Formação de Professores do Ensino Médio Promovidas por Institutos Filantrópicos e Constituição da Identidade Docente

  • Autor
  • Elaine Hoffmann
  • Co-autores
  • Carin Carvalho Brugnara
  • Resumo
  •  

     

    FORMAÇÃO DE PROFESSORES DO ENSINO MÉDIO PROMOVIDAS POR INSTITUTOS FILANTRÓPICOS E CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE DOCENTE

                                                                                       

    PALAVRAS-CHAVE: Formação de Professores, Ensino Médio, Institutos Filantrópicos, Políticas Educacionais.

     

    1 INTRODUÇÃO

     

    Este trabalho objetiva analisar como a formação para professores do Ensino Médio pode influenciar a constituição identitária dos docentes. Verificamos sites e plataformas de diferentes institutos filantrópicos que atuam na educação brasileira para identificar quais estão, na atualidade, mais atuantes no que diz respeito à formação de professores do Ensino Médio.

    Chamou-nos a atenção o Instituto Reúna (2024) que, em 28 de setembro de 2024, enviou às escolas brasileiras um e-mail no qual informava sua parceria com o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) para a criação da Plataforma Trilhares. No e-mail consta a informação de que “A Trilhares Ensino Médio é uma iniciativa gratuita que reúne recursos que auxiliam na construção de Itinerários Formativos de qualidade e fornecem suporte à sua implementação” (Reúna, 2024).

    A produção da plataforma considera a mudança na estrutura curricular do Ensino Médio, anunciada para 2025, pela lei 14.945/2024 (Brasil, 2024), de forma que esta etapa de ensino passou a constituir-se por Formação Geral Básica e Itinerários Formativos.

    A Plataforma Trilhares, no entanto, está interligada à Plataforma Nosso Ensino Médio, dedicada especificamente à formação de professores desta etapa de ensino. Se considerarmos a parceria do Reúna com o Consed (que abarca todos os estados brasileiros) para a produção e implementação dos Itinerários Formativos e formação para professores através das plataformas mencionadas, podemos visualizar uma possibilidade de regular os sentidos dos documentos oficiais da educação, que, por sua vez, também são produzidos por institutos filantrópicos.

    Na tentativa de manter certo controle quanto à produção de sentidos e manutenção das intencionalidades dos documentos oficiais, conforme abordam Shiroma, Campos e Garcia (2005), há a necessidade de produção “outros textos”. Dentre os textos que visam a manutenção de sentidos oficiais, elegemos como nosso objeto de estudo os textos disponíveis na Plataforma Nosso Ensino Médio (s/d,s/p), dos quais podemos inferir possíveis efeitos de sentidos para a constituição identitária dos professores.

    A respeito de os “outros textos” funcionarem como uma tentativa de regulação de sentidos dos documentos oficiais, no site do Instituo Reúna (s/d, s/p.) declara-se que “O Instituto Reúna traz a Base Nacional Comum Curricular - BNCC da legislação para a sala de aula. Nossas pesquisas e recursos pedagógicos apoiam as redes de educação e escolas de todo Brasil no desenvolvimento de um sistema pedagógico coerente”. Desta citação compreende-se que há a consciência por parte dos institutos filantrópicos que atuam na educação brasileira sobre essa necessidade de manutenção daquilo que está previsto como oficial, criando-se uma cultura que objetiva delinear a identidade e a atuação de professores e estudantes.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

     

    A análise teórico-metodológica que nos guia é a Teoria do Discurso (TD), de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe e a Análise do Discurso Francesa (AD), que tem como principal autor Michel Pêcheux. A TD nos auxilia a compreender que diferentes autores, com distintos posicionamentos, se unem por objetivos comuns a partir de práticas articulatórias. Ou seja, segundo Laclau e Mouffe (2015), a articulação funciona como uma prática que constitui pontos nodais, buscando fixar sentidos em determinado contexto social a partir de um sistema organizado de diferenças.

    É pelas práticas articulatórias, que se constroem pontos nodais dos quais partem os discursos hegemônicos. Discursos esses que se fazem presentes nos documentos oficiais e nos textos de formação de professores produzidos por institutos filantrópicos, que formam alianças entre si e com o setor privado.

    A TD nos possibilita compreender o contexto macro em relação às práticas articulatórias que leva diferentes atores a um ponto nodal para a produção de discursos hegemônicos. Todavia, este trabalho visa, através da análise de textos destinados à formação de professores, compreender como esses textos podem influenciar a constituição identitária dos docentes. Nesse sentido, conforme Orlandi (2002), o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia, que se materializa nos textos propriamente ditos.

    Tanto a AD quanto a TD consideram que o sujeito se constitui pelo discurso e não antes dele. A AD compreende que é pelo discurso que o sujeito assume uma posição no contexto em que se insere, formando sua identidade. Assim, o discurso não é transparente, a sua opacidade faz-nos analisar além do que está dito, observando como foi dito, em que contexto, o que não foi dito e por que motivo etc. É na busca pela compreensão desses aspectos que se procura compreender, a partir dos textos da Plataforma Nosso Ensino Médio, não apenas o contexto de produção, mas os textos das políticas educativas em si, tarefa para a qual encontramos apoio na AD.

    Ao mesmo tempo, consideramos a relevância da TD para analisar as práticas de articulação, que revelam os atores que trabalham na produção de discursos hegemônicos em um contexto macro, que levam ao que vem antes da produção dos textos em si.  

    Sendo assim, mesmo reconhecendo as diferentes perspectivas dessas teorias e a atenção necessária quanto a isso, compreendemos que são elas que nos permitem ter o subsídio necessário para a nossa análise.

     

    3 METODOLOGIA

     

    Iniciamos este trabalho buscando identificar nosso objeto de estudo. Para isso, partimos da leitura da tese de Amorim (2025), que expõe os institutos atuantes na construção dos currículos dos diferentes estados brasileiros. O segundo passo foi acessar os sites desses institutos e verificar quais, neste momento (2025), dedicam-se especificamente à formação de professores de Ensino Médio. Como mencionamos na introdução do trabalho, o Instituto Reúna se destaca pela parceria com o Consed, o que lhe permite abranger todo o país.

    Compreendemos que o Instituto Reúna exerce um papel central nesse cenário e, considerando sua parceria com o Consed para a implementação da Plataforma Trilhares e da Plataforma Nosso Ensino Médio, dedicada especificamente à formação de professores do Ensino Médio, elegemos os textos da Plataforma Nosso Ensino Médio como objeto de estudo, tendo em vista sua possibilidade de abrangência.

    Avaliamos, a partir da escolha do nosso objeto de estudo, a relevância de analisar os discursos presentes nos “outros textos” (Shiroma, Campos, Garcia, 2005), além dos documentos oficiais da educação. Nesse caso, textos que possibilitam vislumbrar como pode se dar a constituição identitária docente no contexto hodierno.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

     

    A leitura dos documentos de formação de professores da Plataforma Nosso Ensino Médio nos permitiu observar alguns aspectos. Um deles é uma espécie de “sequestro linguístico”, uma vez que são utilizados vocabulários comuns a estudiosos da educação, como Paulo Freire, que parte de uma perspectiva crítica da educação. O autor relaciona a palavra sujeito às palavras autonomia, liberdade e responsabilidade. Para o autor,

     

    Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguém amadurece de repente, aos 25 anos. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada. É neste sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade (Freire,1996, p. 55 – grifos nossos).

     

    Compreende-se que a autonomia, para o autor, é um processo pessoal, que se constrói lentamente a partir de experiências favoráveis, que permitam desenvolver a liberdade e a responsabilidade. No entanto, é possível que os professores que conhecem os textos de Freire, ao ler nos documentos de formação de professores palavras como autonomia, liberdade e responsabilidade relacionem as mesmas ao desenvolvimento do pensamento crítico e ao questionamento do papel que cada um de nós assume na sociedade. Porém, o contexto em que são mencionadas essas palavras nos atuais textos de formação docente é outro. São palavras que podem ser chamadas de “significantes vazios” (Laclau, Moufee, 2015), não porque não têm sentido, mas porque podem assumir muitos sentidos diferentes, de acordo com o contexto e os sujeitos em diálogo.

    Ao entrar em contato com discursos que se assemelham a outros que já conhecemos, conforme Orlandi (2002), cabe verificar como a memória ativa as condições de produção do discurso, o que envolve o contexto imediato, mas também o que fala antes é ativado e produz efeitos de sentidos. Dessa forma, os efeitos de sentidos depreendidos da obra de Freire, por exemplo, interagem com os textos que analisamos, produzidos num contexto neoliberal e no qual os mesmos vocábulos são utilizados com objetivos distintos, interferindo na compreensão e na constituição da identidade e das formas agir no mundo.

    Consideramos, como nos alerta Oliveira (apud Freire, 1996, p. 08) no próprio prefácio do livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, que

     

    Nesse contexto em que a ideologia neoliberal incorpora, entre outras, a categoria de autonomia é preciso também atentar para a força de seu discurso ideológico e para as inversões que podem operar no pensamento e na prática pedagógica ao estimular o individualismo e a competitividade. Como contraponto, denunciando o mal-estar que está se produzindo pela ética do mercado.

     

    Diante do que refletimos até o momento, consideramos que as mesmas palavras deslocadas de contexto, podem produzir efeitos de sentidos diferentes. Palavras comuns ao contexto das teorias críticas, a partir das obras de Paulo Freire, são trazidas a um contexto neoliberal, produzindo identidades individuais, a partir de uma ideologia do ser autônomo como ser um sujeito que prescinde de direitos sociais. Consideramos também que a ativação da memória, a partir de discursos semelhantes, mas oriundos de contextos diferentes, podem mascarar discursos hegemônicos.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

    Ao observar textos de formação de professores podemos observar “sentidos flutuantes” (Pêcheux, 2010) e palavras como autonomia e liberdade passam a produzir novos sentidos, mas também podem ocultar certas intenções dos discursos neoliberais.

    Para Carvalho e Galvão (2022, p.11), o que analisamos “no atual contexto se refere à transformação da liberdade em fetiche, [...] o que legitima a adaptação e a reprodução do sistema capitalista como fato natural e, ideológico, promovendo um vazio de possiblidade crítica”.

    Por fim, palavras como liberdade e autonomia produzem sentidos que transitam da criticidade e busca por direitos sociais para uma compreensão de que os sujeitos devem abdicar de direitos sociais em nome da “liberdade” e da “autonomia”. Palavras que constituem a identidade docente como um ser “autônomo”, mas que também nos leva a analisar que o professor é um propagador cultural. Assim, atuar na constituição identitária do professor é multiplicar ideias sobre como a sociedade e os sujeitos que a compõem se constituem.

     

    REFERÊNCIAS

     

    AMORIM, Rebeca. A falsa neutralidade da política curricular para o ensino médio no Brasil. 2025. 200 p.Tese (Doutorado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Centro de Ciências da Educação, Artes e Letras, Universidade Regional de Blumenau, Blumenau, 2025. Disponível em: http://bu.furb.br/docs/TE/2025/371384_1_1.pdf. Acesso em: 21 out. 2025.

     

    BRASIL. LEI No 14.945, DE 31 DE JULHO DE 2024. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2024/lei-14945-31-julho-2024-796017-publicacaooriginal-172512-pl.html. Acesso em: 21 out. 2025.

     

    CARVALHO, Celso Do Prado Ferraz De; GALVÃO, Nelson Luiz Gimenes. A educação integral na perspectiva da Pedagogia Histórico- Crítica: em defesa da educação escolar e do trabalho docente. Dialogia, n. 42, p. e22285, 26 set. 2022. Disponível em: https://periodicos.uninove.br/dialogia/article/view/22285. Acesso em: 21 out. 2025.

     

    Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

     

    LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemonia e Estratégia Socialista: por uma política democrática radical. São Paulo: CNPQ/Intermeios, 2015.

     

    Nosso Ensino Médio. Plataforma Nosso Ensino Médio. Disponível em: https://nossoensinomedio.org.br/. Acesso em: 21 out. 2025.

     

    Instituto Reúna. Consed aprova a Trilhares, a Recomposição no RS e o Relatório de Atividades 2023. E-mail, 28 set. 2024. Acesso em: 21 out. 2025.

     

    Instituto Reúna. Conheça o Instituto Reúna. Disponível em: https://www.institutoreuna.org.br/. Acesso em: 21 out. 2025.

     

    OLIVEIRA, Edina Castro. Prefácio. In: Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

     

    ORLANDI, Eni. Análise de Discurso. 4.ed. Campinas: Pontes, 2002.

     

    PECHÊUX, Michel. Semântica e Discurso. 3. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2010.

     

    SHIROMA, Eneida Oto; CAMPOS, Roselane Fátima; GARCIA, Rosalba Maria Cardoso. Decifrar textos para compreender a política: subsídios teórico-metodológicos para análise de documentos. Perspectiva, Florianópolis, v. 23, n. 2, p. 427-446, 2005. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/view/9769. Acesso em: 01 jun. 2025.

     

     

     

  • Palavras-chave
  • Formação de Professores, Ensino Médio, Institutos Filantrópicos, Políticas Educacionais.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
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