PIBIC-EM ABRINDO AS PORTAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR: O CASO DA UNICAMP

  • Autor
  • Jennifer Vieira de Arruda
  • Co-autores
  • Ana Elisa Spaolonzi Queiroz Assis
  • Resumo
  • RESUMO EXPANDIDO

    Grupo de Trabalho (GT): GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional.

    Modalidade do trabalho: comunicação oral.

    Formato de apresentação: online.

    PIBIC-EM ABRINDO AS PORTAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR: O CASO DA UNICAMP

    Jennifer Vieira de Arruda

    Ana Elisa Spaolonzi Queiroz Assis 

    PALAVRAS-CHAVE: Iniciação Científica, Ensino Médio, Unicamp

    1 INTRODUÇÃO

    Em 2003 o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) criou seu próprio programa de Iniciação Científica Júnior (IC-Jr). A ação, inspirada pelo primeiro modelo de iniciação científica para a educação básica, o Programa de Vocação Científica (Provoc) da Fiocruz-RJ, que surgiu em 1986, é reflexo do estreitamento de relações entre a política de ciência e tecnologia e política educacional no Brasil a partir da metade do século XX, que proporcionou o aperfeiçoamento e a popularização do ensino das ciências nas escolas públicas (Silveira, 2015).

    Deste programa, outros surgiram, o Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC Jr); o Programa de Iniciação Científica da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (PIC-OBMEP); e o Programa Institucional de Bolsas de  

     

    Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM). O PIBIC-EM, voltada exclusivamente para os estudantes do ensino médio da rede pública (Almeida; Longhin, 2024; Silva; Assis, 2017), foi o objeto principal de uma pesquisa de Iniciação Científica, cuja parte dos resultados é aqui apresentada, refletindo sobre impactos afetivos a longo prazo causada pela participação de jovens estudantes no PIBIC-EM.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    Oferecido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desde 2010, o PIBIC-EM, além das bolsas de R$ 300,00 reais, oferecidas aos estudantes, conta com apoio de recursos para os professores orientadores cobrirem os custos das atividades de pesquisa, além de alimentação e transporte para os bolsistas (Silva; Assis, 2017). Dessa forma, com a identificação de que o programa é capaz de capacitar jovens de baixa renda em diversas áreas do conhecimento, dotando-os de poder cultural e social, enquanto a universidade fortalece seu tripé — ensino, pesquisa e extensão — (Silva; Assis, 2015) e abre portas para o Ensino Superior, impulsionando-os à pesquisa acadêmica (Arantes; Peres, 2015; Oliveira; Bianchetti, 2018), foi realizado um estudo de Iniciação Científica que analisa as experiências vivenciadas no programa e como elas impactaram a trajetória acadêmica e pessoal de ex-bolsistas que, posteriormente, ingressaram na Unicamp.

    Destaca-se que a citada pesquisa utilizou da comparação entre as entrevistas semi estruturadas realizadas e referências bibliográficas consultadas, que também refletem sobre os impactos do PIBIC-EM na trajetória de estudantes, e notou-se uma série de especificidades na realização do programa na Unicamp, além de discussões não exploradas nas pesquisas consultadas.

    3 METODOLOGIA

    A coleta das trajetórias individuais foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, com 17 perguntas elaboradas a partir da experiência prévia da autora com ex-bolsistas. O convite para participação foi enviado por e-mail, 

     

    resultando em 34 respostas e 17 entrevistas efetivamente realizadas via Google Meet. Ao término, os dados foram organizados por pergunta, analisados e interpretados segundo Mussi, Flores e Almeida (2021), que incentiva a análise das experiências vivenciadas, mas ainda discutindo-as em conjunto com bibliografias que também refletem o assunto a partir de experiências semelhantes.

    Nesse recorte  em específico, é tratado da análise sintetizada de experiências e recordações emocionais dos entrevistados com o PIBIC-EM, presentes nas perguntas 4 — Pode me contar o que você desenvolveu no período que participou (ex: boas experiências que teve, coisas que o deixavam empolgado para participar, recordações que queira compartilhar)? —, 7 — Fez amigos ou criou novas relações com pessoas no PIBIC-EM? — e 13 —  Quais atividades, ligadas ou direcionadas a universidade você realizou ao fim do projeto?

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Os 17 entrevistados representam uma pequena amostragem do total dos ex-bolsistas que realizaram o PIBIC-EM na Unicamp e depois retornaram como seus estudantes, número que gira em torno de 530 discentes entre 2014 e 2023. 

    Nessas entrevistas foi notado que a maioria dos bolsistas guarda boas recordações do período, além de darem ênfase ao sentimento de pertencimento e acolhimento experimentado, despertado pelo sentimento de imersão no ambiente universitário, fazendo-os ter a experiência de que aquele ambiente, rotina e experiências poderia ser uma realidade plena em sua vida, o que colaborou com descobrimentos de vocações. Ao pensar sobre a relação com o espaço, o sociólogo Pierre Bourdieu (2013) defende que indivíduos são construídos tendo por base sua relação com ele, portanto, a ocupação física de um local pode evidenciar e despertar possibilidades antes remotas do imaginário do estudante.

    Os pesquisadores Oliveira e Bianchetti (2019) também se debruçam sobre a questão, é dito que a participação dos estudantes do Ensino Médio no PIBIC-EM é composta por uma racionalidade que permite que eles utilizem dessa experiência a 

     

    fim de alcançar um determinado fim, a ruptura com um círculo vicioso determinado pela sua condição social, por meio do acesso dos capitais sociais e culturais valorizados no processo de ingresso e permanência no Ensino Superior.

    Contudo, percebeu-se também a resiliência e o investimento simbólico na ideia de pertencimento à Unicamp aparecerem como fatores que ajudam a sustentar a permanência, mesmo diante das dificuldades, tendo na bolsa um símbolo de reconhecimento, acrescido de um peso emocional. Isso demonstra um efeito secundário da bolsa, indicando que a permanência também pode estar relacionada, e ser dependente, mais do afeto do que da razão, pondo esse incentivo como uma importante estrutura do projeto.

    Entretanto, a dificuldade de reconhecimento e adaptação inicial dos jovens com as atividades foi notada, algo que Oliveira e Bianchetti (2019) e Lima et al. (2017) apontam, para uma das possíveis justificativas, como despreparo dos orientadores para essa função, além das poucas literaturas e discussões sobre atividades laboratoriais científicas com estudantes da Educação Básica.

    Nesse cenário, a construção de boas relações com os demais envolvidos no projeto interfere diretamente na sensação de pertencimento, engajamento e apoio promovidas em situações de socialização ou debates no formato de “roda de conversa”. Essas atividades, segundo Caballero et al. (2020), proporcionam segurança para que os estudantes realizem trocas de experiências, argumentos e confiança, invertendo a tradicional lógica do aluno ouvinte e do professor orador. Inclusive, nove dos ex-bolsistas criaram relações duradouras e vínculos afetivos  com colegas, orientadores e/ou monitores, mantendo-as após o fim do projeto, seja no âmbito pessoal, acadêmico ou profissional

    Evidenciou-se também a forte tendência dos ex-bolsistas — com exceção de dois — em participarem de outras atividades e programas que promovem o conhecimento acadêmico para estudantes de escolas públicas. Sousa 


     

    e Benício (2019), ao analisarem experiências semelhantes em sua pesquisa, dizem que os estudantes se sentem encorajados a participar de outros projetos por compreenderem as práticas científicas como a descoberta de conhecimentos pouco discutidos, mas relevantes. Dessa forma, os estudantes ainda contribuem com a divulgação das práticas científicas da universidade para a comunidade e para outros estudantes que não estão diretamente vinculados ao PIBIC-EM.

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Ao acompanhar as impressões da participação do PIBIC-EM desses ex-bolsistas, não imediatamente, mas anos após o fim do seu envolvimento com o programa, foi possível entender com mais clareza os reais impactos a longo prazo causados pela Iniciação Científica no Ensino Médio. Dentre as conclusões chegadas, notou-se que as trajetórias não são homogêneas e absolutas, elas são dependentes e codependentes de uma série de outros fatores que devem ser tratados com igual importância.

    Com esse movimento, foi possível acompanhar, por meio da análise de todas as 17 perguntas, como o PIBIC-EM colaborou para a escolha, ingresso e permanência na universidade. Inclusive, em alguns casos, a participação no PIBIC-EM foi um marco inicial para a construção de uma trajetória acadêmica, por vezes, independente do processo de reconhecimento com a área ou tema do projeto. Dessa forma, essas experiências na Iniciação Científica para Ensino Médio serviram para que pudessem se dispor de maior familiaridade com as práticas de pesquisa, o que facilitou sua adaptação com o ambiente universitário

    REFERÊNCIAS 

    ALMEIDA, V. H. de; LONGHIN, S. R. Um panorama da Iniciação Científica na Educação Básica no Brasil: Marcos Históricos, Legislação e Perspectivas. Revista Políticas Públicas & Cidades, [S. l.], v. 13, n. 2, p. e986 , 2024. Disponível em: https://journalppc.com/RPPC/article/view/986. Acesso em: 5 de agosto de 2025.


     

    ARANTES, S. L. F. ; PERES, S. O. Programas de iniciação científica para o ensino médio no Brasil: educação científica e inclusão social. Revista Pesquisas e Práticas Psicossociais, v. 10, n. 1, p. 37-54, 2015.

    BOURDIEU, P. Espaço físico, espaço social e espaço físico apropriado. Estudos avançados, v. 27, p. 133-144, 2013.

    CABALLERO, A. I. M.; OLIVEIRA, A. L.; COSTA, G. A. S.; ASSIS, A. E. S. Q. Currículo oculto e a arte dentro de um planejamento educacional: estudo de caso a partir do programa Ciência e Arte nas Férias (CAF). Revista Exitus, [S. l.], v. 10, n. 1, p. e020043, 2020. Disponível em: https://portaldeperiodicos.ufopa.edu.br/index.php/revistaexitus/article/view/1274. Acesso em: 4 de março de 2025.

    LIMA, K. R.; SOUZA, M. A. de; CARPES, F.; MELLO-CARPES, P. B. A iniciação científica sob o ponto de vista de alunos de ensino médio como bolsistas do programa PIBIC-EM na área de neurofisiologia em uma instituição do interior do RS. Revista de Ensino de Bioquímica, [S. l.], v. 15, n. 2, p. 20–35, 2017. Disponível em: https://bioquimica.org.br/index.php/REB/article/view/727. Acesso em: 4 de março de 2025.

    MUSSI, R. F. de F.; FLORES, F. F.; ALMEIDA, C. B. de. Pressupostos para a elaboração de relato de experiência como conhecimento científico. Práxis Educacional, Vitória da Conquista, v. 17, n. 48, p. 60–77, 2021. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/praxis/article/view/9010. Acesso em: 18 de julho de 2025.

    OLIVEIRA, A. ; BIANCHETTI, L. Estudantes do ensino médio e o ensino superior: explicitando o modus operandi dos bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 100, p. 464-480, 2019.

    OLIVEIRA, A.; BIANCHETTI, L. Iniciação Científica Júnior: desafios à materialização de um círculo virtuoso. Ensaio: avaliação e políticas públicas em educação, v. 26, 

     

    p. 133-162, 2018. Disponível em: https://revistas.cesgranrio.org.br/index.php/ensaio/article/view/952 . Acesso em: 24 de março de 2025.

    SILVA, L. R. ; ASSIS, A. E. S. Q. O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM): a política pública, a ciência e a cidadania. Revista Exitus, v. 7, n. 1, p. 78-107, 2017.

    SILVEIRA, Z. S. Formação científica no nível médio de ensino: primeiras aproximações. Boletim Técnico do Senac, [S. l.], v. 41, n. 1, p. 36–57, 2015. Disponível em: https://www.bts.senac.br/bts/article/view/55. Acesso em: 4 de março de 2025.

    SOUSA, J. K. R.; BENÍCIO, R. M. A. PIBIC-EM Programa de Iniciação Científica no Ensino Médio: Interação entre o Ensino e a Pesquisa como contribuinte para a autonomia discente. Conedu - VI Congresso Nacional em Educação, GT 17 – Ensino e suas intersecções, 2019. Disponível em: https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/62023. Acesso em: 7 de março de 2025.

    AGRADECIMENTOS 

     

    Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo apoio financeiro concedido, no formato de Bolsa de Iniciação Científica, por meio do processo nº 2024/09586-2, aos(as) profissionais e colaboradores(as) que viabilizaram o contato com os(as) ex-bolsistas e especialmente aos(às) entrevistados(as), que dedicaram seu tempo e compartilharam generosamente suas experiências, contribuindo de forma essencial para o desenvolvimento deste estudo.

     
  • Palavras-chave
  • Iniciação Científica, Ensino Médio, Unicamp
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
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