SABERES DISCENTES QUALIFICADOS PELA CURRICULARIZAÇÃO DA EXTENSÃO NA LICENCIATURA EM QUÍMICA, PELA PROMOÇÃO DO ACESSO À EJA-EPT: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA NO IFSC – CÂMPUS SÃO JOSÉ, SC.

  • Autor
  • Rafael da Costa Lima
  • Co-autores
  • Maria Cordeiro Arsene , Gabrielly da Silva
  • Resumo
  • Resumo: Este trabalho trata-se de relatar uma experiência interdisciplinar de qualificação da curricularização da extensão, realizada pelo Instituto Federal de Santa Catarina, Campus São José, no âmbito do Curso de Licenciatura em Química, em articulação com a Coordenação de Extensão do câmpus junto à a coordenação do PROEJA-FIC em Operador de Computador. Para além do cumprimento dos preceitos legais relativos à missão institucional e no âmbito da formação de professores, teve-se como objetivo estimular o interesse pela formação continuada e ampliar o acesso aos cursos oferecidos à comunidade discente da EJA das redes municipal e estadual que se situam no contexto local. A atividade, mediada por docentes, planejada e conduzida por discentes, promoveu o acolhimento dos visitantes no laboratório de química, onde foram demonstrados experimentos químicos, de forma cidadã, lúdica e convidativa. Verificou-se que o diálogo entre os discentes entre distintos níveis de formação, associado a um ambiente institucional que articula o ensino e a extensão, pode contribuir em muito para que o público da EJA sinta-se estimulado e perceba o IFSC como um espaço público de aprendizagem e exercício do direito à formação escolar e à cidadania.

     

    DA AÇÃO DE EXTENSÃO REALIZADA

    A desigualdade social está entre os principais desafios históricos a serem enfrentados pela sociedade brasileira. Dentre seus condicionantes, destacam-se as significativas diferenças para o acesso às políticas públicas, impactando especialmente os grupos sociais em situação de vulnerabilidade e exclusão. No campo da educação, esta situação evidencia-se, dentre outros aspectos, pela dificuldade de acesso à escolarização formal. Impõe-se, neste contexto, o desenho de estratégias e políticas capazes de retirar obstáculos e promover sua formação cidadã e profissional. Especialmente neste âmbito, foi lançado, em 2005, o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). A este, especialmente no âmbito dos Institutos Federais e da Educação Profissional, Científica e Tecnológica (EPCT), autores como Andrighetto et. al. (2021) caracterizam como um forte avanço inclusivo, em um contexto de “dialética das disputas” que se realiza no enfrentamento às forças do capital. Cabe, portanto, envidar esforços para que a objetivação da política alcance quem dela necessita, o que no âmbito do câmpus São José ocorre principalmente pela ação da Coordenação de Extensão e pela busca ativa promovida no âmbito da modalidade de Educação de Jovens e Adultos.

     

    Por sua vez, no contexto da formação de professores, obriga-se legalmente aos cursos de licenciatura, a curricularização das atividades de extensão (Brasil, 2018), a qual, no âmbito do IFSC já havia sido regulamentada em 2016 (IFSC, 2016), especialmente a partir das discussões forjadas no seio do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras – FORPROEX (CONIF, 2012). Neste sentido, o Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Química, do Campus São José (IFSC, 2019) prevê um total de 340 horas de atividades de extensão, as quais devem ser realizadas, preferencialmente, de forma interdisciplinar e articulada, no contexto de um conjunto de Componentes Curriculares distribuídos ao longo do curso e fortemente associados às práticas profissionais do campo pedagógico. A curricularização da extensão apresenta-se, portanto, como um campo de possibilidades para que a reflexão se faça, não somente no âmbito acadêmico de formação, como também e principalmente ao alcançar os grupos de interlocução que se constituem como público preferencial da EJA-EPT. Para tanto, buscou-se a articulação com distintos setores do Campus que já tem, dentre seus objetivos e finalidades, a divulgação da oferta e o estímulo à participação nos processos seletivos.

    A atividade, ora em relato, foi proposta no contexto de oferta da 5ª fase, envolvendo os Componentes Curriculares “Fundamentos da Educação em Química” e “Gestão e Organização Escolar”. Em ambos, evidencia-se o desafio de colocar, em um contexto reflexivo e formativo, a discussão relativa especialmente à função social do ensino de química no encontro com a sociedade que se efetiva pela gestão da escola evidenciada no seu Projeto Pedagógico. Para o planejamento e execução da ação, foram realizadas discussões envolvendo docentes e discentes, buscando adequar a atividade a cada um dos componentes curriculares envolvidos. Em um segundo momento, foram estabelecidos momentos de encontro entre os estudantes matriculados para criação de um documento de desenho coletivo, com apoio da ferramenta “google docs”, em formato de Projeto de Extensão, o qual foi, posteriormente, submetido ao Edital PROEX – Fluxo Contínuo – Programas e projetos de extensão curricularizados – 2025. Como desafio principal, para além do cumprimento das atividades curriculares, apresentava-se, portanto, estabelecer, com o aluno da EJA, visitante do Campus, um diálogo de encantamento para com a ciência e um estímulo à sua participação nos processos seletivos que organizam o acesso à oferta, tanto nos cursos da modalidade EJA-EPT, Licenciatura em química, quanto, também, do ensino regular concernentes à etapa do Ensino Médio.

    Considerando-se as características da atividade e, especialmente, o tempo de execução da atividade no laboratório, que não deveria superar o máximo de 10 minutos, foram elaboradas atividades de acolhimento, com a apresentação rápida dos estudantes envolvidos, seguida de uma atividade lúdica, durante a qual foram realizadas demonstrações destinadas a aproximar os conceitos químicos ao cotidiano dos visitantes. O experimento escolhido para a demonstração foi a identificação do pH com extrato de repolho roxo como indicador, utilizando-se materiais e produtos domésticos acessíveis, bem como o uso de linguagem contextualizada. Por fim, foi proposta uma rápida avaliação da atividade com os visitantes. 

    Para o desenvolvimento da ação, os licenciandos foram organizados em duplas, de modo a atender os visitantes em distintos dias e horários programados. Neste sentido, verificou-se que, não obstante fossem oito visitas programadas, a realidade da ação extensionista se impôs, de modo que, por distintos motivos, que vão desde questões meteorológicas até questões relativas a movimentos reivindicatórios que resultaram em mudanças no calendário escolar, ou, ainda, problemas na logística de deslocamento entre as escolas e o IFSC. Por fim, os visitantes foram acompanhados pelos licenciandos em duas visitas, o que permitiu que o planejamento fosse efetivado.Após as ações desenvolvidas, o grupo de licenciandos manteve-se em diálogo, especialmente no sentido de proceder a sua discussão e avaliação. 

    Concluiu-se que a proposta do projeto de extensão dialoga com a proposta pedagógica do curso de Licenciatura em Química, especialmente ao integrar componentes curriculares e evidenciar a possibilidade de experimentar uma ação de extensão no cotidiano da ação formativo-reflexiva. Neste sentido, a atividade proporcionou um espaço de vivência formativa, no qual os licenciandos puderam experimentar, na prática, aspectos discutidos em sala de aula sobre planejamento pedagógico, organização escolar e mediação do conhecimento. O desenvolvimento e a apresentação do experimento de identificação de pH com extrato de repolho roxo foram particularmente significativos, pois permitiram abordar, de forma cidadã, conceitos fundamentais da Química de forma acessível, visual e de uma forma mais contextualizada para o nosso público alvo. Ao articular teoria e prática, o projeto promoveu uma experiência produtiva, em que os discentes puderam atuar ativamente na criação, execução e avaliação de uma atividade extensionista, refletindo criticamente sobre seus papéis, escolhas metodológicas e os desafios da docência. Essa vivência fortalece não só a formação como licenciado em Química, mas também a autonomia, a responsabilidade e o compromisso social dos licenciandos. Decidiu-se, por fim, que a ação ora em relato possui potencial formativo que justifica a sua manutenção e, em novos arranjos curriculares, a sua institucionalização.

     

    REFERÊNCIAS  

     

    ANDRIGHETTO, M. J.; MARASCHIN, M. S.; FERREIRA, L. S. Políticas de EJA EPT no Brasil: ascensão, estagnação e silenciamento. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, Araraquara, v. 16, n. 3, p. 2179–2198, 2021. DOI: 10.21723/riaee.v16i3.13544. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/13544. Acesso em:  09 ago. 2025.

    BRASIL. Ministérios da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução nº 7, de 18 de dezembro de 2018, que estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira e regulamenta o disposto na Meta 12.7 da Lei nº 13.005/2014, que aprova o Plano Nacional de Educação - PNE 2014-2024 e dá outras providências.

    Conselho Nacional das Instituições Federais de Educação Profissional e Tecnológica (CONIF). Extensão Tecnológica: Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. Cuiabá (MT): CONIF/IFMT, 2013. Disponível em: https://curricularizacaodaextensao.ifsc.edu.br/files/2016/06/6_CONIF_Extensao_Tecnologica_Forproext_2012.pdf Acesso em: ago. 2025.

     

    IFSC. Resolução CONSUP nº 40, de 29 de agosto de 201. Disponível em: file:///C:/Users/Win%2010/Downloads/Insero%20curricular%20no%20IFSC%20%20resoluo%2040.2016.pdf. Acesso em: jul. 2025.

     

  • Palavras-chave
  • Curricularização da Extensão; EJA-EPT; Acesso e permanência
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
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