mingau, Mascarados de Acupe e Nego Fugido.

     

    [1]  Doutor em Sociologia, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Cachoeira, Bahia, Brasil, godinho@ufrb.edu.br

    [2]  Doutora em Educação, Universidade Federal de Pelotas/UFPel, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, rosana.soares@ufpel.edu.br

    [3] Projeto Motirô – parceria institucional entre UFRB e PUC/Rio

     

  • Palavras-chave
  • museu virtual; mascarados afro-americanos; cultura; educação.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 6 - Arte e Educação
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