EDUCAÇÃO NÃO FORMAL NA EPT: UMA REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE OS DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA A FORMAÇÃO INTEGRAL DOS TRABALHADORES
PALAVRAS-CHAVE: Educação não formal. Educação Profissional e Tecnológica. Trabalho. Princípio educativo.
1 INTRODUÇÃO
A educação não formal tem ganhado destaque nos debates educacionais contemporâneos por sua potencialidade de promoção de aprendizagens significativas fora dos espaços escolares vistos como tradicionais. Nesse sentido, espaços como museus, ONGs, associações comunitárias, movimentos sociais, projetos culturais e ambientes digitais trazem se consolidando como importantes mediadores na formação de sujeitos críticos para uma sociedade cada vez mais complexa e interconectada.
Diferentemente da educação formal, que segue currículos e normas institucionais, e da educação informal, que ocorre de maneira espontânea nas interações cotidianas, a educação não formal possui a intencionalidade pedagógica, oferecendo experiências de aprendizagem planejadas, porém sem a força do currículo escolar convencional (Gohn, 2006).
De modo geral, há um consenso entre estudiosos e pesquisadores do campo educacional de que a educação formal é aquela inserida em um sistema estruturado de ensino, especialmente desenvolvido em instituições como escolas e universidades (Gohn, 2014; Marandino, 2017). Já a educação informal se manifesta nas interações cotidianas, especialmente no ambiente familiar, sendo um processo contínuo ao longo da vida, responsável por moldar atitudes, comportamentos e valores (Gohn, 2014; Marandino, 2017).
Nesse contexto, a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) se apresenta como um campo frutífero para a inserção da educação não formal, pois lida com uma diversidade de assuntos, saberes e realidades sociais, envolvendo tanto o trabalho técnico profissional como o compromisso com a transformação social.
A discussão sobre educação não formal na EPT não deve, portanto, restringir-se às atividades complementares, mas ser entendida como uma estratégia formativa potente, que vincula os estudantes a experiências de luta, participação política e vivências territoriais.
Apesar da notória importância dessa temática para a formação integral da classe trabalhadora, as pesquisas no âmbito da EPT, no que se refere aos espaços não formais, ainda se mostram insuficientes. De acordo com a revisão de literatura, realizada em junho de 2025, no Observatório do Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica em Rede (ProfEPT), no período de 2018 a 2025, apenas quatro dissertações continham o descritor “espaços não formais” no título. Esse resultado demonstra a necessidade de realização de novas pesquisas acadêmicas que ampliem e discutam a temática.
Este trabalho, portanto, visa contribuir para o enriquecimento do debate, apresentando uma análise crítica sobre como a educação não formal se manifesta no cotidiano da EPT, especialmente em ações ligadas a movimentos sociais, sindicais e estudantis, com ênfase na concepção do trabalho como princípio educativo.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
A educação não formal pode ser compreendida como aquela que, mesmo com intencionalidade pedagógica, ocorre em espaço educativo alternativo às instituições formais de ensino, ou seja, fora da estrutura escolar. Esses espaços podem abarcar dimensões formativas diversas, priorizando a aprendizagem coletiva, relacionada ao mundo cotidiano e voltada para a ação (Gohn, 2014).
Segundo Gohn (2009, 2014) e Marandino (2017), a educação não formal se distingue por sua flexibilidade e por se desenvolver em ambientes plurais, como movimentos sociais, associações comunitárias e coletivos culturais. Nesses espaços, o aprendizado ocorre de forma participativa e contextualizada, valorizando saberes oriundos da experiência e da coletividade.
Gomes e Lima (2021) acrescentam que esses espaços contribuem de maneira significativa para uma proposta de educação emancipadora, ao favorecer o desenvolvimento da consciência social dos estudantes por meio de experiências concretas relacionadas ao mundo do trabalho.
No âmbito da EPT, tal perspectiva se alinha à concepção do trabalho como princípio educativo, conforme defendido por Saviani (2008), que, a partir de uma leitura marxista, compreende o trabalho como atividade formativa e humanizadora. Nesse sentido, trabalho e educação possuem uma relação intrínseca, contribuindo para a formação integral dos sujeitos.
Assim, a educação não formal, quando articulada a essa concepção, contribui para a formação crítica e integral dos sujeitos, ampliando o alcance da EPT para além dos currículos oficiais e consolidando-se como prática social e política voltada à emancipação humana.
3 METODOLOGIA
A metodologia que guiou este estudo foi a revisão crítica de literatura, a partir das obras que fundamentaram o componente curricular "Espaços não formais de educação na EPT" do Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT).
A revisão bibliográfica, embasada nas perspectivas teóricas dos autores, permitiu-nos refletir criticamente sobre os conceitos mais relevantes do tema e suas aplicações, identificando potencialidades e gargalos da educação não formal na EPT, a partir do estudo de experiências de educação não formal realizada pelo no Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (SINASEFE) e pelo Grêmio Estudantil do IFSC, câmpus Jaraguá do Sul.
Desse modo, foi possível estabelecer diálogos entre teoria e prática no processo formativo dos pesquisadores, sob a perspectiva do trabalho como princípio educativo.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados observados, a partir da análise de experiências de educação não formal na EPT, revelam a potência transformadora de espaços organizados fora da lógica institucional tradicional.
A atuação do SINASEFE é um exemplo expressivo. O sindicato promove práticas formativas de caráter político e educativo em todo o país, como grupos de trabalho, encontros temáticos e processos de mobilização e greve, configurando-se como experiências exitosas de educação não formal. Essas ações fortalecem a consciência de classe dos trabalhadores da educação e promovem aprendizagens coletivas e emancipatórias (Gohn, 2009; 2014).
Essa dimensão educativa também se estende aos movimentos sociais estudantis e coletivos ligados a minorias sociais que atuam dentro das instituições da EPT — como grêmios, coletivos LGBTQIA+, de mulheres, negros, indígenas e quilombolas. Esses espaços autônomos constituem importantes formas de resistência e aprendizagem crítica (Gomes e Lima, 2021).
Um exemplo concreto é a ação do Grêmio Estudantil do IFSC – Câmpus Jaraguá do Sul, com o evento Agita Grêmio (junho de 2025), voltado à diversidade e ao respeito à comunidade LGBTQIA+. Essa iniciativa promoveu atividades formativas abertas à comunidade, revelando como a educação não formal pode emergir de forma sensível e propositiva, respondendo a contextos sociais urgentes e promovendo a formação crítica no cotidiano escolar. Tais práticas ampliam o currículo prescrito e transformam o ambiente educativo em espaço de reflexão crítica e ação política, materializando a práxis educativa defendida por Saviani (2008).
Apesar de sua relevância, a educação não formal enfrenta desafios estruturais e culturais dentro da EPT: falta de reconhecimento institucional, escassez de políticas públicas específicas e preconceitos que deslegitimam esses espaços como ambientes de aprendizagem. Ainda assim, mesmo diante dessas tensões, é preciso considerar a educação não formal como parte integrante de um projeto educativo mais amplo, que reconheça os sujeitos em sua pluralidade e promova a articulação entre conhecimento técnico, formação política e compromisso social (Marandino, 2017).
Nesse sentido, como destacado por Saviani (2013) em suas Onze Teses sobre Educação e Política Educacional, é preciso superar concepções reducionistas que limitam o trabalho à lógica da empregabilidade e da adaptação ao mercado. O desafio está em reconhecer que, nos espaços não formais, o trabalho educativo acontece por meio de práticas sociais significativas, nas quais estudantes e trabalhadores se reconhecem como sujeitos históricos. Tais vivências não apenas contribuem para a formação técnica e intelectual, mas também para o desenvolvimento de uma consciência de classe e de um posicionamento ético diante das contradições sociais. Valorizar essas experiências no âmbito da EPT é, portanto, afirmar uma concepção de educação comprometida com a transformação social e com os interesses da classe trabalhadora.
Ao articular-se à concepção do trabalho como princípio educativo (Saviani, 2008), a educação não formal transcende o papel complementar e se afirma como dimensão essencial da formação integral, promovendo experiências que unem o fazer, o pensar e o agir coletivo.
Além das questões já apontadas, é importante destacar como esses espaços contribuem para a articulação entre o saber escolar e os desafios concretos da vida social. Ao explorarem temas como direitos humanos, gênero, diversidade, meio ambiente e justiça social, os coletivos estudantis ampliam o currículo escolar prescrito e transformam o ambiente educativo em um espaço de reflexão crítica e ação política concreta, materializando dessa maneira o sentido de práxis educativa defendido por Saviani (2008).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise realizada, conclui-se que a educação não formal exerce um papel essencial na formação integral dos sujeitos da EPT, ao proporcionar experiências que ultrapassam os limites da sala de aula e se ancoram na realidade social, cultural e política dos estudantes.
As ações do SINASEFE e do Grêmio Estudantil do IFSC demonstram a potência dos espaços não formais como instâncias legítimas de formação crítica e cidadã. Embora muitas vezes desvalorizados pelas estruturas formais, tais espaços são fundamentais para o desenvolvimento da consciência de classe e para o fortalecimento do vínculo entre conhecimento técnico, prática social e compromisso ético com a transformação da realidade.
A educação não formal, articulada à concepção de trabalho como prática educativa (Saviani, 2008), amplia a compreensão do processo educativo ao reconhecer o trabalho em sua dimensão ontológica, histórica e pedagógica. Os espaços de participação política, mobilização, diálogo e construção coletiva contribuem para uma formação que não se limita à lógica da empregabilidade, mas que visa a emancipação dos sujeitos e a superação das desigualdades estruturais.
Defende-se o aprofundamento de políticas institucionais que reconheçam, integrem e fortaleçam as vagas não formais no interior da EPT. Também é necessário fomentar pesquisas que explorem mais profundamente as relações entre educação, trabalho e formação política nos Institutos Federais, dando visibilidade às práticas educativas contra-hegemônicas e promovendo uma articulação efetiva entre movimentos sociais, sindicatos e instituições de ensino.
Valorizar a educação não formal é, portanto, considerar que a formação humana integral não se encerra nos currículos oficiais (apesar de defendermos a importância da democratização dos saberes), mas se realiza no cotidiano da luta, da resistência e da construção coletiva do conhecimento que parte do saber curricular, mas que se transforma em ação e, assim, culmina na transformação concreta da realidade social.
REFERÊNCIAS
GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Ensaio : Aval. Pol. Pública. Educ. , Rio de Janeiro, v. 14, n.50, jan./mar. 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ensaio/a/s5xg9Zy7sWHxV5H54GYydfQ/?format=pdf. Acesso em: 1 jun. 2025.
GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal, educador(a) social e projetos sociais de inclusão social. Meta: Avaliação, v. 1, pág. 28-43, jan./abr. 2009. Disponível em: https://revistas.cesgranrio.org.br/index.php/metaavaliacao/article/view/1/5. Acesso em: 09 jun. 2025.
GOHN, Maria da Glória. Educação não formal, aprendizagens e saberes em processos participativos. Investigar em Educação , IIª Série, n. 1, pág. 35-50, 2014. Disponível em?: https://epale.ec.europa.eu/sites/default/files/gohn_2014.pdf. Acesso em: 09 jun. 2025.
GOMES, Jarbas Maurício; LIMA André Suêldo Tavares de. OS ESPAÇOS NÃO-FORMAIS DE ENSINO EA PRÁTICA PEDAGÓGICA NO ENSINO MÉDIO INTEGRADO. Revista Humanidades & Inovação . 8 n. 53, pág. 365-379, jul 2021. Disponível em: https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao/article/view/5935. Acesso em: 28 abr. 2025.
MARANDINO, Marta. Faz sentido ainda propor a separação entre os termos educação formal, não formal e informal? Ciência & Educação , v. 4, pág. 811-816, 2017. Disponível em?: https://www.scielo.br/j/ciedu/a/cmjvH7v4mFZMsdjV5bWLJfM/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 09 jun. 2025.
SAVIANI, Demerval. Escola e democracia . Edição comemorativa. Campinas: Autores Associados, 2008 - (Coleção educação contemporânea).