ENTRE BATUQUES E OLHARES: SAMBA, POESIA E JUVENTUDES

  • Autor
  • Marília Gabriella Borges Machado
  • Resumo
  •  

    1 INTRODUÇÃO

    “Lá no alto do morro tem roda de samba que a minha tristeza parece que bamba, você chega perto eu começo a cantar... Filha de mãe guerreira e do pai do ferro joga capoeira, macumba, mistério, oi abre a roda e deixa ela passar... Contra ditadura foi mulher guerreira, dentro do terreiro n'é de brincadeira, oi cuidado moço ela vai sambar... Sente a força do vento e da sua voz, na roda de samba cante por nós e a alegria não deixe faltar... Pode me faltar dinheiro, até moradia, sabe os Orixás talvez minha comida, mas o meu samba vai continuar” (Kevin, 9º ano).

     

    Sobrevivência ou existência? É uma das indagações que há sete anos faço diariamente. Desde que me tornei professora de Sociologia, diversas vezes, nas minhas vivências em sala de aula, acordei de um sonho e vivi a realidade escolar em suas piores formas e diversos tipos de violência para comigo, com a escola, com estudantes, funcionários, colegas professores e gestores.

    O ambiente escolar é violento. Não é raro observar ataques disfarçados de piadas, de olhares, de comentários e até mesmo de violência física e verbal. A violência é reproduzida no cotidiano e faz parte da lógica individualista que vivemos, sendo mais um dos impactos do capital na vida de quem vive em um país de capitalismo periférico. A estrutura física que aprisiona, o conteúdo que não liberta, a restrição ao uso de banheiro e a água, a precarização do trabalho docente e as juventudes, em grande medida, desinteressadas.

    Mas, há um lugar profundamente subversivo que, se bem trabalhado, não reproduz a lógica burguesa e violenta do capital: a sala de leitura. Em meios aos livros e aos diversos projetos enviados pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) que os professores articuladores do projeto devem, obrigatoriamente, realizar, é possível construir uma experiência distinta com os estudantes.  

    Enquanto relato de experiência, ofereço ao leitor a possibilidade de vislumbrar algumas das minhas ações enquanto professora articuladora de uma sala de leitura de uma escola estadual no interior de São Paulo, durante o primeiro semestre de 2025[1]. Durante meu trabalho neste ambiente escolar realizei 07 ações - Órgão Central (obrigatórios da Seduc-SP) -, em andamento[2] 05 ações Órgão Central, 08 ações da Escola, 03 em andamento e 01 não iniciada.

    Estes[3] são os títulos dessas ações, mas ressalto que para a realização foi necessária a permissão da gestão, assim como apoio de muitos docentes e interesse dos estudantes. Nos diversos encontros com os estudantes, foram realizadas oficinas de leitura, de escrita (os estudantes publicaram um livro de receitas populares e memórias afetivas), de dança – movimento -, de música, de rima, além da construção de uma escuta ativa que proporcionou acolhimento e, consequentemente, um ambiente mais saudável.

    A sala de leitura movimenta a escola e vai contra o interesse da hegemonia burguesa e se torna instrumento de um espírito de cisão, pois traz vida aos conteúdos digitalizados e às metodologias ativas americanizadas. Os estudantes saem das telas e das plataformas multimilionárias para ter contato real com a vida, com as músicas, para fazer cultura crítica e popular, para escrever e ler. O objeto de cultura – o livro – sai da esfera do imaginário, do inacessível e se populariza.

    Este texto, quase um suplício acadêmico e narrativo, surge como uma denúncia contra as demissões em massa de professores atuantes em salas de leitura do estado de São Paulo, demitidos por darem atestado médico superior a dois dias. Também tem um papel apelativo no que diz respeito ao não sucateamento da educação pública que visa destruir todos os espaços críticos escolares, inclusive a sala de leitura.

    Na metodologia será levado ao conhecimento uma das experiências que mais marcaram minha vida profissional durante sete anos de docência: a participação de estudantes do 9º ano Ensino Fundamental, do 2º e do 3º Ensino Médio, no Festival AfroMinuto-FlinkSampa/2025 “LECI BRANDÃO”.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    A reflexão aqui proposta dialoga com as epistemologias quilombolas de Antonio Bispo dos Santos, conhecidas como pensamento contracolonial. Em A terra dá, a terra quer (2019), Bispo propõe uma inversão epistêmica em relação ao modelo de conhecimento eurocentrado, defendendo que os povos tradicionais — em especial as comunidades quilombolas — produzem saberes pautados na reciprocidade, na oralidade e na relação equilibrada com a natureza e com o outro. Sua perspectiva questiona as bases civilizatórias ocidentais que estruturam o sistema educacional, convidando a um exercício de descolonização das práticas pedagógicas.

    Nesse sentido, ao problematizar “quem educa o educador?”, partimos de uma perspectiva crítica, tanto lenineana, quanto gramsciana e freireana à educação que serve os interesses do capital. Paulo Freire, em Pedagogia do oprimido, já denunciava o caráter opressor da escola tradicional, que impõe saberes hierarquizados e desconsidera os conhecimentos populares. Antonio Gramsci, não apenas no famoso Quaderni 12, mas em seus textos anteriores ao cárcere reflete sobre o princípio educativo e a escola burguesa, assim como práticas autônomas para uma educação revolucionária. Essa crítica é retomada e expandida pelas epistemologias negras e decoloniais, que revelam como o padrão civilizatório moderno/colonial perpetua desigualdades raciais e epistemológicas dentro da escola.

    A presença de um olhar quilombola (Bispo, 2019) convida à revalorização das memórias, das oralidades e das ancestralidades. Como destaca Conceição Evaristo (2017), a escrita e a experiência negra se articulam em escrevivências, onde o viver e o narrar são inseparáveis, instaurando uma pedagogia da memória e da resistência. Essa concepção se aproxima das práticas de grupos como Os Perciclanos, cuja experiência artística e cultural materializa um processo de ensino-aprendizagem coletivo, insurgente e afirmativo.

    Portanto, o referencial teórico deste estudo articula autores e autoras que desafiam o modelo hegemônico de produção do saber — Antonio Gramsci, Antonio Bispo dos Santos, Paulo Freire, Conceição Evaristo e propõe a construção de uma pedagogia que reconhece as juventudes negras como sujeitos epistêmicos e produtores de cultura, história e conhecimento.

     

    3 METODOLOGIA

    Entre os meses de agosto e setembro de 2025, encontrei um edital de participação não obrigatória e muito importante: o Festival AfroMinuto-FlinkSampa/2025 “LECI BRANDÃO”. O projeto, uma parceria entre Seduc-SP e Faculdade Fundação Zumbi dos Palmares, teve como objetivo principal realizar uma homenagem a Leci Brandão, primeira parlamentar negra do estado de São Paulo e em conversa com a direção da escola, me comprometi a participar.

    Alvos de racismo e intolerância religiosa, dois estudantes do 9º ano, famosos por “batucarem” nas carteiras das salas de aula, concordaram em protagonizar este projeto. Um estudante do 3º ano e outros dois do 2º também foram essenciais para a realização. Precisávamos de uma música, preferencialmente um samba, instrumentos musicais e tempo para ensaios.

    Foram realizadas rodas de conversa sobre a biografia de Leci Brandão e o espaço foi aberto para que os estudantes se articulassem sobre a construção do vídeo. Dessa maneira, foram autônomos e protagonistas de todo o processo: leitura sobre a homenageada, escolha de fotografias para o vídeo, cores de roupas para o dia da gravação, utilização ou não de guias e patuás, divisão do trabalho e dos instrumentos.

    Um dos estudantes do 9º E.F. escreveu uma poesia – citada na epígrafe deste texto -, a estudante do 2º E.M., nossa mestra do samba, e os outros, colocaram ritmo, cadência e gingado. Em poucos dias, a sala de leitura se tornou o ambiente mais alegre da escola, mas vale acrescentar que muitos estudantes, professores e membros da gestão não gostaram do “barulho” e dos “batuques”.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    O grupo foi convidado para uma apresentação durante uma aula de filosofia, pois o professor tratava sobre a temática étnico-racial. No entanto, durante e após a apresentação, o grupo relatou sentir olhares violentos, acusatórios, vexatórios, intolerantes e racistas. Foi necessária uma rearticulação do grupo, um momento de escuta e acolhimento para dar sequência às próximas atividades, a gravação do vídeo e a outra apresentação a ser realizada na sala de leitura e para outra turma.

    Na apresentação do dia seguinte, fiz uma conversa com os estudantes espectadores sobre racismo, intolerância religiosa e respeito. O grupo apresentou o samba e para a surpresa de todos, os estudantes pediram que tocassem mais uma vez e um estudante pandeirista pediu autorização para ser parte do grupo.

    O brilho nos olhos dos estudantes fez parecer que todo o racismo e intolerância religiosa que já sofreram, por minutos, dias e horas, simplesmente deixaria de ser realidade. O vídeo final foi gravado e aprimorado com técnicas de edição realizadas por um dos estudantes do 2º ano. Os instrumentos foram improvisados: em primeiro momento utilizou-se garrafa com arroz, bancos ao invés de atabaque e violão. Com meus recursos, comprei um pandeiro, mas precisamos manter os bancos ao invés de atabaque e o grupo se autodenominou de “Os Perciclanos[4]”.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    A experiência narrada acima teve como objetivo levar o leitor a conhecer um dos meus projetos realizados em uma escola estadual no interior do estado de São Paulo. A atividade foi uma forma prática de trabalhar questões essenciais na vida das juventudes periféricas: o antirracismo, o respeito às religiões de matriz africana, competências escritoras, leitoras e criação de cultura crítica e popular.

    Essas práticas exigem do educador uma postura crítica diante das estruturas sociais e institucionais que sustentam as desigualdades. Educar, nesse contexto, é um ato de resistência e de afirmação de existências diversas, que desafia o currículo tradicional e questiona os padrões de normalidade impostos pela lógica colonial e capitalista. A sala de aula, assim como a sala de leitura, quando atravessada por experiências de escuta, diálogo e valorização das culturas populares, torna-se um território de criação e de liberdade, onde os sujeitos podem se reconhecer como produtores de conhecimento e de história.

    Compreender a escola como espaço de disputa e de transformação social implica reconhecer que ela não está dissociada das relações de poder que estruturam a sociedade. Por isso, torna-se urgente repensar o papel do professor, não mais como mero transmissor de conteúdos, mas como mediador de processos emancipatórios. É nesse movimento que a educação ganha sentido ético e político, comprometendo-se com a justiça social, a pluralidade e a dignidade humana.

    Assim, o projeto desenvolvido com os estudantes demonstra que é possível construir práticas pedagógicas sensíveis às realidades locais, enraizadas nas memórias e nas vivências das comunidades periféricas. A partir do diálogo entre saberes, nasce uma escola viva, que reconhece as potências criativas das juventudes e rompe com o silenciamento histórico imposto às vozes negras e populares. Essa experiência reafirma a necessidade de uma educação que não apenas ensine, mas também liberte, inspire e transforme.

    Portanto, é importante ressaltar a possibilidade de a escola se tornar um ambiente que não seja violento, mas acolhedor e capaz de refletir e direcionar o interesse das juventudes periféricas e da classe trabalhadora. A necessidade de romper com a hegemonia burguesa que limita, aliena e aprisiona nossas juventudes se faz necessária na ordem do dia, assim como elaborar práticas docentes de educação sexual, educação antirracista, anticapacitista, antimachista e emancipatória.

     

    REFERÊNCIAS

    Bispo dos Santos, Antonio. A terra dá, a terra quer. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.

    Bispo dos Santos, Antonio. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília: INCTI, 2015.

    Evaristo, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2017.

    Evaristo, Conceição. Becos da memória. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2017.

    Evaristo, Conceição. Insubmissas lágrimas de mulheres. Rio de Janeiro: Malê, 2016.

    Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

    Freire, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

    Gramsci, Antonio. Quaderni del carcere, quaderno 12. Torino: Einaudi, 1975.

    hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

    Gomes, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis: Vozes, 2017.

    Gomes, Nilma Lino. Educação, identidade negra e formação de professores. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

    Munanga, Kabengele. Superando o racismo na escola. Brasília: MEC/SECAD, 2005.

     

    AGRADECIMENTOS

    Dá cadeia para quem me chamar de negro analfabeto

    Só não dá cadeia para quem impõe o analfabetismo obstruindo meu acesso às escolas

    Dá cadeia para quem me chamar de negro burro

    Só não dá cadeia para quem me chamar de "moreno", Mesmo sabendo que com isso querem me transformar em um híbrido

    E assim como aos burros, negar as condições de reprodução da minha raça (Nego Bispo, 2019). 

     

    Agradeço aos meus estudantes que foram parte da minha jornada na sala de leitura: todos vocês que frequentaram aquela sala aconchegante e despejaram um pouquinho de suas vidas, de suas histórias, problemas e alegrias. Vocês me ensinaram muito! Muito mais do que livros, viagens internacionais, aulas com professores doutores e que o próprio Gramsci – o autor que me tornei especialista e foi minha companhia por doze anos -. Sinto falta todos os dias das nossas conversas. Agradeço que nossos caminhos se cruzaram. Muito foi aprendido em nossos encontros! Vocês são maravilhosos! Vocês são únicos!

     


    [1] Para preservar a escola, a gestão, colegas professore e os estudantes – menores de idade – não serão citados os nomes.

    [2] As ações em andamento não foram finalizadas, assim como outras não foram iniciadas, pois o Governo Estadual do estado de São Paulo, a partir do dia 19 de setembro cessou todos os professores articuladores da sala de leitura que tiveram licença saúde maior que um dia. Na ocasião, fui uma das professoras afastadas.

    [3] Os Perciclanos - Homenagem à Leci Brandão – Apresentação durante uma aula de filosofia, Roda de conversa: “Valorização da Vida e BDR”, SOU + RECOMPOSIÇÃO – matutino, Festival AfroMinuto-FlinkSampa/2025 “LECI BRANDÃO”, Feira de Profissões na UNESP/FFC, Semana da consciência negra: lutas e representatividades, Setembro amarelo: a valorização da vida, Ação de inscrição para isenção no ENEM 2025, Saúde mental na adolescência: uma visão do autocuidado, Dia Mundial da Poesia: Oficina de poesias livres, Entre mundos e palavras: autores e livros, Meu brasil brasileiro - leituras e produção de cordel, Semana Estadual do Livro e de Incentivo à Leitura e à Escrita e conversa com autor, Iniciação científica com bolsa Pibic, Projeto Mediação e Linguagem “Nelson Mandela” - parte 2, Projeto VI CNIJMA Conferência Infantojuvenil pelo meio ambiente, Diversidade cultural: raízes e conexões, Organização do acervo, Leitura, tarefa e redação - leia SP, Empréstimos de livros físicos, Dia internacional do livro: conhecendo o brasil e lendo Macunaíma, Mulheres em luta, Projeto Mediação e Linguagem - A cartomante.

    [4] O vídeo do samba criado por Os Perciclanos: https://youtube.com/watch?v=qxcj9j36_Ho&feature=shared

     

  • Palavras-chave
  • Escola, Educação, Juventudes, Samba, Violência.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
Voltar Download
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
  • GT 3 - Mudanças Climáticas: educação ambiental, saúde e produção de alimentos
  • GT 4 - Educação Física e Esporte
  • GT 5 - Divulgação científica/Ensino de Ciência
  • GT 6 - Arte e Educação
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
  • GT 8 - Novas Tecnologias na Educação
  • GT 9 - Questões Étnico-Raciais na Educação
  • GT 10 - Agricultura, Sociedade e Educação
  • GT 11 - Educação Superior
  • GT 12 - Educação Comparada
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
  • GT 14 - Educação Inclusiva
  • GT 15 - Plurilinguismo na Educação
  • GT 16 - Linguagens e letramentos na Educação