VOZES NEGRAS NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA: LITERATURA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO INSTITUTO FEDERAL CATARINENSE
Ana Paula Pereira Villela
Raquel Cardoso de Faria e Custódio
PALAVRAS-CHAVE: Literatura negro-brasileira, Relações étnico-raciais, EPT.
A proposta deste trabalho é demonstrar como a literatura negro-brasileira pode impactar as relações étnico-raciais no espaço da educação profissional e tecnológica. A partir da realização do Projeto de Ensino “Falas que ecoam silêncios do passado” no Instituto Federal Catarinense (IFC), campus São Bento do Sul, apresentamos, de forma efetiva e sistemática, o valor estético da Literatura Negro-brasileira, com o propósito de valorização da diversidade, promoção da igualdade racial e social e do respeito às diferenças. A importância de criarmos um espaço de reflexão sobre as relações étnico-raciais, a partir da leitura de obras literárias de autoria negra, deu-se em função do propósito dos Institutos Federais em promover uma formação integrada e omnilateral. Além disso, justificou-se pelo fato de nosso campus estar localizado em uma região onde, infelizmente, os casos de racismo são frequentes; no ambiente escolar, inclusive. Assim, constatamos a necessidade de promover um espaço, no qual as relações étnico-raciais pudessem ser discutidas e desse modo fomentar o debate dentro e fora da instituição. Ao ecoar as vozes negras, por tanto tempo silenciadas, objetivamos propagar a diversidade literária por meio da literatura negro-brasileira na formação profissional e tecnológica.
Ao se pensar no compromisso assumido pela Rede Federal de Ensino que propõe uma educação gratuita, de qualidade e inclusiva, não podemos nos furtar em debater, a partir da leitura das obras literárias, sobre a diversidade e refletir sobre as relações étnico-raciais. A necessidade de se oferecer um espaço no ambiente escolar para se conhecer a literatura negro-brasileira se justifica pela lei 10.639/03, que institui a obrigatoriedade do ensino da História da África, da cultura afro-brasileira e indígena no currículo escolar do ensino fundamental e médio (BRASIL, 2004). Ainda, as Diretrizes para a Educação Profissional Técnica Integrada ao Ensino Médio (Resolução 16/2019) do IFC preconizam, em seu artigo 28: “Cada curso deverá atender plenamente à legislação vigente no que se refere aos seguintes conteúdos e temas transversais obrigatórios: I - ao estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena” (IFC, 2019, s/p). Assim, o projeto atendeu às diretrizes legais. O olhar para as obras dos autores negro-brasileiros deve contemplar a criticidade em todos seus atributos literários, mas também questões étnico-raciais como o racismo, o alijamento cultural, a marginalidade, a identidade, a subalternidade. Urge desvincular a ideia de que se o autor é negro seu tema será o racismo, então só interessa aos negros. Falácia racista e reproduzida no silenciamento desses autores dentro dos programas estudantis de todas as esferas. Diante do exposto e ao observar a Lei 10.639/03, percebemos que, mesmo 22 anos depois, ainda há um silenciamento das autoras e autores negros nesse ambiente. Segundo Cosson (2014, p. 17),
A literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar e a expressar o mundo por nós mesmos. [...] ela é a incorporação do outro em mim sem renúncia da minha própria identidade. No exercício da literatura, podemos ser outros, podemos viver como os outros, podemos romper os limites do tempo e do espaço de nossa experiência e, ainda assim, sermos nós mesmos.
Levando isso em consideração, as ações realizadas propiciaram aos participantes a descoberta da potência da literatura desses escritores silenciados sistemática e estruturalmente. Também é importante que os Institutos Federais combatam o epistemicídio, termo cunhado pela intelectual Sueli Carneiro (2005), que abarca o resultado da supressão dos autores negros dentro das instituições de ensino.
O epistemicídio faz parte de um processo estrutural de deslegitimação da literatura negro-brasileira, o qual necessita de desconstrução e, para isso, faz-se necessário comprometimento, não só dos que sofrem com o racismo e silenciamento de sua cultura, mas da sociedade como um todo. Para isso, o “maior engajamento de pessoas brancas e das instituições comprometidas com a promoção, defesa e garantia dos direitos humanos na luta antirracista” são fundantes, em especial na região em que se situa nosso campus do IFC, onde o racismo se mostra em suas mais variadas vertentes e graus “que desumaniza, que nega a dignidade a pessoas e a grupos sociais com base na cor da pele, no cabelo, em outras características físicas ou da origem regional ou cultural” (Carreira, 2018, p.128). Nesse sentido, nosso projeto de ensino mostrou-se fundamental para levar a comunidade escolar a identificar e refletir sobre como o racismo estava veladamente presente no ambiente institucional.
Nossa proposta foi contribuir para a promoção da leitura literária como estratégia eficaz para ecoar esses silêncios do passado e evitar o silenciamento atual, trazendo à luz seu vigor, além de valorizar as contribuições desse grupo de escritores para a literatura e cultura brasileira.
Inicialmente foi realizada uma revisão sistemática em bases de dados como SciELO, portal CAPES, “Cadernos Negros”, o portal da literatura Afro-brasileira “literafro” da Universidade Federal de Minas Gerais para o levantamento de obras e artigos que versavam sobre a literatura negro-brasileira. Para a organização dos encontros propostos baseamo-nos no conceito de letramento literário de Cosson (2014), mais especificamente na sequência básica, que se estrutura em motivação, introdução, leitura e interpretação. A etapa da introdução, que corresponde à apresentação dos autores e de suas obras, foi reveladora, pois o silenciamento dessas vozes negras se evidenciou. Pouquíssimos participantes conheciam a maioria dos escritores e escritoras que foram apresentados. Exceção feita aos canônicos Machado de Assis, Lima Barreto e o catarinense Cruz e Sousa.
Para nortear o funcionamento dos encontros, optamos por realizar círculos de leitura, pois são “[...] basicamente um grupo de pessoas que se reúnem em uma série de encontros para discutir a leitura de uma obra” (Cosson, 2018, p. 157) e compartilhar suas experiências e também um lugar para discussões.
Foram realizadas leituras de obras do cânone e contemporânea de autores negro-brasileiros para trazer ao espaço pedagógico/educacional uma parcela da população que teve (e ainda tem) seu discurso, sua arte, sua cultura negligenciadas nas ementas, currículos e materiais didáticos. Ao longo de 18 meses, a obra de 13 autores e autoras foi lida, analisada, discutida, pois nosso propósito era propiciar a fruição estética dos textos, não usá-los unicamente como pretexto para a reflexão a respeito das relações étnico-raciais. Naturalmente, elas aconteceram, pois os participantes foram sensibilizados pela voz presente nos poemas de Solano Trindade, Cristiane Sobral, Carlos de Assumpção, Éle Semog, Ricardo Aleixo; nos contos de Conceição Evaristo, Lima Barreto, Machado de Assis, Cuti e nos romances de Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus e Ana Maria Gonçalves. Denotando a potência da literatura negra-brasileira e o quanto é importante a discussão das relações étnico-raciais no ambiente da educação profissional e tecnológica. Especialmente porque entendemos que todas as instituições de ensino, os institutos federais, particularmente, têm em sua missão participar na construção de saberes diversos e de um mundo equitativo, menos excludente, contribuindo dessa forma com a formação profissional humanizadora, permitindo ecoar todas as vozes.
As leituras propostas, as ações desenvolvidas e os impactos educacionais, culturais e éticos da proposta promoveram a reflexão estética das obras, a valorização da diversidade e o respeito às diferenças. Além disso, trouxemos para o ambiente de formação profissional técnica e tecnológica uma formação integral e omnilateral, na qual as discussões sobre as relações étnico-raciais, a partir das leituras de autores negro-brasileiros, propiciaram aos participantes o reconhecimento de si e do outro e de seu papel na construção de uma sociedade mais justa, igualitária e equitativa.
Os resultados advindos dessas atividades se refletiram nos membros do projeto e nos participantes ao compartilharem suas impressões de leituras; discussões sobre o silenciamento e apagamento da cultura, das histórias e das próprias obras; engajamento aos objetivos propostos, possibilitando que falas, antes silenciadas, agora ecoem e sejam ouvidas e (re)conhecidas.
Portanto, ao término das ações desenvolvidas no projeto, constatamos que é possível romper o silenciamento das vozes negras na literatura e a partir da experiência de leitura literária e da apreciação estética, contribuir para a formação omnilateral proposta pelos institutos federais e também promover uma educação antirracista.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Parecer no 003/2004, de 10 de março de 2004. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Relatora: Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. Brasília: MEC, jul.2004.
CARREIRA, Denise. O lugar do sujeito branco na luta antirracista. Revista SUR 28, v. 15, n. 28, p. 127-137, 2018.
CARNEIRO, Aparecida Sueli; FISCHMANN, Roseli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Educação) - FEUSP. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.
COSSON, Rildo. Círculos de leitura e letramento literário. 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2018.
Instituto Federal Catarinense (IFC). Diretrizes para a Educação Profissional Técnica Integrada ao Ensino Médio. Resolução 16/2019. Disponível em: https://ifc.edu.br/wp-content/uploads/2017/09/Resolu%c3%a7%c3%a3o-16.2019-Diretrizes-ANEXO.pdf. Acesso em: 07 ago. 2020.