RESUMO EXPANDIDO
LITERATURA, LEITURA LITERÁRIA E TIK-TOK: PRÁTICAS EDUCATIVAS NO ENSINO MÉDIO INTEGRADO
1. Introdução
Segundo George Steiner (2017), “aqueles que queimam livros, que banem e matam poetas sabem exatamente o que fazem. Seu poder é incalculável”. Considerando um dos objetivos dos Institutos Federais, que é a formação integral, a pesquisa intitulada “Literatura, leitura literária e TikTok: prática educativa para o ensino médio integrado” buscou compreender os movimentos criados pela rede social TikTok em relação à literatura brasileira e à leitura literária, tendo em vista o alcance dessa plataforma entre os estudantes.
O “poder incalculável”, destacado por Steiner (2017), refere-se àqueles que impedem o acesso aos livros, constituindo parte de um projeto que combina o arcaico da colonização e do processo escravista com os avanços tecnológicos que, quando apropriados privadamente, ampliam a concentração de propriedade e riqueza nas mãos de poucos grupos (Frigotto, 2023, p. 11). Diante desse cenário, é fundamental que a sociedade se aproprie dos avanços tecnológicos, pois eles também fazem parte de nossos direitos como cidadãos. A leitura, por sua vez, nos instrumentaliza para nos opormos a esse poder.
A importância do ato de ler, conforme Freire (1989), está na promoção de uma percepção crítica e na capacidade de “re-escrita do lido” na realidade — um exercício para a vida. Todorov (2009) exemplifica: “[a literatura] me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e permite melhor compreendê-las”. Assim, a literatura amplia nosso universo e nos convida a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Esse exercício não deve ser restrito apenas aos poucos que se interessam espontaneamente por ela.
Ao observarmos além dos muros escolares, percebemos um intenso movimento de incentivo à leitura nas redes sociais, especialmente no TikTok, onde uma ampla comunidade de booktokers cria estratégias criativas para atrair leitores de todos os gêneros literários. São vídeos curtos, de até cinco minutos, nos quais jovens e adultos compartilham preferências, opiniões e recomendações. Essas informações e opiniões buscam incentivar a leitura, seja por gosto pessoal, seja por patrocínios.
Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo identificar os booktokers brasileiros e suas indicações de literatura brasileira e estrangeira, bem como os gêneros e estratégias utilizadas como incentivo à leitura literária, a fim de repensar e enriquecer práticas educativas no ensino de literatura no Ensino Médio Integrado, com vistas à formação integral dos estudantes.
O TikTok, segundo seu site oficial, tem como missão encorajar a imaginação humana, promovendo a expressão criativa e o enriquecimento cultural. Assim, as contas voltadas à leitura literária podem contribuir significativamente para práticas educativas relacionadas ao ensino da literatura.
As novas gerações estão cada vez mais familiarizadas com o conhecimento em formatos breves e dinâmicos. Entretanto, a leitura literária exige tempo, atenção e certa solitude. Essa diferença de ritmos cria um espaço de tensão, mas também de oportunidade.
No prefácio de Como e por que ler, Bloom (2001, p. 15) afirma: “Não existe apenas um modo de ler bem, mas existe uma razão precípua por que ler [...] é o mais benéfico dos prazeres”. A leitura conduz à alteridade, tanto a nossa quanto a dos outros. Assim, é necessário compreender os novos caminhos que se formam com as tecnologias de comunicação e as práticas digitais.
Cosson (2014, p. 12) reforça que “a literatura é plena de saberes sobre o homem e o mundo [...] tem o poder de se metamorfosear em todas as formas discursivas. Ela também tem muitos artifícios [...]. A literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar e a expressar o mundo por nós mesmos”.
Portanto, buscar formas não tradicionais de incentivo à leitura é essencial, especialmente aquelas acessíveis aos estudantes — muitas vezes “na palma da mão”. A integração entre cultura digital e letramento literário pode promover um olhar mais humanizado e crítico sobre o mundo, articulando cultura, tecnologia e educação.
A presente pesquisa, de natureza translacional, visou aplicar estratégias de caráter básico em direção a resultados práticos, estabelecendo uma ponte entre a pesquisa teórica e a aplicada. Seu objetivo foi gerar práticas educativas implementáveis na comunidade acadêmica e, potencialmente, em outras instituições de ensino.
Quanto à abordagem, a pesquisa teve caráter quantitativo em sua fase inicial — dedicada à análise do universo das redes sociais — e será complementada, em fase posterior, por uma abordagem qualitativa, que permitirá a transposição das descobertas em práticas pedagógicas.
Em relação aos objetivos, trata-se de uma pesquisa exploratória. Foram utilizados procedimentos como a pesquisa bibliográfica, para compreender o estado da arte sobre o tema, e a netnografia, definida como “uma adaptação da metodologia de pesquisa etnográfica para ambientes digitais” (Pereira; Monteiro, 2021, p. 82). Essa metodologia permite compreender aspectos culturais de comunidades no ciberespaço, conciliando observação participante com as especificidades da interação online, como acessibilidade, anonimato e arquivamento (Kozinets, 2014, p. 60).
A coleta de dados seguiu as etapas de planejamento, entrada, coleta e interpretação, possibilitando compreender como se dá a presença da literatura brasileira no TikTok. Ressalta-se que a parte qualitativa da pesquisa ainda está em desenvolvimento.
Os resultados iniciais indicam que a presença da literatura — especialmente a brasileira — no TikTok ainda é limitada. Foram identificados menos de dez criadores dedicados exclusivamente à divulgação de obras e autores nacionais, o que demonstra um espaço pouco explorado na plataforma.
Ao incluir perfis que abordam literatura brasileira e estrangeira, observou-se um número expressivo de influenciadores com alto engajamento: entre 10 e mais de 100 criadores com mais de um milhão de curtidas, e cerca de 80 com índices entre 500 mil e 999 mil. Ainda assim, a literatura nacional raramente ocupa posição central nesses conteúdos.
A análise revelou que o algoritmo da plataforma favorece conteúdos de apelo visual e emocional, o que restringe o alcance de produções literárias mais reflexivas. Essa lógica de visibilidade baseada em tendências, e não em relevância cultural, constitui um obstáculo à difusão da literatura brasileira.
Por outro lado, o TikTok se mostra um espaço fértil de mediação cultural, especialmente quando utilizado criticamente por educadores. A análise sugere que a apropriação pedagógica da plataforma pode ampliar o contato dos estudantes com a literatura e favorecer práticas de convivência democrática, ao estimular o diálogo, o respeito à diversidade de interpretações e o protagonismo juvenil.
Conclui-se que o TikTok pode ser incorporado ao ensino de literatura como uma ferramenta de mediação cultural, desde que aliado a uma prática pedagógica consciente de seus limites e potencialidades.
A baixa representatividade da literatura brasileira na plataforma representa tanto um desafio quanto uma oportunidade de ampliar o repertório cultural dos estudantes. A articulação entre literatura, cultura digital e ensino integrado contribui para formar leitores críticos e protagonistas de sua experiência estética e social, reafirmando a escola como espaço de convivência democrática e de formação integral.
BLOOM, Harold. Como e por que ler. Trad. José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed., 4. reimpr. São Paulo: Contexto, 2014.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. ed. São Paulo: Cortez, 1989.
FRIGOTTO, Gaudêncio (org.). Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia: relação com o ensino médio integrado e o projeto societário de desenvolvimento. Rio de Janeiro: UERJ/LPP, 2018.
FRIGOTTO, Gaudêncio (org.). O ensino médio no Brasil e sua (im)possibilidade histórica. Rio de Janeiro: UERJ/LPP, 2023.
KOZINETS, Robert V. Netnografia: realizando pesquisa etnográfica online. Trad. Daniel Bueno. Porto Alegre: Penso, 2014.
PEREIRA, A. A. S.; MONTEIRO, J. C. S. “Jornalismo no TikTok, check!”. Revista Latino-Americana de Estudos Científicos, v. 2, n. 12, 2021. ISSN 2675-3855.
STEINER, George. A morte da tragédia. São Paulo: Perspectiva, 2017.
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: Difel, 2009.