VACINAÇÃO EM TEMPOS DE DESINFORMAÇÃO: UMA PRÁTICA INTERDISCIPLINAR ENTRE HISTÓRIA E CIÊNCIAS NA ERA DIGITAL

  • Autor
  • Cíntia Mara Brighenti Radloff
  • Co-autores
  • Lilian Regina Hammermeister
  • Resumo
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    VACINAÇÃO EM TEMPOS DE DESINFORMAÇÃO: UMA PRÁTICA INTERDISCIPLINAR ENTRE HISTÓRIA E CIÊNCIAS NA ERA DIGITAL

     

    RADLOFF, Cíntia Mara Brighenti[1]

    HAMMERMEISTER, Lilian Regina[2]

     

    PALAVRAS-CHAVE: Vacina, desinformação, interdisciplinaridade.

     

    1 INTRODUÇÃO

     

    O programa brasileiro de imunização é um dos mais bem-sucedidos do mundo (Zorzetto, 2018), e todo esse esforço nacional fez com que muitas doenças deixassem de existir ao longo da nossa história. Entretanto, observando o cenário atual de baixa cobertura nas campanhas de vacinação no Brasil, o medo causado pela desinformação, em plena era digital, vai na contramão das descobertas e avanços científicos. Nos últimos anos, as taxas de imunização vêm apresentando reduções drásticas. Em Santa Catarina, por exemplo, a campanha de vacinação contra a poliomielite, em 2024, vacinou apenas 38,82% do público-alvo, segundo a Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DIVE) do estado. A meta era vacinar 95%. As baixas taxas de imunização preocupam professores, pesquisadores e profissionais da saúde, exacerbando a necessidade de conhecer e intervir nas circunstâncias que estão gerando essa realidade.

     

    Essa oportunidade de intervenção surgiu na aula de História da EEB Eliseu Guilherme, em 2024, quando a turma do 7º ano 7 estudava as mudanças na Europa Feudal, com foco na Peste Bubônica e suas consequências para aquela época. Imediatamente, a pandemia de Covid-19 passou a integrar a aula e, com isso, questões sobre as vacinas tornaram-se o centro das discussões, dividindo opiniões entre os estudantes e gerando a possibilidade de explorar as competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Para tanto, uma prática educativa interdisciplinar entre História e Ciências foi elaborada pelas docentes Cíntia M. B. Radloff e Lilian R. Hammermeister, com o objetivo de desenvolver um plano de comunicação dos riscos das baixas taxas de imunização, utilizando ferramentas e vocabulário acessíveis à população em geral.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

     

    Este relato de experiência apresenta relações entre a educação na era digital e os desafios escolares de uma educação midiática, articulando compreensões entre Gómez (2015, 2021) e Freire (2022), no sentido de compreender o papel da escola nesse contexto.

    A era digital é marcada pela facilidade de acesso à internet, às telas, às redes sociais e à informação, transformando a vida das pessoas. Historicamente, as transformações na humanidade demandavam um longo tempo para ocorrer; hoje, tudo é muito rápido. Como consequência, surgem novas formas de comunicação, pensamento, expressão e ação, o que pressupõe novas formas de viver, conviver, aprender e ensinar (Gómez, 2015).

    Freire, em seu livro Educar com a Mídia, escrito em 1983, discute a problemática dos meios de comunicação, debatendo principalmente as consequências da TV para a educação. Afirma o autor que os meios de comunicação, por si só, não são nem bons nem ruins: “O problema é perguntar a serviço ‘do quê’ e a serviço ‘de quem’ os meios de comunicação se acham. E essa é uma questão que tem a ver com o poder” (Freire, 2022, p. 36). Se Freire percebia esse problema em relação à TV, o que diria da internet e de sua capacidade de disseminar informações e desinformações com tamanha agilidade?

     

    Ao discutir a educação na era digital, Gómez (2015, p. 28) aponta como desafio da escola contemporânea “[...] transformar a enxurrada desorganizada e fragmentada de informações em conhecimento, ou seja, em corpos organizados de proposições, modelos, esquemas e mapas mentais que ajudem a entender melhor a realidade”. Freire também afirma a importância de a educação escolar não temer o diálogo com as novas tecnologias, buscando nelas contribuições para um aprender e ensinar conectados ao seu tempo.

    Essas compreensões teóricas nos permitiram perceber que, em relação aos programas de vacinação nacional, alguns meios de comunicação estão comprometidos com a desinformação. Dessa forma, a escola é desafiada a trabalhar com esses mesmos meios, transformando a enxurrada de informações em conhecimento e colocando-as a serviço da ciência, em linguagem clara e acessível. É isso que demonstraremos neste relato de experiência.

     

    3 METODOLOGIA

     

    Para comunicar essa prática educativa integrada, escolhemos como procedimento metodológico o relato de experiência. Justificamos essa escolha pela compreensão de que “a experiência é um dos mais importantes – muitas vezes, o único – de se colocar a educação em evidência para, portanto, pensar sobre, na, com e para a própria educação, com o intuito de renová-la” (Fortunato, 2018, p. 37). Compreendemos, como já explicitado no referencial teórico, que a escola na era digital necessita passar por um processo de renovação.

    Um relato de experiência deve apresentar elementos suficientes para reflexão em outros contextos. Por isso, Fortunato (2018) indica que sua estruturação deve conter nove elementos: antecedentes, local, motivo, agente, envolvidos, epistemologia para ação, planejamento, execução e análise por uma lente teórica. Os cinco primeiros elementos já foram especificados na introdução; questões sobre epistemologia são explicitadas no referencial teórico, sinalizando uma investigação com perspectiva de educação crítica. Os elementos restantes são apresentados a seguir.

     

    Para alcançar nosso objetivo geral, planejamos quatro objetivos específicos: a) conhecer algumas epidemias que o mundo sofreu ao longo da história e compreender como foi criada a primeira vacina; b) compreender a forma de ação das vacinas nos organismos e sua importância na prevenção de doenças; c) conhecer os motivos que levam as pessoas a deixarem de se imunizar; d) reconhecer a contribuição da ciência na promoção da saúde pública.

    A execução da prática ocorreu de forma interdisciplinar, articulando os componentes curriculares de História e Ciências. Nas aulas de História, foram trabalhados aspectos teóricos para a compreensão de que o mundo já viveu várias epidemias, a começar pela Peste Bubônica, discutindo na sequencia a pandemia de Covid-19. Conhecemos a história da produção da primeira vacina por meio de um vídeo educativo disponível nas redes, debatendo a importância delas para frear a proliferação de doenças, inclusive a Covid-19. Assim, percebemos a escola fazendo o movimento de chamar os meios de comunicação para ensinar e aprender, como sugere Freire (2022). Também é possível perceber o uso desses mesmos meios a serviço do conhecimento científico. Em Ciências, partimos do pressuposto de que, para combater o inimigo, devemos conhecê-lo, incorporando o método científico. Trabalhamos a dimensão microscópica do vírus, comparando-o a uma célula animal, explorando sua definição, características, o mecanismo de ação do sistema imunológico e o funcionamento das vacinas.

    Essa comparação desperta o olhar investigativo e crítico dos estudantes sobre os limites entre o que é vivo e não vivo, incentivando discussões sobre os critérios de vida. Além disso, estudamos bases teóricas da imunologia, permitindo que os alunos avaliem criticamente informações sobre saúde pública, vacinação e prevenção de doenças, algo essencial em tempos de desinformação.

    Como atividade central, os estudantes realizaram uma pesquisa para reconhecimento de notícias falsas sobre vacinação, analisando critérios como fonte, autoria, erros gramaticais e tom alarmista. Com base no conteúdo discutido em sala de aula, foram recriados (com papelão) visores de celular contendo as notícias veiculadas na mídia, sendo estas reconhecidas como verdadeiras ou falsas. Em seguida, os estudantes foram incumbidos de entrevistar três pessoas (um idoso, um adulto e um adolescente), que não podiam morar em sua casa, nem ser professor da escola ou colega da turma, para levantar como estava o quadro vacinal e os motivos da situação, tabulando dos dados e teorizando-os com base em artigos científicos com linguagem adaptada pelos docentes ao nível de ensino dos estudantes.

    Como atividade final, os estudantes elaboraram panfletos comunicando os riscos das baixas taxas de imunização e informações seguras sobre as vacinas, material foi publicado nas redes sociais dos estudantes e da EEB Eliseu Guilherme.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

     

    Os resultados da prática educativa demonstraram a eficácia da abordagem interdisciplinar na formação de um olhar investigativo e crítico dos estudantes, conforme sugerido por Freire (2022) e Gómez (2015, 2021). O trabalho com História e Ciências permitiu que os estudantes percebessem a escola fazendo o movimento de chamar os meios de comunicação para ensinar e aprender, colocando-os a serviço do conhecimento científico. A comparação entre a Peste Bubônica e a Covid-19, aliada ao estudo da imunologia, forneceu a base de conhecimento necessária para que os alunos pudessem avaliar criticamente as informações sobre saúde pública.

    A atividade de pesquisa e reconhecimento de notícias falsas, seguida pela tabulação dos dados das entrevistas, foi o ponto central da discussão. Os estudantes constataram que as justificativas relatadas pelos entrevistados que não estavam com o quadro vacinal em dia condizem com as pesquisas científicas que apontam os motivos da baixa adesão. No entanto, o processo de sistematização das informações realizado pela escola (Gómez, 2021) permitiu que os alunos compreendessem esses motivos como sem fundamento científico. Isso demonstra a capacidade da escola de transformar a “enxurrada desorganizada e fragmentada de informações” em conhecimento organizado, um dos desafios apontados por Gómez (2015).

    A elaboração e publicação dos panfletos nas redes sociais da escola e dos estudantes representa a culminância da proposta, onde o conhecimento adquirido é colocado a serviço da ciência e da comunidade. Essa ação reflete a importância de a educação escolar não temer o diálogo com as novas tecnologias (Freire, 2022), utilizando-as para a divulgação científica e o combate à desinformação, transformando os estudantes em agentes ativos na promoção da saúde pública.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

    A experiência relatada evidencia o potencial transformador da escola como espaço de produção de conhecimento crítico e socialmente relevante, especialmente diante dos desafios impostos pela era digital. Ao integrar os componentes curriculares de História e Ciências, foi possível promover uma aprendizagem significativa, conectada ao cotidiano dos estudantes e às demandas urgentes da sociedade, como a reflexão sobre a baixa adesão às campanhas de vacinação.

    A proposta permitiu que os estudantes compreendessem, de forma contextualizada, os impactos históricos e científicos das vacinas, bem como os riscos da desinformação. Ao investigar, sistematizar e comunicar informações confiáveis, eles não apenas desenvolveram competências previstas na BNCC, mas também se tornaram agentes ativos na promoção da saúde pública.

    O uso crítico dos meios de comunicação, como propõem Freire e Gómez, mostrou-se essencial para transformar informações dispersas em conhecimento estruturado. A escola, ao assumir seu papel de mediadora entre informação e conhecimento, contribui para formar sujeitos capazes de interpretar, questionar e intervir na realidade.

    Dessa forma, reafirma-se a importância de práticas interdisciplinares que dialoguem com os desafios contemporâneos, valorizem a pesquisa e a ação, e fortaleçam o compromisso da educação com a vida, com a ciência e com a cidadania.

     

    REFERÊNCIAS

     

    BELTRÃO, R. P. L.; MOUTA, A. A. N; et al. Perigo do movimento antivacina: análise epidemio-literária do movimento antivacinação no Brasil. Revista Eletrônica Acervo Saúde. V. 12; 2020.

     

    BOULOS, A. J. História: sociedade & Cidadania. 7º ano. Ensino Fundamental. 1 ed. São Paulo: FTD, 2022.

     

    BRASIL, Ministério da Educação. BNCC – Base Nacional Comum Curricular. Disponível em:

    <basenacionalcomum.mec.gov.br/abase>. Acesso em: 01 fev. 2024.

     

    FREIRE, P. Educar com a mídia: novos diálogos sobre educação. 5 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2022.

     

    FORTUNATO, I. O relato de experiência como método de pesquisa educacional. In:FORTUNATO, Ivan; SHIGUNOV NETO, Alexandre. Método(s) de Pesquisa em Educação. São Paulo: Edições Hipótese, 2018. p.37-p.50.

     

    GODOY, Leandro Pereira de; MELO, Wolney Ciências vida & universo : 7º ano . Ensino fundamental : anos finais / Leandro Pereira de Godoy, Wolney Candido de Melo. – 1. ed. – São Paulo . FTD, 2022.

     

    PÉREZ G. Á. I. Pedagogias para tempos de pandemias e perplexidades. Da informação à sabedoria. Tradução: Juliana Cristina Faggion Bergmann. Itapetininga: Edições Hipótese, 2021.

     

    __________. Educação na era digital: a escola educativa. Porto Alegre: Penso, 2015.

     

    SANTA CATARINA. Diretoria de Vigilância Epidemiológica. Disponível em: https://dive.sc.gov.br/index.php/noticias-todas/686-campanha-de-vacinacao-contra-a-poliomielite-termina-com- baixa-cobertura-vacinal. Acesso em 18/06/2024.

     

    https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/calendario. Acesso em 04/06/2024.

     

    https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/vigilancia_em_saude/doencas_e_agravos/index.p hp?p=359517. Acesso em 04/06/2024.

     

    ZORZATTO, R. As razões da queda na vacinação. Pesquisa Fapesp 270. 2018.

     

     

    AGRADECIMENTOS

    Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Brasil, pelo financiamento desta pesquisa por meio da concessão de bolsa de estudos.


    [1]  Doutoranda em Educação, Programa de Pós-graduação em Educação – PPGE da Universidade Regional de Blumenau- FURB, Blumenau, SC, Brasil, e-mail: cintia_m.b@terra.com.br.

    [2]  Pós-Graduada em Gestão e Educação Ambiental, Centro Universitário Leonardo da Vinci - UNIASSELVI, Indaial, SC, e-mail: 381191@profe.sed.sc.gov.br.

     

  • Palavras-chave
  • Vacina, desinformação, interdisciplinaridade.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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