O Rap como letramento das frestas: o limiar entre a Colonialidade Urbana e a cultura popular

  • Autor
  • Douglas Felipe Gerhardt
  • Co-autores
  • Franciele Clara Peloso
  • Resumo
  •  

     

     

     

    RESUMO EXPANDIDO

     

    Grupo de Trabalho (GT): Arte e Educação

     

    Modalidade do trabalho: Comunicação Oral

     

    Formato de apresentação: Presencial

     

    TÍTULO

    O Rap como letramento das frestas: o limiar entre a Colonialidade Urbana e a cultura popular.

    Douglas Felipe Gerhardt

    Franciele Clara Peloso

    PALAVRAS-CHAVE: Rap, Colonialidade Urbana, Pensamento Liminar, Letramento, Cultura Popular. 

     

    1 INTRODUÇÃO

     

    Este texto faz parte de uma pesquisa do Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Regional, a nível de mestrado. Mais especificamente, essa pesquisa é integrante da dissertação a ser desenvolvida entre os anos 2024/2026, para obtenção do título de mestre em Desenvolvimento Regional. No entanto, ressaltamos que esse texto adentra em outras discussões que abrangem o mesmo universo da temática do rap, da colonialidade urbana e do pensamento liminar. 

    O objetivo deste texto, mais especificamente, é construir um ensaio teórico que une as discussões sobre a colonialidade do ser, do saber e do poder aliadas às expressões artísticas e musicais urbanas do rap. Nesse contexto, o ensaio teórico é importante para adentrarmos nessas questões, uma vez que esta categoria de escrita permite-nos observar criticamente o intervalo da “relação permanente entre o sujeito e o objeto, um vir a ser constituído pela interação da subjetividade com a objetividade dos envolvidos.” (Meneghetti, 2011, p.320) Ou seja, há uma complementariedade do racional científico pelo teor subjetivo contido no ensaio teórico.

    Nas nossas análises críticas do intervalo entre a objetividade e a subjetividade, nos debruçamos sobre o conceito do pensamento liminar de Mignolo (2020, p.135), como um outro pensamento “a partir e para além dos legados coloniais” sob o pano de fundo da colonialidade. Segundo o autor, os traços da colonialidade ainda estão presentes e notáveis no contexto urbano, estabelecendo os recortes das colônias e das metrópoles da disposição centro e periferia urbana. 

    Sob esta divisão que impera no contexto urbano, decorrente dos traços históricos coloniais, surgem novas práticas nestes núcleos. O rap emerge como uma expressão artística de um grupo periférico, no bairro periférico do Bronx, em Nova York, em meio à principal potência internacional e berço do centro do capitalismo: os Estados Unidos da América. Portanto, é imprescindível compreendermos esta expressão artística como um microcosmo de resistência contra os processos coloniais ainda existentes, de um modo de vida urbano e de um posicionamento periférico (Camargos, 2015).

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

     

    Embora tragamos exemplos externos da emergência do rap em outras localidades, convém apontarmos o fenômeno de interação cultural entre periferia e centro também aqui no Brasil, a fim de refletirmos sobre a abrangência de uma dinâmica comum. Nesse sentido, Napolitano (2001) traça um panorama acerca de uma cultura popular cada vez mais próxima à cultura de elite, a partir da metade do século XX no Brasil. Nesse período, o país rural e constituído por comunidades camponesas, acabava coexistindo com o país urbanizado, transformando as manifestações artísticas a partir da nova massa de trabalhadores e do estilo e lazer urbanos. Não obstante, o rap também é produto da urbanização, das misturas de práticas culturais surgidas nesse contexto.

    Para Mignolo (2020, p.10) o resquício da colonialidade é conceituado como “diferença colonial”, que é o local “físico e imaginário onde atua a colonialidade do poder, no confronto de duas espécies de histórias locais visíveis em diferentes espaços e tempo do planeta.” Portanto, ao pensarmos nessa divisão urbana entre centro e periferia, ainda há um fluxo de poder operante decorrente de um outro tempo histórico que influencia no trânsito entre estes dois polos.

    Para Quijano (2014) o imperativo de alguns sujeitos diante de outros é um padrão que se constitui a partir dos processos históricos coloniais, impondo uma colonialidade do poder, nessa relação entre sujeito e objeto, cristalizado pela questão racial e do capital. Ou seja, a imposição de uma divisão entre centro e periferia é iniciado por quem tem maior quantidade de capital e pela raça branca, ocupantes das regiões centrais.

    Em oposição a estes imperativos a partir da raça e do capital, seguem as derivações da imposição física e do capital, que são a colonialidade do saber e do ser. Seguindo as imposições empíricas, há uma imposição normativa de um discurso acima dos demais. Assim se caracteriza a colonialidade do saber para Quijano (2014), que institui um padrão global a ser reproduzido a partir da lógica colonial.  

    Conjuntamente aos pontos iniciais do capital, da raça e das normas, a imposição é naturalizada no processo que Walsh (2005) categoriza como a colonialidade do ser. Dessa forma, a autora retrata a síntese da influência colonial sobre os corpos e grupos sociais do tempo presente, como “força maior pelo simples feito de que historicamente há sido negado certos grupos.” (Walsh, 2005, p.22-23) 

    Frente a estes padrões coloniais, o rap emerge como uma expressão artística e política visando o enfrentamento histórico das divisões pautadas pelo capital, pela raça, pela colonialidade do saber e do ser, no território urbano. Para Camargos (2015) o rap constroi um letramento diante das imposições consequentes às divisões entre centro e periferia características da colonialidade, construindo enunciados dotados de engajamento em que o cantor traz a “impossibilidade de ver suas canções pelo prisma da neutralidade ou do alheamento.” (Camargos, 2015, p.88) 

     

    3 METODOLOGIA

     

    Cabe nesse escrito realizar um ensaio teórico, transcendendo as formas positivistas acadêmicas que costumam separar os estudos e pesquisas em dois polos: o sujeito e objeto. Segundo Meneghetti, o ensaio “quebra a lógica esquemática e sistemática da ciência tradicional, sobretudo da natureza positivista.” (Meneghetti, 2011, p.321)

    Assim como estamos propondo no conteúdo do texto uma discussão sobre as frestas existentes no processo de letramento que há no rap, entre o centro e a periferia, também encontramos no ensaio teórico discussões sobre as margens representadas no processo científico tradicional e que divide os polos do sujeito e objeto. Portanto, por meio do ensaio teórico adentramos no trânsito entre os dois polos, na tentativa de encontrarmos esse território liminar que consiste de estar em “ambas as tradições e, ao mesmo tempo, em nenhuma delas.” (Mignolo, 2020, p.100)

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO (se houver)

     

    As frestas a serem desvendadas pelos cantores de rap são parte de uma missão do movimento hip hop. Para isso, os compositores deste gênero musical atravessam os dois polos da divisão colonial, apropriando-se de partes de gêneros musicais mesclados, utilizando samples como principal elemento de composição. Nesse sentido, há duas questões fundamentais para compreendermos esse trânsito entre os dois polos, de acordo com Araujo de Oliveira (2012), listados a seguir.

    Construtos Centrais: o que possibilitou o hip hop e o rap a serem uma cultura internacionalmente engajada, incorporada pelos atores centrais. Construtos Periféricos: O que dá a legitimidade ao discurso, que pode ser vivenciado por atores periféricos. (Araujo de Oliveira, 2012, p.264) Portanto, parte do letramento promovido pelo rap é resultado dessa transição entre os construtos periféricos e centrais. Reiterando os escritos de Araujo de Oliveira (2012) sobre os dois construtos atuarem em diálogo para sustentar o rap, a cultura popular (periférica) somente será legítima e servirá como base de letramento, se ela partir da posição de periferia. Ou seja, não haverá possibilidade de existência dessa manifestação artística se ela partir única e exclusivamente dos construtos centrais.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

    De acordo com Araujo de Oliveira (2012), a ação dos integrantes do movimento hip hop questiona essa divisão. Desde a sua gênese, quando Kool Herc, um jamaicano com raízes musicais no reggae, transita entre o caribe e Nova York nos anos 1960, estabelecendo entre as festas nas periferias o seu sound system, protagonizando a sonoridade do ambiente periférico. Também Afrika Bambaata questiona o conflito inerente às divisões coloniais, ao transformar o espírito das lutas entre as gangues em uma disputa simbólica, de música, dança e pinturas. (Araujo de Oliveira, 2012)

    A representação do rap como um território limiar entre as zonas periféricas e centrais se potencializa com a reprodução midiática do estilo musical, popularizando o gênero que tem por sua característica fundamental a denúncia de situações sociais decorrentes de um processo colonial. Segundo Araujo de Oliveira (2012), essa associação do gênero rap - e do movimento hip hop - com as comunidades populares e periféricas acaba sendo desgastada pela apropriação do estilo hip hop por “grupos sociais de classe média alta” (Araujo de Oliveira, 2012, p.262)

    Por outro lado, esse diálogo promovido entre os dois construtos, os centrais e os periféricos, são parte de um processo histórico cultural característico da sociedade brasileira, o qual caminhou em dois sentidos: um deles é a imersão da cultura popular (periférica) na cultura de elite (central); e o outro, é o da cultura da elite (central) incorporada na cultura popular (periférica) (Napolitano, 2001). 

    Essa reflexão sobre o surgimento e a coexistência de outras linguagens a partir de uma dinâmica cosmopolita que o território urbano assume a partir da metade do século XX, é algo ainda a ser debatido no contexto da decolonialidade.

     

    REFERÊNCIAS 

     

    ARAUJO DE OLIVEIRA, Denilson. “Territorialidades Do Hip-Hop: Desvelando Tensões Raciais Na Reprodução Dos Espaços Urbanos (Português e Inglês).” In: DOS SANTOS, Renato Emerson (org). Questões Urbanas e Racismo. Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Petrópolis, RJ, 2012.

    CAMARGOS, Roberto. Rap e política: percepções da vida social brasileira. Boitempo Editorial, 2015.

    NAPOLITANO, Marcos. Cultura brasileira: utopia e massificação (1950-1980).4 ed. São Paulo: Contexto, 2001.

    MENEGHETTI, Francis Kanashiro. O que é um ensaio-teórico? Revista de administração contemporânea, v. 15, p. 320-332, 2011. Disponível em: https://rac.anpad.org.br/index.php/rac/article/view/845/842. Acesso em 23 de out. de 2025.

    MIGNOLO, Walter D. Histórias locais / projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Tradução de Solange Ribeiro de Oliveira. 1 ed. rev. – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2020.

    QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidade-racionalidad. In. PALERMO, Zulma; PABLO, Quintero (Compiladores). Aníbal Quijano: textos de fundación. Ediciones del Signo. Buenos Aires – Argentina. 2014

    WALSH, Catherine. (Re)pensamiento crítico y (de)colonialidad. In: WALSH, Catherine. (org) Pensamiento Crítico Y Matriz (De)Colonial: Reflexiones Latinoamericanas. Equador: Ediciones Abya Yala, 2005.

     

    AGRADECIMENTOS (se houver) 





     

  • Palavras-chave
  • Rap, Colonialidade Urbana, Pensamento Liminar, Letramento, Cultura Popular
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 6 - Arte e Educação
Voltar Download
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
  • GT 3 - Mudanças Climáticas: educação ambiental, saúde e produção de alimentos
  • GT 4 - Educação Física e Esporte
  • GT 5 - Divulgação científica/Ensino de Ciência
  • GT 6 - Arte e Educação
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
  • GT 8 - Novas Tecnologias na Educação
  • GT 9 - Questões Étnico-Raciais na Educação
  • GT 10 - Agricultura, Sociedade e Educação
  • GT 11 - Educação Superior
  • GT 12 - Educação Comparada
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
  • GT 14 - Educação Inclusiva
  • GT 15 - Plurilinguismo na Educação
  • GT 16 - Linguagens e letramentos na Educação